Do Micro Ao Macro
Empresas de tecnologia catarinenses criam plano conjunto para sobrevivëncia ao Vale da Morte da IA
Programa de associação quer levar empresas catarinenses da adoção de IA à monetização real dos produtos
Para tirar empresas catarinenses do que chama de vale da morte da IA, a ACATE (Associação Catarinense de Tecnologia) estrutura um programa de adoção coletiva de inteligência artificial. Lançada oficialmente no Startup Summit 2026, a iniciativa reúne empresas de tecnologia em círculos de discussão para compartilhar casos de uso, tendências e trocas de conhecimento, além de negociar acesso a infraestrutura de IA em condições coletivas.
Ao todo, Santa Catarina soma 34,2 mil empresas de tecnologia, mas a meta da ACATE é que 10 mil delas tenham produtos e soluções avançados em IA até 2031.
Setor faturou R$ 42,5 bilhões em 2024
Atualmente, o setor de tecnologia catarinense faturou R$ 42,5 bilhões em 2024, equivalente a 7,75% do PIB estadual, e emprega 100 mil profissionais, de acordo com números apresentados pela ACATE. A projeção da entidade é de que até o fim de 2027 sejam abertas 4.633 vagas para desenvolvedores com foco em IA no estado.
“A transição de empresas de SaaS tradicional para operações nativas em IA é uma questão de sobrevivência competitiva. Estamos estruturando um modelo de adoção colaborativa que permite às empresas catarinenses avançar em velocidade e escala”, afirma Tulio Vinicius Duarte Christofoletti, vice-presidente de Ecossistema da ACATE. “O Brasil está formando gente em IA. Santa Catarina está formando empresas.”
Três frentes de atuação
A estratégia da ACATE se concentra em três frentes principais. A primeira é a negociação coletiva de créditos e infraestrutura com provedores globais de IA, entre eles Google, Anthropic, AWS e Microsoft Azure. A segunda envolve a criação de círculos mensais de troca de experiências práticas sobre implementação. Já a terceira consiste na estruturação de um portfólio público de produtos de inteligência artificial desenvolvidos em Santa Catarina.
Outros dois eixos também estão sendo iniciados, segundo a entidade. Um deles é a capacitação massiva de profissionais com competências em inteligência artificial . O outro é a formação de um conselho estadual, reunindo representantes da academia, poder público e empresas para ampliar as ações em nível estadual.
Por trás do modelo de atuação está uma premissa de agregação de demanda. Com quase 2 mil empresas associadas, a ACATE afirma constituir um dos maiores conjuntos de demanda corporativa de IA da América Latina, o que, segundo a entidade, permite negociar em condições que empresas individuais não alcançariam.
EngWare e Replit são as primeiras mantenedoras
O programa conta com a EngWare e a Replit como primeiras mantenedoras. A Replit, plataforma global de desenvolvimento colaborativo, vai disponibilizar R$ 300 mil em créditos para empresas associadas e será responsável pela primeira formação de IA oficialmente certificada pelo Replit no Brasil, conforme informado pela ACATE.
“O espaço que ocupamos é o da adoção empresarial prática. Enquanto outras iniciativas focam apenas em formação de talentos ou infraestrutura básica, estamos olhando para casos de uso reais, produtos, processos e governança de IA dentro das empresas”, diz Walmoli Gerber Jr., vice-presidente de Marketing da ACATE. “Embora o programa tenha como ponto de partida a nossa base de associadas, o impacto não se limita a ela. Ao ampliar o acesso à tecnologia, documentar casos reais e acelerar a adoção e a monetização de IA, ajudamos a elevar a maturidade de todo o ecossistema catarinense.”
Quatro estágios de maturidade em IA
O programa estabelece quatro quadrantes de maturidade em IA para as empresas, segundo a ACATE. O primeiro é a adoção em processos internos, quando os times de desenvolvimento ou de operações utilizam ferramentas de IA para ganhar velocidade e qualidade nas tarefas diárias. O segundo é a adoção no produto, caracterizado pela criação de funcionalidades e módulos de IA voltados para o cliente final, ainda sem um modelo de receita associado a essas funções.
Já o terceiro estágio é a monetização, com faturamento direto de produtos de IA, e o quarto é a IA nativa, modelo de negócio viabilizado exclusivamente por IA.
O foco prioritário do programa está nas empresas que já avançaram na incorporação de IA aos produtos, mas ainda não conseguiram transformar essas funcionalidades em receita, informa a entidade. Embora a ACATE também ofereça suporte às organizações nos estágios inicial e mais avançado de maturidade, a estratégia é acelerar principalmente a passagem do segundo para o terceiro estágio.
O desafio, segundo a ACATE, é evitar que a criação de recursos de IA represente apenas aumento de custos de infraestrutura, sem retorno comercial correspondente. A proposta é apoiar as empresas na monetização dessas funcionalidades, por meio de novas receitas e estratégias de upsell, ajudando os negócios a atravessar o chamado vale da morte da IA.
Programa não vai gerar demissões, diz ACATE
Sobre o impacto em vagas, Walmoli Gerber afirma que a entidade não vai trabalhar para demitir. “Pelo contrário, o objetivo é não demitir e continuar crescendo com produtividade no setor de tecnologia. A incorporação de IA vai gerar novos negócios nas empresas atuais e também novas empresas”, diz o vice-presidente de Marketing da ACATE. “Como ecossistema, estamos assumindo IA com compromisso de emprego, produtividade que vira contratação.”
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