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A Bayer começa a sentir o peso da Monsanto

Economia

Há ao menos duas narrativas conflitantes sobre o casamento da Bayer com a Monsanto. Uma promete grandes chances, boas perspectivas e balancetes fantásticos graças à megafusão.

“A aquisição da Monsanto é um passo muito importante na evolução da Bayer“, declarou o presidente da empresa alemã, Werner Baumann, aos acionistas na assembleia geral de maio, logo após a conclusão da transação. Diante de uma população mundial crescente e cada vez mais idosa, este seria um passo consequente e correto: “Muitos dos desafios mais urgentes de nosso tempo se apresentam nos campos da saúde e alimentação”, afirmou.

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A outra narrativa trata dos riscos de incorporar a Monsanto. Esta é mais longa, incluindo a questão de se o atual curso da agricultura industrial é sustentável e se continuará a ser trilhado no futuro. Atualmente, a questão é sobretudo um controverso pesticida chamado Roundup, que contém glifosato, substância sob suspeita de ser cancerígena.

Ninguém menos do que a Organização Mundial da Saúde concluiu que o glifosato “provavelmente” causa câncer. Juízes norte-americanos tem se orientado por esse ponto de vista: um tribunal de São Francisco acaba de condenar a Monsanto a pagar ao ex-jardineiro Dewayne Johnson uma indenização de 289 milhões de dólares, por não ter advertido devidamente sobre os ricos do emprego do Roundup.

A multinacional americana recorreu da sentença. Ainda assim, na Bolsa de Valores, os investidores estão fugindo em massa da Bayer, livrando-se o mais rápido possível de suas ações. Na segunda-feira 13, a cotação dos títulos dela caiu 11,2% em Frankfurt – uma perda fora do comum num só dia para uma empresa do índice DAX.

“É um crash, porque não se esperava uma pena dessa ordem de grandeza”, comenta o corretor Oliver Roth, do grupo financeiro Oddo Seydler. “Agora estamos vendo que os riscos são maiores do que se escutava antes, ao menos da parte da diretoria da Bayer.”

O Roundup contém glifosato, agente cangerigeno, segundo a OMS (Foto: Flickr)

Do ponto de vista econômico, é possível também estimar o risco de outra maneira: no último ano fiscal, a Monsanto teve um quarto de seu faturamento no setor de Agricultural Productivity: 3,7 bilhões de dólares basicamente graças às vendas de pesticidas com glifosato.

Esse é o primeiro processo nos Estados Unidos sobre o potencial cancerígeno do glifosato. Mas não será, nem de longe, o último: a Monsanto se encontra diante de mais de 5 mil ações semelhantes. “A coisa tem sempre um certo ‘efeito arrastão’. Possivelmente muitos ainda vão se associar a eventuais queixas coletivas”, prevê Uwe Treckmann, analista de setores do Commerzbank.

Do ponto de vista da Bayer e da Monsanto, ainda é cedo demais para pessimismo. Pois a Monsanto partirá para a próxima instância. Nos EUA não é inusual quantias punitivas serem significativamente reduzidas em processos subsequentes. Por vezes os juízes da instância superior até anulam as sentenças.

Segundo analistas da Barclays consultados pela agência de notícias Reuters, uma “dor de cabeça litigiosa” aguarda a Bayer. “Embora o recurso seja certo e possa até mesmo provavelmente resultar em a pena ser reduzida a um mínimo – se não anulada totalmente –, é bem provável que um grande número de casos pendentes agora vá se multiplicar.”

O analista Michael Leacock, da investidora Mainfirst, acredita que o veredicto ainda deverá pesar um bom tempo sobre as ações, devido à insegurança. O fato não é de espantar, pois caso Monsanto e Bayer realmente recebam penas nessas dimensões, logo se chegará à casa das centenas de bilhões de dólares, coisa que nenhuma empresa é capaz de sobreviver por meios próprios.


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