Do Micro Ao Macro

41% dos líderes admitem falta de ferramentas para acolher sofrimento emocional

Recorde de afastamentos por saúde mental no Brasil expõe despreparo de gestores diante das novas regras da NR-1

41% dos líderes admitem falta de ferramentas para acolher sofrimento emocional
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Cinco sinais de que a cultura da sua empresa está adoecendo as mulheres adoecimento mulheres Saúde Mental no trabalho
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Mais de 40% dos líderes brasileiros não têm ferramentas para lidar com riscos psicossociais nas equipes, segundo levantamentos de mercado. O dado ganha peso diante de outro número: o Brasil fechou 2025 com mais de 546 mil afastamentos motivados por transtornos mentais e comportamentais, o maior registro da década.

Os dois números, juntos, expõem uma distância entre o discurso corporativo sobre bem-estar e a capacidade real dos gestores de perceber sinais de sofrimento emocional antes que eles se tornem incapacidade para o trabalho.

Paralelamente, a Norma Regulamentadora nº 1 passou a exigir a inclusão de riscos psicossociais nos Programas de Gerenciamento de Riscos. Ainda assim, quase 70% das empresas dizem não entender por completo as mudanças trazidas pela norma, o que abre espaço para falhas na forma como tratam a saúde dos funcionários.

Despreparo na linha de frente

Embora termos como segurança psicológica tenham se popularizado nas empresas, muitos gestores chegaram aos cargos por competências técnicas e não recebem suporte para reconhecer sinais de exaustão ou ansiedade. Sem ferramentas de avaliação estruturada, o gestor tende a interpretar queda de produtividade como falta de comprometimento e responde com cobrança em vez de escuta.

Um exemplo recorrente ajuda a entender o problema: um funcionário que passa a atrasar entregas e se isolar em reuniões costuma receber uma advertência sob a ótica de desempenho. Sem preparo para uma escuta ativa, o gestor não percebe que esse comportamento pode indicar burnout. Sem um canal de saída, o profissional segue em silêncio até que o quadro se agrave e termine em afastamento médico, desfecho que muitas vezes poderia ter sido evitado com uma intervenção anterior.

Uma parte desses gestores nunca passou por treinamento formal voltado ao acolhimento de demandas emocionais das equipes. Heloísa Moraes, head de gente e gestão da Contato Seguro, afirma que um canal de acolhimento estruturado ajuda a mapear um sofrimento que antes não aparecia nos registros da empresa, dando à companhia a chance de agir antes que o quadro se agrave.

Segundo ela, o silêncio do funcionário não significa ausência de problemas, mas falta de um ambiente seguro para falar sobre eles, o que sobrecarrega o RH com casos que chegam em estágio já avançado. Por isso, o problema costuma só aparecer para o RH quando o funcionário já atingiu o limite da saúde física e mental. Sem dados de prevenção, a empresa perde a chance de agir nas causas do adoecimento, como sobrecarga de tarefas ou cultura de gestão por pressão.

Líderes não bastam como único filtro

A falta de um processo claro de escuta compromete a prevenção de riscos psicossociais. Quando o único caminho para um relato é o feedback direto ao gestor, que em muitos casos é a própria origem do desgaste, o sistema não funciona. Dados do Anuário da Contato Seguro mostram que 77,7% das pessoas se sentem mais seguras para tratar de problemas emocionais do trabalho quando podem fazê-lo de forma anônima.

Para Moraes, a percepção individual do gestor não pode ser a única medida da saúde de um time. Por isso, defende um processo que estimule a escuta ativa e converta relatos em dados que orientem decisões da alta gestão.

Diante das novas exigências da NR-1 e da busca por reduzir o absenteísmo, parte das empresas tem adotado o chamado canal de acolhimento. Diferente de uma ouvidoria tradicional, a ferramenta tem foco em suporte psicológico e coleta de dados que ajudam a antecipar crises antes que evoluam para afastamentos.

O canal funciona com escuta feita por psicólogos ouvidores, disponível 24 horas por dia, todos os dias da semana, o que garante atendimento ao funcionário no momento da crise, independentemente do turno ou da localização.

Segundo Moraes, a ferramenta permite que o funcionário relate situações de pressão excessiva em um ambiente neutro, sem depender da escuta do próprio gestor. Se alguém se sentir sobrecarregado às 22h, encontra atendimento imediato: o psicólogo faz a estabilização emocional e registra o caso, o que dá à empresa um retrato mais completo dos riscos psicossociais entre os funcionários.

Além disso, o canal documenta e acompanha de forma contínua os riscos psicossociais identificados dentro da empresa. Os relatórios gerados a partir desses registros ajudam empresas de diferentes portes a agir na raiz dos problemas, com intervenções tanto coletivas quanto individuais.

Custo financeiro e fiscalização

A reincidência de licenças médicas eleva o Fator Acidentário de Prevenção, o que aumenta a contribuição previdenciária da empresa e transforma o adoecimento em um custo contábil recorrente.

No campo fiscal, a NR-28 prevê punições para o descumprimento das normas de segurança e saúde no trabalho. Com os riscos psicossociais incorporados à norma principal, a falta de uma metodologia para avaliar e reduzir esses riscos deixa as empresas expostas a multas e processos trabalhistas.

A estruturação da escuta deixa, assim, de ser uma ação voluntária de engajamento e passa a ser exigida tanto pelas regras de compliance quanto pela própria continuidade das operações.

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