Do Micro Ao Macro
Excel, o quarentão que ainda decide contratações na era da IA
Lançado em 1985, o software da Microsoft segue entre os requisitos mais pedidos em processos seletivos e resiste ao avanço das ferramentas de automação
Quase quarenta anos após seu lançamento, o Excel ainda aparece nas primeiras linhas de anúncios de emprego, e isso não é coincidência. Uma análise da Course Report, com base em mais de 12 milhões de vagas publicadas na plataforma Indeed, identificou o termo “Microsoft Excel” em aproximadamente 531 mil anúncios, volume superior ao de linguagens como Python e SQL.
O dado coloca o software da Microsoft em uma posição que muitos considerariam improvável: mais pedido do que ferramentas associadas ao futuro, em um mercado que fala diariamente sobre automação e inteligência artificial generativa.
Excel como requisito básico
Durante anos, dominar o Excel era diferencial. Hoje, para boa parte das vagas, virou pré-requisito. A ferramenta permite organizar, cruzar, calcular e modelar dados — funções que continuam no centro das rotinas corporativas, independentemente do setor.
Empresas adotam ERPs para integrar finanças e operações, CRMs para gerenciar vendas e clientes, plataformas de Business Intelligence para gerar dashboards. Mesmo assim, recorrem ao Excel quando precisam de flexibilidade: simular cenários, consolidar informações de fontes distintas ou construir análises sob medida sem depender de times técnicos.
“É comum que empresas utilizem sistemas estruturados para controlar operações, mas recorram ao Excel quando precisam fazer análises específicas ou simular projeções”, afirma Alfredo Araújo, especialista da Hashtag Treinamentos.
Onde a IA entra, e onde não resolve
O avanço da inteligência artificial chegou dentro da própria planilha. O Microsoft Copilot já atua no Excel, sugerindo fórmulas, organizando tabelas e gerando gráficos por comando de voz ou texto.
Mas a automação tem limites. Para Araújo, a tecnologia responde ao que recebe. “Se o profissional não entende quais variáveis cruzar ou como interpretar um indicador, a IA pode apenas automatizar um erro com mais velocidade”, diz ele.
Há ainda a questão da confidencialidade. Muitos dados corporativos não podem ser enviados a ferramentas externas, o que mantém a análise restrita ao ambiente interno — e o Excel segue sendo o espaço onde isso acontece.
Do básico ao avançado
Saber fazer uma soma não gera vantagem competitiva. O diferencial está em recursos como tabelas dinâmicas, fórmulas condicionais, modelagem de cenários e o Power Query, que permite limpar e reorganizar grandes volumes de dados dentro da própria ferramenta.
Esse domínio tem reflexo financeiro. Segundo dados da plataforma Salary.com, profissionais com perfil de “Excel Analyst” nos Estados Unidos chegam a salários médios anuais acima de US$ 100 mil quando combinam o uso da ferramenta com competências analíticas mais aprofundadas.
A Hashtag Treinamentos, fundada em 2015, nasceu exclusivamente com cursos de Excel. Ao longo dos anos, expandiu o portfólio para Power BI, Python e inteligência artificial. Mesmo assim, o Excel representa cerca de 20% da base de alunos em 2025 — sinal de que a demanda pela ferramenta não deu sinais de recuo.
Uma linguagem que o mercado ainda fala
Araújo vê o Excel menos como legado e mais como infraestrutura. “A mesma lógica que organiza um fluxo de caixa pode ser usada para acompanhar metas comerciais, indicadores de RH ou resultados de marketing”, afirma. “O conhecimento é o mesmo. O que muda é a aplicação.”
A ferramenta também não ficou parada. Ao longo das décadas, incorporou novas funções, integrações e, mais recentemente, assistentes inteligentes. O que permanece é a utilidade prática — e, ao que indicam os dados de contratação, ela ainda tem muito trabalho pela frente.
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