Do Micro Ao Macro
Letramento emocional vira exigência além do cumprimento da NR-1
Psicólogo Rossandro Klinjey explica por que normas trabalhistas não bastam para reduzir burnout e ansiedade nas empresas
A discussão sobre saúde mental corporativa avançou nos últimos meses, mas o letramento emocional ainda falta na maioria das empresas brasileiras. Para o psicólogo Rossandro Klinjey, especialista em saúde coletiva e formação de lideranças, a entrada em vigor da NR-1 trouxe visibilidade ao tema, porém não resolve a raiz do problema.
Segundo ele, cumprir a norma regulamentadora não significa compreender o peso emocional das relações de trabalho. Por isso, defende que empresas precisam ir além da exigência legal e investir em formação para reconhecer e lidar com emoções dentro das equipes.
Norma chega, mas desafio é maior
Klinjey afirma que a NR-1 cumpre um papel simbólico ao colocar a saúde psicológica como risco real à carreira e à vida, e não como fragilidade pessoal. Para ele, no entanto, nenhuma norma consegue regular sozinha a forma como pessoas lidam com limites, conflitos e emoções no ambiente profissional.
“Existe uma dimensão que nenhuma norma consegue regular sozinha: a forma como as pessoas aprendem a lidar com suas emoções, seus limites, suas relações e seu próprio sentido de vida”, diz Klinjey.
O psicólogo lança, em seu podcast Cuidando da Alma, uma série de conteúdos voltada à NR-1. Nela, defende que aplicar a norma na prática depende diretamente do letramento emocional, ou seja, da capacidade de reconhecer sentimentos, entender seus efeitos nos relacionamentos e tomar decisões com mais clareza diante de pressão e mudança.
Décadas de formação técnica deixaram lacuna
Para Klinjey, o mercado formou profissionais durante décadas para bater metas e liderar equipes, mas pouco ensinou sobre reconhecer sofrimento emocional ou identificar sinais de esgotamento.
“É impossível falar de saúde mental sem falar de letramento emocional”, destaca.
A lacuna recai com mais força sobre lideranças. Gestores, executivos e CEOs assumem agora a tarefa de conduzir mudanças culturais e transformar discurso em rotina, segundo o psicólogo.
Iniciativas pontuais, como salas de descompressão ou palestras isoladas, ajudam pouco quando a cultura da empresa naturaliza jornadas longas, disponibilidade permanente e relações desgastadas, avalia Klinjey. “O que protege a saúde mental não é um benefício. É uma cultura saudável”, explica.
Identidade ligada ao cargo aumenta risco emocional
Outro ponto observado por Klinjey envolve a relação que profissionais constroem com o próprio trabalho. Muitos passaram a apoiar a identidade quase inteiramente na carreira, o que confunde produtividade com valor pessoal e ajuda a explicar o crescimento de casos de burnout e ansiedade nos últimos anos.
“Quem somos quando não estamos produzindo? Quando a identidade da pessoa está totalmente ligada ao cargo, ao resultado ou à performance, qualquer crise profissional passa a ser percebida como uma crise de valor pessoal”, questiona o psicólogo.
Vida pessoal influencia ambiente de trabalho
Klinjey também chama atenção para a separação artificial entre vida pessoal e profissional. Experiências familiares e sociais afetam diretamente a saúde emocional de cada trabalhador, e empresas que reconhecem essa integração tendem a construir ambientes mais saudáveis.
Assim, segundo o psicólogo, sairão na frente as organizações que tratarem a saúde mental como parte permanente da rotina, com formação contínua de lideranças, espaços reais de escuta e fortalecimento da segurança psicológica entre trabalhadores. “As organizações que já entenderam isso estão mais preparadas para construir ambientes verdadeiramente saudáveis”, conclui.
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