Do Micro Ao Macro
Erros que empresas cometem ao adotar IA no RH
Especialista em gestão de pessoas mapeia os equívocos mais comuns na automatização do setor e explica como evitá-los
Setenta e cinco por cento dos profissionais de Recursos Humanos no Brasil já usam inteligência artificial no dia a dia, segundo o último Censo do RH, principalmente em tarefas operacionais. Apesar da adesão alta, a adoção da tecnologia sem cuidados de governança e preparo das equipes pode produzir o efeito contrário ao esperado: lentidão de processos, decisões enviesadas e desgaste para a reputação da empresa.
Para Angel Monteiro, coordenadora de Gente & Gestão da Essence, empresa especializada em soluções SAP, o erro mais comum é tratar a IA apenas como ferramenta de corte de custos, sem enxergá-la como suporte ao RH. “A IA potencializa processos, mas não corrige problemas estruturais de gestão ou cultura”, diz a coordenadora.
A partir desse equívoco inicial, surgem outros: automatizar processos sem revisar a qualidade do fluxo já existente, adotar ferramentas sem critérios de ética e governança, deixar de preparar líderes e equipes para interpretar os dados gerados e ignorar a cultura da empresa na escolha e configuração das soluções. Segundo Angel, implementar sem considerar a experiência do funcionário também está entre os erros frequentes, já que a IA, quando mal aplicada, tende a ampliar falhas que já existiam no processo em vez de resolvê-las.
O que a ferramenta não decide
Independentemente do nível de sofisticação da tecnologia, algumas decisões não devem ficar totalmente nas mãos da automação. Para Angel, qualquer situação que envolva pessoas de forma sensível exige presença humana, como desligamentos, feedbacks críticos, mediação de conflitos e decisões ligadas à saúde emocional ou ao clima organizacional.
“O RH trabalha diretamente com contexto humano, subjetividade, empatia e cultura. A IA analisa padrões e dados, mas não compreende integralmente emoções, nuances relacionais ou os impactos emocionais de uma decisão. O papel humano continua sendo indispensável para garantir equilíbrio, ética e conexão genuína”, afirma a coordenadora.
Além dos riscos internos, a experiência do candidato durante o processo seletivo influencia diretamente o employer branding da empresa. Processos vistos como impessoais carregam consequências reais para a imagem da companhia no mercado. “A reputação pode ser impactada principalmente quando o candidato sente que foi tratado de maneira fria, injusta ou impessoal. Empresas que usam IA sem equilíbrio podem transmitir uma imagem de distanciamento humano e falta de cuidado com as pessoas”, diz Angel.
Caminho para adoção correta
Na Essence, a IA funciona como apoio para tornar os processos mais ágeis, especialmente em um ambiente de alta demanda por talentos. “Ela contribui, por exemplo, na identificação de perfis aderentes às vagas. Porém, sempre com supervisão humana, garantindo análise contextual, empatia e alinhamento cultural”, explica Angel.
Uma implementação bem conduzida passa por definir objetivos claros antes de adotar qualquer ferramenta, manter supervisão humana nas decisões críticas, capacitar RH e liderança para interpretar os dados e tratar a IA como apoio à área, não como substituta da relação humana.
Quando esse caminho é seguido, os resultados aparecem para a empresa como um todo. “O principal ganho é permitir que o RH tenha mais inteligência, previsibilidade e capacidade para cuidar melhor das pessoas e do negócio. O que vai definir o sucesso da IA no RH é a maturidade da empresa em utilizá-la com responsabilidade”, conclui Angel Monteiro.
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