Do Micro Ao Macro
NR-1 chega às empresas enquanto burnout atinge 9 em cada 10 profissionais
Nova norma inclui riscos psicossociais na gestão obrigatória de saúde no trabalho, em meio a dados que apontam esgotamento generalizado.
A entrada em vigor da NR-1 recoloca a saúde mental na regulação trabalhista brasileira, justamente quando os indicadores de bem-estar corporativo mostram burnout em patamar recorde. Além de atualizar regras de segurança, a norma amplia a responsabilidade das empresas ao incluir, de forma mais explícita, os riscos psicossociais na gestão obrigatória de saúde e segurança ocupacional.
Segundo o Panorama do Bem-Estar Corporativo 2026, da Wellhub, 90% dos trabalhadores relataram sintomas de burnout no último ano. O número indica que o esgotamento deixou de ser um episódio isolado e passou a fazer parte da rotina de trabalho no país.
Para Karen Scavacini, doutora em psicologia pela USP e fundadora do Instituto Vita Alere, o aumento desses quadros está ligado à forma como o trabalho é organizado no dia a dia. Ela afirma: “O burnout não surge apenas do excesso de tarefas, mas de contextos em que há pressão constante, falta de previsibilidade, pouco espaço para diálogo e uma cultura que normaliza a exaustão como sinal de comprometimento.”
Impacto ultrapassa o ambiente corporativo
Os efeitos desse cenário vão além dos escritórios. A Organização Mundial da Saúde estima que depressão e ansiedade respondem por cerca de 12 bilhões de dias de trabalho perdidos por ano no mundo, o que transforma o sofrimento psíquico em um problema de produtividade em escala global.
Dentro das empresas, o estresse aparece distribuído em diferentes frentes. Um levantamento da Deloitte mostra que 40% dos impactos se concentram na saúde mental, seguidos por efeitos físicos, com 33%, e sociais, com 21%.
Assim, a pressão do trabalho não afeta apenas o desempenho, mas se espalha por outras camadas da vida dos trabalhadores.
Sono reflete o desgaste dos profissionais
O sono, um dos indicadores indiretos de saúde mental, reforça esse quadro. Ainda de acordo com a Wellhub, 69% dos profissionais dormem menos de sete horas por noite, patamar associado, na literatura médica, a maior risco de burnout, ansiedade e queda de desempenho cognitivo.
Norma muda o status da saúde mental
A NR-1 funciona como um divisor na forma de tratar o tema. Ao incluir os riscos psicossociais no escopo de segurança e saúde do trabalho, a norma tira a discussão do campo do bem-estar e a coloca no território da conformidade legal.
Dessa forma, pressão por metas, organização do trabalho, carga horária e ambiente psicológico deixam de ser apenas temas de gestão e passam a integrar a matriz formal de riscos ocupacionais.
Andre Purri, CEO da HRTech Alymente, avalia: “Empresas que equilibram controle organizacional e autonomia individual protegem seus talentos e ainda criam vantagem competitiva. Equipes saudáveis são mais inovadoras, adaptáveis e capazes de manter alta performance sob pressão.”
Responsabilidade das empresas se amplia
Com a mudança, a saúde mental deixa de ser tratada apenas por programas isolados de recursos humanos e passa a integrar o desenho estrutural da operação. O impacto esperado envolve a revisão de processos, indicadores e formas de organizar o trabalho, e não apenas a criação de políticas internas.
O momento também aponta para uma reprecificação do custo do estresse dentro das empresas. Ao incorporar fatores psicossociais na NR-1, a regulação formaliza um deslocamento: o bem-estar deixa de ser benefício e passa a integrar a infraestrutura obrigatória de gestão de risco.
Com a norma em vigor, o enfrentamento do burnout deve ganhar prioridade nas agendas de recursos humanos ao longo dos próximos anos.
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