Do Micro Ao Macro
Valuation percebido pelo empresário nem sempre reflete o que o mercado pretende pagar
Consultor explica por que governança, eficiência operacional e gestão de riscos pesam mais do que o faturamento na hora de precificar um negócio.
O valuation que o empresário enxerga na própria empresa raramente coincide com o valor que o mercado se dispõe a pagar por ela. A avaliação, segundo especialistas em estruturação empresarial, depende de fatores que vão além do faturamento, como governança, eficiência operacional, gestão de riscos e capacidade de crescimento.
Diferença de valuation aparece na hora da venda
Em geral, o descompasso só fica evidente quando surge uma oportunidade concreta: venda do negócio, captação de recursos, entrada de um sócio investidor ou processo de fusão e aquisição. Droander Martins, CEO da IPV7, explica que, nesse momento, “muitos empresários descobrem que o valor que imaginavam ter construído não corresponde ao valor percebido pelos potenciais compradores”.
Por trás dessa diferença está uma lógica de mercado. Segundo Martins, “investidores não compram apenas faturamento. Eles compram previsibilidade, eficiência, governança, capacidade de crescimento e redução de riscos”. Assim, negócios com bom desempenho comercial podem carregar problemas operacionais capazes de reduzir o valor de mercado da operação.
Dependência dos sócios reduz o valuation
Entre os fatores que mais pesam na avaliação de uma empresa, o CEO da IPV7 cita a dependência excessiva dos sócios, a falta de processos documentados, indicadores inconsistentes, ausência de governança e riscos operacionais não mitigados. Para Martins, “tudo isso representa risco, e risco reduz valuation”.
Um exemplo ajuda a ilustrar o efeito prático dessa equação. Duas empresas com o mesmo faturamento e a mesma geração de caixa podem, na teoria, valer valores semelhantes. Na prática, isso raramente acontece. Enquanto uma possui processos definidos, indicadores claros e baixa dependência dos fundadores, a outra concentra decisões em poucas pessoas e enfrenta dificuldade para escalar. Ainda que os números pareçam próximos, a percepção de risco muda, e o valor atribuído pelo mercado muda junto.
Eficiência oculta compromete o valuation futuro
Outro ponto pouco observado pelos empresários é a eficiência operacional. Segundo Martins, empresas que crescem rápido costumam carregar desperdícios ocultos, que comprometem margens e reduzem a geração de caixa futura. Em uma avaliação mais aprofundada, essas ineficiências tendem a ser identificadas e incorporadas à precificação da transação.
Por isso, aumentar faturamento nem sempre significa aumentar valor. Na visão do consultor, “melhorar processos, reduzir desperdícios, fortalecer controles e profissionalizar a gestão gera mais impacto no valuation do que simplesmente crescer”.
Continuidade do negócio pesa para investidores
Além da eficiência, o mercado passou a observar com atenção a capacidade de continuidade das operações. Investidores buscam entender o que acontece caso o fundador deixe a empresa e se existem lideranças preparadas e processos estruturados para sustentar o crescimento sem depender da presença constante dos sócios. Segundo Martins, negócios capazes de responder a essas perguntas de forma positiva costumam despertar mais interesse e receber avaliações mais favoráveis.
Governança profissionalizada atrai mais interesse
Para o CEO da IPV7, valuation não se resume a uma fotografia financeira. “Valuation é, acima de tudo, uma análise da capacidade futura de geração de valor”, resume. Segundo ele, empresas que investem em governança, eficiência operacional, controles e gestão de riscos constroem algo além de um bom faturamento: um ativo capaz de atrair investidores dispostos a pagar pelo valuation que, de fato, a empresa representa.
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