Do Micro Ao Macro
IA promete devolver tempo aos líderes, mas sobrecarga só aumenta, mostram estudos
Levantamentos internacionais mostram que a adoção da inteligência artificial não reduziu a rotina de reuniões e mensagens dos executivos.
Mesmo com a expansão da inteligência artificial dentro das empresas, a sobrecarga de líderes segue em alta. Segundo o Work Trend Index 2025, da Microsoft, 53% dos executivos afirmam que a produtividade precisa aumentar, enquanto 80% dos profissionais dizem não ter tempo ou energia suficientes para dar conta do próprio trabalho.
Sobrecarga aparece a cada dois minutos
O levantamento da Microsoft ouviu 31 mil trabalhadores em 31 países e cruzou os resultados com trilhões de sinais anônimos de produtividade coletados no Microsoft 365. Um dos achados mostra que, em média, um profissional é interrompido a cada dois minutos por reuniões, e-mails ou notificações digitais.
Para Bruno Padredi, CEO da B2B Match, os números ajudam a explicar um fenômeno recorrente nas empresas. “Quanto mais ferramentas surgem para economizar tempo, maior parece ser a sensação de falta dele. A tecnologia tornou as tarefas individuais muito mais rápidas. O problema é que as organizações também passaram a exigir respostas mais rápidas, mais entregas e maior disponibilidade de seus líderes”, afirma o executivo, que também comanda a realização do HSM+ 2026, evento de liderança e gestão previsto para novembro em São Paulo.
Sobrecarga persiste apesar dos investimentos em IA
Um estudo da consultoria McKinsey reforça o cenário. Praticamente todas as empresas já investem em inteligência artificial, mas apenas 1% considera ter alcançado maturidade na adoção da tecnologia. Segundo a consultoria, o obstáculo não está na capacidade dos funcionários de usar as ferramentas, e sim na dificuldade das lideranças em redesenhar processos e mudar a forma como o trabalho acontece.
Muitas empresas digitalizaram tarefas, mas poucas reorganizaram o trabalho de fato. Para Glaucia Guarcello, CEO da HSM, o ganho de produtividade trazido pela IA está sendo absorvido pelo aumento da complexidade das organizações. “O resultado é um ambiente onde a IA produz mais conteúdo, mais análises, mais informações e mais possibilidades de decisão, aumentando, paradoxalmente, a carga cognitiva dos executivos”, diz.
Tempo sem valor direto alimenta a sobrecarga
A Deloitte chegou a um diagnóstico parecido. No relatório Global Human Capital Trends 2025, a consultoria aponta que os profissionais gastam 41% do tempo diário em atividades que não geram valor direto para o negócio, entre reuniões excessivas, processos burocráticos e tarefas administrativas. Para a empresa, o desafio da produtividade não está em fazer mais, mas em eliminar o que deixou de fazer sentido.
Capacidade de decisão segue sendo humana
Por isso, especialistas em gestão defendem que a produtividade não pode mais ser medida apenas pela quantidade de tarefas executadas. Para eles, o maior ativo da liderança segue sendo algo que a inteligência artificial ainda não substitui: a capacidade de interpretar cenários complexos, conectar informações, decidir sob incerteza e construir visão de longo prazo.
Reynaldo Gama, CEO da Ânima Empresas, resume o risco do movimento atual. “O risco é criar organizações extremamente eficientes para executar tarefas, mas cada vez menos capazes de refletir, inovar e tomar boas decisões. Esta mudança de paradigma explica por que temas como gestão da complexidade, novas competências de liderança, tomada de decisão e futuro do trabalho ganharam espaço nas discussões sobre negócios em todo o mundo”, afirma.
Esses temas entram na programação do HSM+, evento de liderança e gestão que reúne, nos dias 4 e 5 de novembro, no Distrito Anhembi, em São Paulo, especialistas nacionais e internacionais para discutir o próximo estágio da relação entre tecnologia e trabalho. A pergunta que fica, segundo os entrevistados, não é apenas se a IA aumentou a produtividade das empresas, mas o que as organizações fizeram com o tempo que a tecnologia prometeu devolver, num momento em que a sobrecarga dos líderes ainda não recuou.
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