Do Micro Ao Macro
Falhas de IA no marketing exigem protocolos rigorosos para gestão de crise
Alucinações em ferramentas de inteligência artificial expõem marcas a riscos jurídicos e de reputação que exigem protocolos claros de verificação e retratação
As falhas de IA no marketing já custam mais do que tempo. Custam reputação. O uso de inteligência artificial generativa para produção de conteúdo cresceu de forma acelerada nas empresas, mas trouxe junto um problema pouco discutido: as chamadas “alucinações“, quando o sistema simplesmente inventa dados, cita fontes inexistentes ou distorce informações que parecem, à primeira vista, críveis.
O relatório State of AI in 2024, da McKinsey, mostra que a mitigação desses riscos ainda é incipiente. A pesquisa aponta que, apesar de privacidade, segurança de dados e confiabilidade estarem entre as principais preocupações das organizações, a maioria delas controlou, até agora, apenas uma fração dos riscos mapeados.
Para Renan Caixeiro, CMO do Reportei, empresa de relatórios e dashboards de marketing, o problema tem origem técnica clara. “A tecnologia trabalha com probabilidades estatísticas, não com a compreensão dos fatos”, afirma. Por isso, dados gerados por IA precisam de validação humana antes de qualquer publicação.
Abaixo, os procedimentos que Caixeiro recomenda para conter os impactos negativos.
Verificação manual de dados estatísticos
Toda informação quantitativa produzida por IA deve passar por conferência humana antes de ir ao ar. Pedir para a própria ferramenta revisar o dado que ela mesma gerou não resolve, e pode até criar uma falsa confirmação.
“Se a IA cita um dado ou informação, tem que conferir a parte essencial. Como ela gera estatística, tem que ter conferência manual. Evite pedir para revisar quando é dado”, diz Caixeiro. Ele lembra que a responsabilidade editorial recai sobre a empresa, não sobre o desenvolvedor da ferramenta, o que torna a exposição jurídica um risco concreto.
Exigir a fonte original em cada consulta
Ao usar uma ferramenta de IA, o profissional deve configurá-la para que ela indique o link ou a referência de onde extraiu o dado. Mesmo assim, a checagem manual segue obrigatória.
“Tem que citar a fonte do dado que usou. A própria IA já está fazendo isso, mas ainda assim é necessário fazer a checagem da fonte de forma manual. Esse é o único método seguro para garantir que a informação citada existe de fato”, explica o CMO.
Protocolo imediato de retratação
Quando um erro é publicado e ganha repercussão, a velocidade de resposta define o tamanho do estrago. Corrigir o conteúdo silenciosamente, sem o devido esclarecimento ao público, costuma agravar a crise em vez de contê-la.
“É preciso retratar quando publicar errado e fazer uma correção ou editar algo anterior. Não basta fazer a retratação e fingir que nada aconteceu; tem que agir quando dá tempo, principalmente quando há repercussão”, orienta Caixeiro.
Transparência durante a apuração
Identificada uma inconsistência grave, a postura recomendada é comunicar que o caso está sob análise antes de emitir qualquer posicionamento definitivo. Isso evita que a empresa publique justificativas apressadas que precisem de novas correções.
“Em casos de erro que precisam ser melhor entendidos, a postura deve ser de que o caso será apurado melhor. Isso evita que a empresa publique justificativas rasas que precisem ser corrigidas novamente no futuro”, conclui o executivo.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.
Leia também
Curso gratuito de inteligência artificial mira 1 milhão de alunos no Brasil; veja como se inscrever
Por Do Micro ao Macro
3 razões para empresas adotarem inteligência artificial no backoffice financeiro e fiscal
Por Do Micro ao Macro
Inteligência artificial liga alerta a seis meses das eleições
Por AFP



