Do Micro Ao Macro
Quem comanda a operação quando a IA também decide? Orquestração responde
Levantamento da Deloitte mostra que quase todas as empresas do país vão usar IA com autonomia, mas poucas sabem quem deve decidir o quê
Nove em cada dez empresas brasileiras planejam adotar agentes de inteligência artificial nos próximos dois anos, segundo levantamento da Deloitte. O dado expõe uma pergunta que passa a rondar as operações: quem organiza o trabalho quando as máquinas também tomam decisões? A resposta começa a se chamar orquestração, camada que coordena sistemas, robôs, IA e pessoas dentro de um mesmo processo.
Segundo o estudo State of AI in the Enterprise, da Deloitte, 95% das organizações no país pretendem usar IA agêntica em breve. Porém, apenas 27% afirmam ter modelos de governança prontos para isso. A distância entre os dois números mostra o tamanho do desafio que se forma dentro das empresas.
Orquestração entra em cena
Business Orchestration é o nome dado a essa camada de coordenação. Ela reúne agentes de IA, automações, sistemas e funcionários dentro de um único processo, do início ao fim. Além disso, define a sequência das ações e aponta quando uma decisão pode seguir sozinha ou precisa passar por uma pessoa.
Assim, essa lógica muda o ponto de partida da automação tradicional. Antes, o olhar recaía sobre tarefas isoladas. Agora, passa a olhar para o processo inteiro, do pedido inicial até a entrega final.
Gartner nomeia orquestração de BOAT
O Gartner batizou esse movimento de Business Orchestration and Automation Technologies, ou BOAT. De acordo com a consultoria, essas plataformas juntam orquestração de processos, conexão entre sistemas, desenvolvimento low-code e automação com agentes de IA.
Ainda segundo a consultoria, os investimentos globais em BOAT somaram cerca de US$ 7 bilhões em 2025. A projeção é que esse valor ultrapasse US$ 21 bilhões nos próximos anos, o que mostra a corrida das empresas por esse tipo de tecnologia.
Robôs isolados perdem espaço
Durante anos, o mercado mediu resultado pelo número de robôs em operação. Rodrigo Ferreira, CTO e fundador da Smarthis, descreve essa virada. Segundo Ferreira: “Durante muito tempo, o mercado mediu o sucesso pela quantidade de robôs implementados. Agora, o foco deixa de ser automatizar tarefas isoladas para coordenar toda a operação da empresa, conectando inteligência artificial, dados, pessoas e sistemas em uma única jornada”.
Dessa forma, o objetivo passa a ser conectar iniciativas que cresceram separadas dentro das empresas e uni-las em uma operação só.
Diferença entre chatbot e agente
Um chatbot tradicional recebe uma pergunta e devolve uma resposta pronta. Já um agente de IA recebe um objetivo e decide sozinho quais passos seguir para chegar lá.
Dentro de uma empresa, isso pode significar ler documentos, consultar um ERP, pedir uma aprovação e executar uma ação em outro sistema, tudo em sequência. Sem uma camada de orquestração, cada sistema pode funcionar bem sozinho e, mesmo assim, o processo completo travar no meio do caminho.
Pessoas seguem dentro da orquestração
Em casos de risco, exceção ou decisões que exigem julgamento humano, o fluxo pode prever uma aprovação manual. É o que o mercado chama de human in the loop.
Ou seja, a ideia é que a participação humana aconteça nos momentos em que agrega controle ou julgamento, em vez de usar profissionais como ponte entre sistemas que não se comunicam entre si.
Governança entra na pauta das empresas
Para Mauricio Grohs, vice-presidente regional da UiPath, a evolução da inteligência artificial pede uma forma diferente de pensar as operações dentro das empresas. Segundo Grohs: “Estamos entrando em uma nova fase da automação empresarial. Mais do que automatizar atividades específicas, as organizações precisam coordenar pessoas, sistemas e agentes inteligentes de forma integrada, com governança e visibilidade. O BOAT representa essa evolução ao transformar automação e inteligência artificial em uma estratégia operacional capaz de gerar resultados em escala”.
Por fim, depois de anos somando ERPs, CRMs, ferramentas de automação, plataformas em nuvem e, mais recentemente, modelos generativos e agentes de IA, as empresas passam a enfrentar o desafio de fazer esse conjunto de tecnologias funcionar junto. A corrida pela inteligência artificial entra em uma nova etapa, e o centro dela passa por uma pergunta simples: quem organiza a operação quando as máquinas também decidem? A resposta, para o mercado, começa a se chamar orquestração.
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