Do Micro Ao Macro

Enxaqueca custa R$ 168 bilhões ao Brasil e empresas ignoram a doença que derruba a produtividade

Especialista alerta que doença atinge mais de 30 milhões de brasileiros, derruba produtividade no escritório e em casa e segue escondida da chefia por medo

Enxaqueca custa R$ 168 bilhões ao Brasil e empresas ignoram a doença que derruba a produtividade
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Pacientes com enxaqueca perdem, em média, 19,5 dias de trabalho por ano em razão das crises, segundo dados internacionais reunidos no contexto da campanha Maio Bordô, voltada à conscientização sobre cefaleia e dor de cabeça crônica. O número, porém, é apenas a parte visível de um problema que custa caro ao país e segue invisível dentro das empresas.

Estudo do instituto alemão WifOr GmbH, intitulado “Impacto socioeconômico das principais doenças em oito países da América Latina”, aponta prejuízo de 168 bilhões de reais ao Brasil, o equivalente a 1,6% do PIB. Entre as oito maiores economias da região, o país é o segundo mais afetado pela doença, atrás apenas da Argentina. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 15% da população mundial convive com o quadro, e mais de 30 milhões de brasileiros estão nessa estatística.

Em entrevista à CartaCapital, a neurologista Thais Villa, especialista no diagnóstico e tratamento da doença, afirma que o impacto no mercado de trabalho é amplo e atravessa todos os perfis profissionais. “O absenteísmo na enxaqueca é muito importante, mas não há diferenças entre setores e cargos. Ela impacta pessoas de qualquer profissão ou atividade, seja intelectual ou mais braçal”, diz a médica. “É uma doença extremamente prevalente e democrática, que impacta as pessoas em relação ao absenteísmo globalmente em todo tipo de atividade e setor.”

Presenteísmo é o custo invisível da doença

Embora as faltas pesem no orçamento das companhias, o prejuízo maior costuma vir de quem comparece ao expediente sem condições reais de produzir. Esse fenômeno, conhecido como presenteísmo, é o ponto que mais preocupa Villa.

“Em relação ao presenteísmo é muito mais importante ainda, porque a maioria das pessoas com enxaqueca, elas vão ao trabalho. O que elas fazem? Elas tomam um remédio para dor, um café para conseguir render e elas vão trabalhar, faltam muito pouco diante da incapacidade da doença”, explica a neurologista.

Para a especialista, o cálculo das empresas costuma ignorar essa realidade. “O presenteísmo é muito mais marcado e com certeza extremamente subnotificado, porque essas pessoas estão com dor de cabeça todos os dias, trabalhando desatentas e cansadas. O presenteísmo é muito mais marcante que o absenteísmo na enxaqueca em todos os setores e as empresas não sabem nem o que está acontecendo”, afirma.

Mulheres carregam parte mais pesada do quadro

A doença também tem recorte de gênero. Mulheres em idade produtiva são as mais atingidas, com crises mais frequentes e intensas, e isso reverbera nas trajetórias profissionais.

“Sim, a doença é pior nas mulheres, que são acometidas com uma doença mais grave, com mais crises, com mais dores, e isso impacta diretamente no presenteísmo”, aponta Villa. “Muitas mulheres ou não vão estar presentes, ou vão estar presentes ali fazendo o que podem.”

A médica acrescenta que o efeito vai além do dia a dia do escritório. “O impacto da doença vai atrapalhar a progressão de carreira e o desempenho, além de as mulheres também terem que cumprir tarefas múltiplas com a família, com o lar e com outras atividades com uma doença grave, crônica, atrapalhando o desempenho global delas durante a vida.”

Empresas brasileiras despreparadas para um problema bilionário

Apesar do tamanho do prejuízo apontado pelo WifOr, a especialista avalia que o tema ainda está fora do radar corporativo. Discussões sobre saúde mental, burnout e ansiedade ganharam espaço, mas raramente esbarram no diagnóstico de cefaleia.

“Com certeza nenhuma empresa brasileira, pelo menos eu não conheço, está preparada para lidar com a enxaqueca”, critica Villa. “Muito se fala sobre saúde mental, burnout, ansiedade, mas ninguém sabe (ou muito pouco se sabe) que a enxaqueca é a principal causa destas complicações porque é a doença neurológica mais prevalente no mundo.”

A consequência prática, segundo a médica, é que companhias enxergam apenas a ponta do iceberg. “Em relação ao burnout, às crises de ansiedade, à queda de produtividade, a empresa nem sabe que muitos funcionários dela têm uma doença e que estão lidando com essa doença achando que são outras coisas. A empresa com certeza não tem como estar preparada para os prejuízos que essa doença vai trazer”, afirma. Para ela, o caminho passa por agir na origem do problema, com diagnóstico correto e manejo adequado.

Medo da chefia silencia trabalhadores

Outro ponto que mantém o tema à margem das companhias é o silêncio dos próprios pacientes. Por receio de prejudicar promoções ou de serem rotulados como pouco resilientes, muitos optam por esconder os sintomas.

“A grande maioria das pessoas esconde dos seus chefes que estão com dor de cabeça, que estão com sintomas de enxaqueca, porque temem ser minimizados ou banalizados por isso”, relata a neurologista. Frases como “toma mais um remédio analgésico”, “tá com frescura” ou “não é possível a pessoa ter dor de cabeça todo dia” ainda fazem parte do repertório de muitos gestores, segundo ela.

A médica defende que o ambiente de trabalho assuma um papel mais ativo. “O paciente precisa ter a psicoeducação da doença, ter o diagnóstico correto, e a empresa poderia tomar a frente disso também”, argumenta. “Com mais informação a respeito da doença, saber que ela existe e procurar também orientar os colaboradores a buscarem ajuda adequada e tratamento de qualidade.”

Home office troca os gatilhos, mas não resolve

A virada para o trabalho remoto, acelerada nos últimos anos, prometia alívio para quem sofre com luz, ruído e jornadas rígidas. Na prática, o cenário é mais complexo.

“Sim, o home office tira a pessoa de alguns gatilhos, que é o trânsito intenso, mais barulho com a convivência com os colegas do trabalho. Porém, coloca a pessoa em outros gatilhos, que eu acho podem ser até piores em alguns momentos, como o excesso de telas”, avalia Villa.

A leitura da especialista é de que mudar o local de trabalho não substitui o cuidado com a saúde. “Na verdade, o home office só trocou os gatilhos. E não adianta trocar ou evitar desencadeadores, é preciso tratar a doença para que uma pessoa possa trabalhar produtivamente, em casa ou na empresa, porque nenhum desses gatilhos vai fazer parte da vida dela ou vai ser uma situação de provocar crises ou piora da doença dela.”

Tratamento devolve produtividade ao paciente

No campo terapêutico, a médica diferencia quem segue acompanhamento médico de quem recorre por conta própria a analgésicos comprados em farmácia. A automedicação, segundo ela, alimenta um ciclo de dor.

“Existe uma total diferença entre se automedicar e procurar um tratamento especializado da enxaqueca. A pessoa que fica na farmácia comprando remédio cada vez mais forte vai ter dor de rebote cada vez pior”, alerta a neurologista.

Em contrapartida, pacientes que aderem a protocolos estruturados conseguem retomar rotina e desempenho. “O paciente que está seguindo os protocolos do Tratamento 360º está no controle das crises de enxaqueca. Esse é o tratamento mais indicado para o manejo da doença, levando em conta as particularidades de cada pessoa e atento a todas as variáveis dessa doença tão complexa”, diz Villa.

Entre as opções com respaldo científico, a especialista destaca a aplicação da toxina botulínica como medida preventiva nos casos crônicos. “Uma das grandes descobertas no tratamento preventivo da enxaqueca crônica, com resultados cientificamente comprovados, é a aplicação da toxina botulínica, popularmente conhecida como botox. A substância bloqueia a liberação de certos neurotransmissores responsáveis por levar a informação da dor ao cérebro”, explica.

Outra frente envolve o uso de medicamentos biológicos. De acordo com a médica, o tratamento conta ainda com anticorpos monoclonais anti-CGRP, com bom perfil de tolerabilidade e baixa ocorrência de efeitos colaterais, voltados ao controle dos diversos sintomas provocados pela cefaleia crônica.

Thaís Villa é médica neurologista especialista no diagnóstico e tratamento da enxaqueca

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