Do Micro Ao Macro

Brasileiro sente inflação antes do IBGE confirmar, revela estudo

Levantamento do Ibevar-FIA compara 22 anos de IPCA com buscas no Google e mostra que percepção de inflação segue o ritmo mensal do índice oficial

Brasileiro sente inflação antes do IBGE confirmar, revela estudo
Brasileiro sente inflação antes do IBGE confirmar, revela estudo
Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado
Apoie Siga-nos no

Pesquisadores do Ibevar em parceria com a FIA Business School compararam 22 anos de dados do Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, com o volume de buscas no Google sobre preços. A conclusão aponta que o brasileiro sente a inflação no mesmo mês em que o choque de preços ocorre, antes de o IBGE divulgar o índice oficial.

O estudo, batizado “Não É Só Impressão: A Percepção Popular Segue o Ritmo Real da Inflação” e divulgado em agosto de 2026, aplicou o teste estatístico de Engle-Granger para verificar se o IPCA e o volume de menções digitais caminham juntos ao longo do tempo, relação que os economistas chamam de cointegração.

Para captar o humor do consumidor, a equipe rastreou 24 termos no Google Trends entre janeiro de 2004 e agosto de 2026, agrupados em três blocos: expressões de custo de vida geral, como “tá tudo caro” e “não dá pra comprar”; itens específicos, como “preço do arroz” e “aluguel caro”; e estratégias de economia, como “produto mais barato” e “app de desconto”.

Percepção some no acumulado

Quando os pesquisadores compararam o patamar total de preços com o volume acumulado de buscas ao longo das décadas, as duas séries não se mostraram cointegradas. A distância entre elas cresceu de forma contínua, saindo de cerca de 2.200 pontos em 2004 para cerca de 7.200 pontos em 2026, sem sinal de retorno ao equilíbrio.

Na prática, segundo o levantamento, a memória do consumidor perde a régua do acumulado. O brasileiro não guarda a conta de quanto os preços já subiram ao longo dos anos, mesmo sentindo o peso da alta no dia a dia.

Sensor de curto prazo capta a inflação em tempo real

A história muda quando a lente do estudo passa a olhar para a variação mês a mês. Nesse recorte, IPCA e buscas digitais mostram forte cointegração, conforme aponta a pesquisa.

Claudio Felisoni de Angelo, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School, resume o achado com uma metáfora. “É como um motorista que não faz ideia de quantos quilômetros o carro já rodou no total, mas sente na hora qualquer buraco, lombada ou freada brusca no caminho. O odômetro da inflação não bate com a percepção acumulada, mas o volante, o ritmo de curto prazo, anda em sincronia quase perfeita com o que a população sente mês a mês”, afirma.

Buscas digitais podem antecipar o dado oficial

O estudo também aplicou o teste de causalidade de Granger, que mede antecedência temporal e capacidade preditiva entre duas séries. O resultado indica que o histórico de buscas contém informação estatística relevante para prever a variação do IPCA no mês seguinte.

A explicação passa pelo calendário de apuração. Enquanto o consumidor reage no varejo e manifesta a indignação na internet quase de imediato, o IBGE coleta os dados ao longo do mês e só publica o índice semanas depois. Por isso, segundo os autores, o volume de buscas funciona como um alerta antecipado da taxa de inflação que será divulgada.

Susto tem prazo de validade

Além de medir a sincronia entre as duas séries, o estudo calculou quanto tempo leva para o susto inicial do consumidor se dissipar. A meia-vida do exagero é de cerca de 2,3 meses, prazo em que metade do impacto emocional já foi absorvido pela população.

Depois de cerca de 7,7 meses, 90% do exagero se dissipa e a percepção volta a se equilibrar com o dado real do IPCA. Felisoni compara o fenômeno a uma queimadura. “A dor é instantânea, mas a febre do alarde leva cerca de dois meses e meio para baixar pela metade”, diz.

O que a pesquisa significa para o mercado

Para os autores, o volume de menções digitais funciona como termômetro prévio do IPCA e pode ser útil para gestores, formuladores de política econômica e analistas de mercado que acompanham o ritmo da inflação antes da divulgação oficial.

O estudo teve a coordenação de Claudio Felisoni de Angelo, com participação de José Augusto Giesbrecht da Silveira, Carlos Eduardo Furlanetti, Nuno Manoel Martins Dias Fouto e Cesar Canassa, todos ligados ao Ibevar e à FIA Business School.

ENTENDA MAIS SOBRE: , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo