Do Micro Ao Macro
Inteligência artificial no varejo: Copa deve movimentar 99 milhões de consumidores
Pesquisa da CNDL e SPC Brasil mostra que 60% dos brasileiros pretendem consumir durante o torneio, pressionando logística, estoque e meios de pagamento das empresas
Cerca de 99,2 milhões de brasileiros devem consumir algum produto ou serviço durante a Copa do Mundo de 2026. O número vem de levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, que apurou que 60% da população planeja gastar durante o torneio, volume que coloca o evento ao lado do Natal entre os períodos de maior pressão para o setor.
Para dar conta dessa demanda, o varejo recorre à inteligência artificial com uma frequência que já não é mais projeção. Pesquisa da Zucchetti Brasil, em parceria com a Central do Varejo, revela que 59% dos varejistas já utilizam soluções baseadas em IA. Outros 90% afirmam que pretendem ampliar os investimentos na tecnologia nos próximos meses.
Bernardo Rachadel, diretor de Varejo da Zucchetti Brasil, avalia que o setor entrou em uma fase mais madura de adoção tecnológica. “A inteligência artificial deixou de ser tendência e passou a sustentar operações críticas, especialmente em períodos de alta demanda. As empresas estão usando a tecnologia para compreender o comportamento do consumidor, prever oscilações de consumo e oferecer operações mais eficientes e experiências mais personalizadas”, afirma.
Operações sob pressão
Além dos dados de consumo, o torneio impõe um ritmo diferente sobre toda a cadeia operacional. Gestão de estoque, logística, reposição, atendimento omnichannel e alocação de equipes passam a exigir respostas em tempo real — tarefa que, segundo especialistas, está sendo assumida por agentes de inteligência artificial.
Stefan Furtado, gerente regional da Manhattan Associates, aponta uma mudança importante no perfil de uso da tecnologia. “Durante muito tempo, a IA esteve mais associada a campanhas de marketing e atendimento ao consumidor. Agora, vemos um avanço da IA operacional, atuando diretamente na execução do varejo e da cadeia de suprimentos”, diz.
Para Furtado, eventos de alta demanda tornam ainda mais visível o impacto dessas ferramentas. “O comportamento de consumo muda rapidamente e a operação precisa acompanhar esse ritmo quase instantaneamente. A capacidade de antecipar rupturas, redirecionar recursos e ajustar pedidos em tempo real tem impacto direto na experiência do consumidor e nos resultados do varejo”, afirma o executivo.
Prevenção de perdas
O aumento do fluxo nas lojas também intensifica os riscos operacionais. Furtos, falhas no autoatendimento e ruptura de estoque tendem a se multiplicar quando o volume de clientes cresce em curto espaço de tempo.
Rodrigo Tessari, CEO da Deconve, startup especializada em prevenção de perdas no varejo físico, afirma que o monitoramento manual já não acompanha a dinâmica das lojas em picos de demanda. A empresa oferece uma solução de reconhecimento facial, o Deconve ID, que combina inteligência artificial com uma base de mais de 15 mil cadastros para identificar ocorrências em tempo real.
“O varejo precisa identificar comportamentos suspeitos e reincidência de furtos com mais rapidez e precisão. A câmera funciona hoje como uma camada de inteligência operacional, e a IA ajuda a sustentar a operação e reduzir perdas em momentos críticos”, explica Tessari.
Pagamentos e fraudes
A pressão também chega aos meios de pagamento. Com o volume de transações aumentando durante o torneio, crescem os riscos de falhas operacionais e tentativas de fraude — o que exige monitoramento contínuo por parte de bancos e fintechs.
Rafaela Helbing, CEO da Data Rudder, ressalta que velocidade de processamento, por si só, não é suficiente. “As instituições precisam garantir que toda a operação aconteça em ambientes seguros, integrados e preparados para responder rapidamente a oscilações de comportamento e tentativas de fraude”, afirma.
Helbing também aponta um gargalo recorrente no setor financeiro brasileiro. “A IA só consegue atuar com confiabilidade quando existe governança de dados, integração entre sistemas e ambientes protegidos. Um dos principais desafios continua sendo o controle de acessos e a mitigação de riscos humanos dentro de operações críticas, como o Pix”, diz.
Agentes digitais e compras automatizadas
Além da operação interna das empresas, a inteligência artificial no varejo começa a influenciar a jornada de compra antes mesmo de o consumidor abrir um aplicativo ou acessar um site. Alexandre Caramaschi, cofundador da Naia, observa que plataformas como ChatGPT e Gemini já passaram a recomendar produtos e marcas durante o processo de pesquisa dos consumidores.
O avanço dos chamados pagamentos agênticos — em que agentes de IA pesquisam, selecionam e concluem compras em nome do usuário — deve acelerar a automação no varejo durante períodos de pico. “Tecnologias como o Pix Automático, a tokenização e a autenticação criptográfica tendem a permitir compras mais rápidas e seguras, conectando descoberta, pagamento e logística em uma única experiência. As empresas que conseguirem integrar essas camadas devem sair na frente em conversão e fidelização de clientes”, afirma Caramaschi.
A velocidade de adoção, porém, traz alertas. Carlos Perobelli, fundador do theGarage IA, lembra que o mau uso da tecnologia e a ausência de governança sobre decisões automatizadas podem comprometer tanto a operação quanto a reputação das empresas. “Existe uma tendência das empresas se tornarem cada vez mais IA-first, mas isso precisa acontecer dentro de ambientes controlados, com mecanismos de validação e definição clara de responsabilidade sobre as decisões automatizadas”, afirma. O avanço da inteligência artificial no varejo, portanto, depende tanto da tecnologia disponível quanto da capacidade das empresas de gerenciá-la com critério.
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