Do Micro Ao Macro

Por que o e-commerce erra ao tratar inadimplente como cliente perdido

Com mais de 80 milhões de negativados, empresas digitais passam a rever abordagem com consumidores em atraso para reduzir perdas e preservar relacionamento

Por que o e-commerce erra ao tratar inadimplente como cliente perdido
Por que o e-commerce erra ao tratar inadimplente como cliente perdido
Inadimplência no e-commerce deixa de ser exceção e muda estratégia de cobrança
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A inadimplência no e-commerce deixou de ser um episódio pontual e passou a integrar a rotina das empresas digitais. Com mais de 80 milhões de brasileiros negativados, segundo o Serasa, plataformas de comércio eletrônico enfrentam o desafio de lidar com atrasos em escala, em um modelo de negócio que depende de recorrência, dados e relacionamento contínuo com o consumidor.

O tema ganhou peso diante do custo crescente de aquisição de clientes e da ampliação da concorrência no ambiente digital. Para Thiago Oliveira, CEO da Monest, tratar o inadimplente como cliente perdido representa um erro operacional e financeiro. “Abrir mão de quem já comprou, confiou e teve relação com a marca é desperdiçar histórico, dados e potencial de retomada”, afirmou.

Mudança no perfil da inadimplência

A leitura sobre o comportamento do consumidor em atraso também mudou. Segundo especialistas do setor, a inadimplência atual está mais associada a restrições orçamentárias do que à intenção de não pagar.

Pressão inflacionária, custo de vida mais alto e decisões financeiras tomadas em momentos de instabilidade ampliaram o número de atrasos temporários.

Para Oliveira, esse contexto exige revisão de práticas. “A inadimplência hoje, na maioria dos casos, não é resultado de má-fé”, diz. A partir desse diagnóstico, empresas que revisam seus processos tendem a migrar de modelos punitivos para estratégias baseadas em negociação orientada por dados.

Cobrança tradicional é ineficiente

No ambiente digital, abordagens rígidas mostram limites claros. Processos centrados em telefonemas, horários restritos ou linguagem agressiva reduzem as chances de acordo e ampliam o desgaste da marca. Em um ecossistema em que redes sociais e plataformas de avaliação amplificam experiências negativas, o impacto reputacional pode ser imediato.

“A experiência do cliente não termina no checkout. Ela continua quando algo dá errado”, afirma Oliveira. Segundo ele, uma cobrança mal conduzida pode comprometer anos de construção de marca em poucos minutos.

Negociação inteligente e ajustadas ao perfil do cliente

A resposta de parte do setor tem sido investir em canais digitais de negociação, com acordos ajustados ao perfil do consumidor.

O uso de dados de compra, histórico de pagamentos e comportamento de navegação permite ofertas mais compatíveis com a capacidade de pagamento de cada cliente.

Negociar melhor, nesse modelo, não significa abrir mão de previsibilidade financeira. “Significa criar acordos viáveis, com comunicação clara e acessível”, explica o CEO da Monest. Plataformas automatizadas permitem escalar negociações sem ampliar conflitos, mantendo controle sobre prazos e valores.

Fidelização entra no cálculo

Além da recuperação do crédito, a renegociação traz efeitos de longo prazo. Consumidores que conseguem resolver pendências de forma transparente tendem a retomar compras com maior frequência. “O cliente percebe que foi tratado como alguém, não como um número”, afirma Oliveira.

Esse comportamento passa a ser relevante em um mercado pressionado por margens menores e maior disputa por atenção. A inadimplência no e-commerce, quando tratada como parte da jornada, deixa de ser apenas um problema financeiro e passa a integrar a estratégia de retenção.

Cobrança como parte da jornada

Para 2026, a tendência é que empresas digitais incorporem a inadimplência aos seus fluxos regulares de relacionamento. Quem mantiver exclusivamente modelos tradicionais tende a perder receita e espaço competitivo. Já quem investir em negociação digital, segundo especialistas do setor, deve preservar caixa e ampliar a fidelidade da base ativa.

Como resume Thiago Oliveira, “o e-commerce precisa entender que a inadimplência não encerra a relação com o cliente”. Em um ambiente de consumo mais restrito, a forma de cobrar passa a ser tão relevante quanto a forma de vender.

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