Do Micro Ao Macro

Escala 5×2 avança e força uma reorganização muito além do calendário

A escala 5×2 sai do debate político e entra nas operações das empresas. Entenda os custos, os riscos e os casos reais de quem já fez a transição no Brasil.

Escala 5×2 avança e força uma reorganização muito além do calendário
Escala 5×2 avança e força uma reorganização muito além do calendário
No Brasil, supermercados se antecipam às mudanças. Na Bélgica, a escala 6x1 já foi abolida. “Está na hora de darmos esse passo”, diz Nobre – Imagem: iStockphoto e Roberto Parizotti/CUT
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O debate sobre a escala 5×2 saiu dos corredores do Congresso e chegou às planilhas de gestão das empresas brasileiras. Com propostas em tramitação para reduzir a jornada semanal e garantir dois dias de descanso a todos os trabalhadores, negócios que dependem de atendimento presencial começam a calcular o que significa, na prática, reorganizar turnos, escalar equipes e manter a qualidade do serviço sem ampliar custos de folha.

A pressão vem de dois lados. Uma pesquisa do DataSenado mostra que 84% dos brasileiros acreditam que jornadas menores melhorariam a qualidade de vida, especialmente pelo alívio do estresse e dos efeitos sobre a saúde mental. Ao mesmo tempo, economistas alertam que mudanças desse porte exigem planejamento cuidadoso para não produzir o efeito oposto ao desejado.

Um estudo do Centro de Liderança Pública estima que a passagem de 44 para 40 horas semanais pode colocar em risco mais de 600 mil postos de trabalho no país. O setor do comércio aparece entre os mais sensíveis: a projeção aponta queda de 1,3% na produtividade e possível eliminação de cerca de 164 mil vagas.

Operações presenciais sentem primeiro

Para quem opera lojas, hotéis, clínicas ou qualquer outra unidade física com fluxo contínuo de clientes, a escala 5×2 não é uma questão política. É um problema de logística. Redistribuir tarefas, cobrir turnos e manter o padrão de atendimento com menos horas disponíveis por funcionário exige, em muitos casos, a contratação de mais pessoal, o que eleva diretamente o custo da operação.

Paulo Motta, empresário e investidor com atuação em real estate, serviços e gestão de ativos imobiliários em diferentes estados, acompanha esse movimento de perto. Para ele, a mudança de escala raramente se resume a ajustar o calendário. “A transição costuma exigir revisão de turnos, treinamento das equipes e ajustes no modelo de atendimento. Em operações presenciais, a organização da jornada está diretamente ligada à forma como a empresa distribui atividades ao longo do dia e aos horários de maior demanda”, afirma.

Experiências pontuais pelo país confirmam que os efeitos variam. Empresas que migraram da escala 6×1 para o modelo 5×2 relatam aumento na satisfação dos funcionários e, em alguns casos, melhora de desempenho após revisão de processos internos. Mas os números que viabilizaram essa transição nem sempre são modestos.

Um hotel, R$ 2 milhões e 27 contratações

Na capital paulista, um hotel de alto padrão decidiu implementar a escala 5×2 em toda a operação. O processo envolveu investimento superior a R$ 2 milhões e a contratação de 27 novos profissionais para garantir a cobertura dos turnos sem comprometer o padrão de atendimento. O caso ilustra que a decisão de adotar dois dias de folga semanais raramente se sustenta apenas com remanejamento interno.

Em setores como varejo, serviços e construção, a escala de trabalho está diretamente atrelada à disponibilidade de equipes nos horários de maior movimento. Qualquer alteração nessa engrenagem exige que a empresa reveja simultaneamente como distribui tarefas, como mede produtividade e quanto está disposta a gastar para manter o mesmo volume de entregas.

“Em muitos casos, a empresa precisa redesenhar a distribuição de atividades e acompanhar indicadores como produtividade por hora trabalhada e ocupação das equipes. Esses dados passam a orientar como a escala é organizada dentro da operação”, explica Motta.

O que o Congresso discute e o que ainda falta decidir

As propostas em debate no Congresso Nacional tratam do fim da escala 6×1 e da adoção generalizada de jornadas com dois dias de descanso por semana, sem redução proporcional dos salários. A expectativa entre especialistas é que qualquer mudança avance de forma gradual, com prazo de adaptação para empresas de diferentes portes e setores.

À medida que organizações testam novos formatos de escala, os resultados observados em produtividade, custos e retenção de funcionários passam a pesar no próprio debate legislativo. “É primordial um equilíbrio saudável entre o trabalhador e a empresa. Quando o todo trabalha integrado, cria-se um ambiente organizacional saudável e produtivo”, diz Motta.

O que os casos práticos já deixam claro é que a escala 5×2 não é gratuita, nem em dinheiro, nem em planejamento. Empresas que entram nessa transição sem diagnóstico prévio tendem a descobrir os custos reais apenas depois que a mudança já está em curso.

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