Do Micro Ao Macro
Mulheres empreendedoras têm mais de 10 milhões de negócios, mas 68% já viram o crédito ser negado
Especialista aponta como empreendedoras podem organizar finanças, usar a formalização e planejar captações para acessar capital com melhores condições
O Brasil tem mais de 10 milhões de mulheres à frente de negócios próprios, o equivalente a 34% de todos os empreendedores do país. Ainda assim, o acesso a crédito para mulheres empreendedoras segue como um dos maiores obstáculos do setor: segundo o Sebrae, 68% delas já tiveram pedidos de financiamento negados.
A desigualdade vai além das recusas. As empreendedoras ganham, em média, 24,4% menos que os homens, diferença que afeta o caixa, a capacidade de investimento e o poder de negociação com bancos e instituições financeiras.
Para Gabriela Fabri, especialista em Crédito da Cora, o problema tem raízes na falta de informação. “Muitas vezes, o desafio não está na oferta de capital, mas na falta de clareza sobre os critérios de análise e na dificuldade de apresentar a realidade do negócio em indicadores objetivos”, afirma.
A seguir, Fabri apresenta cinco caminhos para ampliar as chances de aprovação e melhorar a saúde financeira dos negócios.
Separe as finanças pessoais das do negócio
Muitos negócios liderados por mulheres começam com menos capital inicial, o que torna comum a mistura entre finanças pessoais e da empresa. Separar essas contas é o primeiro passo para construir um histórico financeiro sólido junto ao mercado.
Definir um pró-labore e reinvestir o lucro no negócio cria um fluxo de caixa independente, que demonstra às instituições financeiras que a empresa se sustenta por conta própria. Esse registro é o que, na prática, melhora as condições de acesso ao crédito.
Formalize o negócio e amplie as possibilidades
A formalização, seja como MEI ou em outros regimes tributários, abre acesso a linhas de crédito específicas para empresas, além de subsídios que não estão disponíveis para quem opera na informalidade.
Um CNPJ ativo e com histórico regular muda a conversa com o banco. Deixa de ser uma solicitação de empréstimo pessoal e passa a ser uma operação de crédito empresarial, com condições e limites diferentes.
Apresente os dados do negócio de forma organizada
Muitas empreendedoras operam negócios com faturamento estável e boa retenção de clientes, mas não levam esses números para a mesa de negociação. Apresentar indicadores de desempenho de forma organizada muda a percepção da instituição financeira sobre o risco da operação.
Dados como recorrência de receita, ticket médio e inadimplência dos clientes da própria empresa são argumentos objetivos. Quando bem apresentados, aproximam o pedido de crédito de uma proposta de investimento.
Use redes e mentorias para encurtar caminhos
Participar de grupos de empreendedoras, associações e programas de mentoria vai além do apoio entre pares. Esse tipo de rede concentra informações sobre taxas praticadas, exigências de garantia e alternativas de financiamento que dificilmente chegam pelos canais convencionais.
Mulheres que compartilham essas informações conseguem negociar com mais propriedade e evitar condições desfavoráveis por falta de referência de mercado.
Planeje a captação com antecedência
Buscar crédito em momento de urgência reduz o poder de escolha e aumenta a exposição a taxas mais altas. Planejar a captação em períodos de estabilidade do negócio inverte essa lógica: a empreendedora escolhe o parceiro financeiro, e não o contrário.
“A trajetória das mulheres no mercado brasileiro é marcada por uma velocidade de adaptação fora do comum. Hoje, o foco mudou: não se trata de ocupar espaços, mas de dominar as ferramentas que aceleram essa ocupação, e o crédito para mulheres empreendedoras é a principal delas”, diz Fabri.
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