Do Micro Ao Macro
Cinco sinais de que a cultura da empresa causando adoecimento nas mulheres
Pesquisa mostra que dois terços dos afastamentos por transtornos mentais no INSS em 2025 foram de mulheres, e especialista aponta o que as empresas fazem de errado
Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais. Quase dois terços foram por adoecimento de mulheres. O número não é coincidência, segundo especialistas, e tem raiz na forma como as empresas funcionam.
A pesquisa “Panorama Mulheres 2025”, do Instituto Talenses Group com o Núcleo de Estudos de Gênero do Insper, aponta que os desafios enfrentados pelas mulheres no ambiente corporativo estão ligados a desigualdades estruturais: assimetria de poder, distribuição desigual de oportunidades e acesso restrito a posições de decisão.
Para Joyce Romanelli, sócia-diretora da Fluxus, empresa de educação corporativa, o adoecimento não é fragilidade individual. “Quando o trabalho é mal organizado, sustentado por medo, excesso de cobrança e ausência de diálogo, alguém sente mais. Na prática, esse impacto recai com mais força sobre as mulheres, que já lidam com dupla jornada, menor espaço de voz e vieses de avaliação”, afirma.
Sobrecarga virou padrão
O primeiro sinal é quando jornadas extensas e metas inalcançáveis deixam de ser exceção e viram rotina. Equipes sempre no limite, lideranças sobrecarregadas e a sensação permanente de que o esforço nunca é suficiente são sintomas desse modelo.
“Manter pessoas em estado contínuo de tensão até pode sustentar resultados no curto prazo, mas amplia de forma significativa o risco de afastamentos ao longo do tempo”, diz Romanelli.
Medo de errar e punição contribuem para adoecimento
O segundo sinal aparece quando o erro é tratado como falha moral, e não como parte do aprendizado. Ambientes assim reduzem a confiança e a autonomia, e ativam respostas de estresse crônico. O sintoma mais visível é o silêncio: pessoas que evitam se expor ou trazer problemas reais por medo de punição.
Falta de clareza sobre o que importa
A ambiguidade também adoece. Quando não está claro o que é prioridade, quem decide o quê ou o que define um bom desempenho, cresce a sensação de descontrole e injustiça.
“A falta de critérios claros gera uma sensação permanente de desorganização. Esse cenário compromete a confiança e enfraquece o vínculo das pessoas com o trabalho”, destaca a especialista.
Controle excessivo e baixa autonomia
O quarto sinal é a microgestão. Culturas baseadas em controle transmitem desconfiança e reduzem o engajamento. O resultado mais comum são times dependentes, inseguros ou progressivamente apáticos.
Adoecimento e o silêncio organizacional
O quinto sinal é quando ninguém fala. Conflitos que nunca são nomeados, ausência de feedback e problemas que só aparecem “tarde demais” indicam que as pessoas não se sentem seguras para discordar ou pedir ajuda.
Para Romanelli, o silêncio organizacional é um dos sinais mais claros de risco psicossocial: o sofrimento deixa de aparecer, mas não deixa de existir.
Curso gratuito para mulheres líderes
Em março, a Fluxus abre nova turma do curso Liderança Feminina, iniciativa gratuita que já chegou a mais de 20 mil mulheres no Brasil. O programa trabalha autoconhecimento, leitura de contextos organizacionais e desenvolvimento de comunicação e relações, com foco em trajetórias de liderança mais conscientes e sustentáveis.
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