Do Micro Ao Macro
Reforma Tributária no varejo: o maior risco não é o imposto novo, é o produto mal cadastrado
Com a substituição de cinco tributos por dois impostos sobre valor agregado, erros em dados cadastrais podem bloquear notas fiscais e travar operações inteiras.
O varejo brasileiro aprendeu, ao longo de décadas, a operar dentro de um dos sistemas tributários mais complexos do mundo. Alíquotas sobrepostas, legislações estaduais conflitantes e uma infinidade de códigos fiscais tornaram a emissão de uma simples nota fiscal um exercício de precisão técnica. Agora, esse sistema começa a ser redesenhado pela Reforma Tributária, e as mudanças chegam direto ao balcão, ao estoque e ao caixa.
A promessa é de mais transparência. A exigência, porém, é de muito mais tecnologia e controle de dados. “Essa é uma mudança estrutural, no alicerce sobre o qual o varejo brasileiro sempre funcionou. Quem não estiver preparado corre o risco de vender, não conseguir emitir a nota e ver a operação simplesmente travar”, afirma Chrystian Scanferla, head de Negócios da IRRAH Tech.
O que muda na prática com a Reforma Tributária
A reforma substitui cinco tributos que hoje compõem o preço de praticamente tudo no varejo: PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS. Em seu lugar, dois impostos sobre valor agregado são implementados de forma gradual: a CBS, de competência federal, e o IBS, estadual e municipal. Juntos, formam a base do IVA brasileiro, com implementação plena prevista para 2033.
“O Brasil passa a adotar um modelo próximo ao que já funciona na Europa e em economias avançadas, onde o imposto incide sobre o valor que cada empresa agrega ao produto ao longo da cadeia. Isso muda o jogo para o varejo”, destaca Scanferla.
No modelo antigo, o varejo trabalhava com o CST, Código de Situação Tributária. Com a reforma, surge uma classificação nacional padronizada que define como IBS e CBS incidem sobre cada item comercializado. E, diferentemente do que existia antes, o sistema passa a validar tudo em tempo real.
O cadastro virou risco operacional
A mudança inaugura um novo tipo de vulnerabilidade para o setor: o risco do dado incorreto. Em um sistema altamente automatizado e auditável, erros cadastrais passam a ter impacto direto sobre a operação e o caixa.
“A reforma correlaciona saída e entrada, transforma dados em lucro, custo ou prejuízo, porque tudo passa a incidir automaticamente em impostos. O lançamento de um produto, por exemplo, depende de um cadastro absolutamente correto. Um único código errado pode bloquear a emissão da nota fiscal, paralisar a venda e interromper o fluxo de caixa”, afirma o executivo.
Para lojas de moda, calçados, acessórios e comércio em geral, o maior desafio de 2026 não será a alíquota do imposto, mas a qualidade das informações que alimentam os sistemas fiscais. Um cadastro mal estruturado pode gerar tributação indevida, bloqueios fiscais e interrupções na cadeia de vendas.
Quem precisa se adaptar já em 2026
O cronograma da Reforma Tributária no varejo não atinge todo mundo ao mesmo tempo. A partir de janeiro de 2026, empresas enquadradas nos regimes de Lucro Real e Lucro Presumido já precisam emitir notas fiscais dentro do novo modelo de IBS e CBS. Será um ano de testes, mas os documentos precisam estar corretos desde o início.
Para as empresas do Simples Nacional, a obrigatoriedade chega em 2027. Isso, porém, não significa que o tema pode ser deixado de lado agora.
Scanferla aponta três pontos que passam a ser prioritários na rotina de qualquer loja: o cadastro de produtos, que precisa estar corretamente classificado para que a venda seja concluída; a emissão de nota fiscal, que agora valida IBS e CBS em tempo real e não aceita sistemas desatualizados; e o acompanhamento da margem real de lucro, já que o IVA passa a integrar a estrutura de preço e quem não monitora esse dado pode estar vendendo sem saber se está ganhando ou perdendo dinheiro.
“A reforma tributária não é um problema fiscal, é um desafio de gestão. Ela expõe quem realmente controla seus dados, seu estoque e sua margem, e quem opera no escuro. Quem tiver tecnologia para fazer isso de forma inteligente ganha velocidade”, conclui Scanferla.
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