Do Micro Ao Macro
Microcrédito avança 55% no país e deve superar R$ 2 bilhões em 2026
Setor fechou 2025 com R$ 1,9 bilhão emprestado, ampliou base de clientes e mira novas frentes em moradia, saúde e educação após mudança na legislação
O microcrédito virou peça relevante na engrenagem de inclusão produtiva do país e fechou 2025 com avanço acima de qualquer linha tradicional do sistema financeiro. Dados da Associação Brasileira de Entidades Operadoras de Microcrédito e Microfinanças (ABCRED) mostram que o valor emprestado pelas instituições associadas ultrapassou 1,9 bilhão de reais no período, alta de 57% sobre 2024.
A base de clientes ativos chegou a cerca de 238 mil pessoas, crescimento de 53% em um ano, enquanto a carteira ativa avançou 55%. Parte da expansão reflete a entrada de uma nova instituição na base da entidade, o que pesa na comparação anual. Mesmo descontado esse efeito, o setor cresceu em torno de 25%, ritmo que a associação considera sustentável.
Por trás do desempenho, a ABCRED aponta dois movimentos. De um lado, instituições mais maduras, com uso de tecnologia e equipes capacitadas. De outro, um público de pequenos empreendedores que passou a valorizar o crédito acompanhado de orientação técnica.
Crédito orientado puxa expansão das operações
Segundo a presidente da ABCRED, Isabel Baggio, o avanço é resultado direto da combinação entre estrutura mais robusta das instituições de microfinanças e uma demanda que migrou do empréstimo solto para o crédito assistido. “Houve evolução na estrutura das IMFs, com equipes mais preparadas e uso de tecnologia, o que aumentou a eficiência”, afirma.
A executiva destaca também o vínculo com o tomador do empréstimo. “Ao mesmo tempo, cresce a demanda por um crédito que inclui orientação, apoio técnico e educação financeira, o que fortalece a relação com os empreendedores e mantém a inadimplência em torno de 4%, abaixo da média do sistema financeiro”, diz Baggio.
O patamar de calote menor que o registrado em outras linhas do mercado financeiro é, de acordo com a entidade, um dos fatores que dão fôlego à expansão e ajudam a atrair novos operadores para a base associada.
Carteira pode passar de R$ 2 bilhões em 2026
Para o ciclo seguinte, a expectativa segue positiva. A entidade projeta que a carteira total das instituições associadas deve superar 2 bilhões de reais em 2026, impulsionada pelo avanço do empreendedorismo como alternativa de renda em meio às mudanças no mercado de trabalho.
Outro vetor importante de crescimento veio da regulamentação. A Lei 15.364, sancionada em março de 2026, permite que até 20% da carteira das instituições seja direcionada a áreas como moradia, saneamento, saúde e educação, abrindo frentes inéditas de atuação para o setor.
Na avaliação de Baggio, o ajuste atende a demandas antigas das famílias atendidas pelas operadoras. “A ampliação do escopo fortalece o papel das microfinanças e permite desenvolver soluções mais adequadas às necessidades dos empreendedores e de suas famílias”, afirma a presidente da associação.
Microcrédito reforça renda do pequeno negócio
Na ponta, o efeito do empréstimo de pequeno valor se mede em estoque renovado, equipamento adquirido e novos postos de trabalho criados em negócios familiares. O acesso ao crédito viabiliza investimentos que dificilmente sairiam do papel pelas vias bancárias tradicionais.
Esse movimento ocorre em paralelo a uma reconfiguração do mercado de trabalho, em que abrir o próprio negócio deixou de ser plano B para milhões de brasileiros e passou a ser principal fonte de renda. Para empreendedores nessa condição, o acompanhamento das instituições reduz a chance de endividamento descontrolado.
Por outro lado, a ABCRED reforça que o avanço do setor precisa vir acompanhado de prudência. “O microcrédito responsável é essencial para garantir que o crédito seja uma solução, e não um problema”, afirma Baggio.
A executiva resume o cuidado que cerca o atendimento ao público de baixa renda. “Em um momento de alto endividamento da população de baixa renda no país, a orientação é fundamental para que esse recurso contribua de fato para o desenvolvimento dos negócios e a autonomia econômica dos empreendedores”, diz a presidente da entidade.
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