Do Micro Ao Macro
Como ajustar preços após a deflação de agosto pelo IPCA
Índice caiu 0,40% no mês, mas especialista em precificação explica por que a queda não deve significar redução direta na tabela de preços
O Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15, o IPCA-15, registrou deflação de 0,40% em agosto, depois de uma alta de 0,06% em julho, segundo o IBGE. Em 12 meses, o indicador acumula alta de 4,24%, abaixo dos 4,52% apurados no período anterior. O resultado reabre a pergunta sobre revisão de preços entre empresas.
A queda foi puxada principalmente pelos grupos Habitação, Transportes e Alimentação e bebidas. Para o comércio e a indústria, o número levanta uma questão prática: com a inflação mais controlada, é hora de baixar os preços?
A resposta não é automática. A desaceleração do índice pode abrir espaço para revisar tabelas, mas não significa que todos os produtos e serviços devam ficar mais baratos.
Quem defende esse cuidado é Frederico Zornig, CEO da Quantiz Pricing Solutions e especialista em precificação. Segundo ele, a inflação é apenas um dos fatores que entram na formação de preços. “A inflação é um dos elementos que precisam ser considerados na formação de preços, mas não pode ser o único. A empresa precisa entender quais custos realmente mudaram, como está a demanda e qual é a percepção de valor do consumidor. Reduzir preço apenas porque um índice caiu pode significar abrir mão de margem sem necessariamente gerar aumento de vendas”, afirma.
Custos não caem no mesmo ritmo do IPCA
O IPCA-15 mede a variação média de preços para o consumidor, o que não representa necessariamente a estrutura de custos de cada negócio. Em agosto, a queda da energia elétrica residencial teve peso relevante no resultado, assim como a redução em alguns alimentos. Uma empresa que não foi beneficiada por essas quedas pode não ter espaço nenhum para reduzir seus próprios preços.
Por isso, antes de mexer na tabela, o empresário precisa mapear quais componentes de custo caíram e qual é o peso de cada um na operação. “Olhar apenas para a inflação média pode levar a uma decisão equivocada. O preço precisa considerar a estrutura de custos daquele negócio, mas também a concorrência, o volume de vendas e a disposição do cliente em pagar. O objetivo não é simplesmente vender mais barato, mas encontrar o preço que faça sentido para o mercado e para a rentabilidade da empresa”, explica Zornig.
Preços exigem critério para cair
Uma redução pode fazer sentido em mercados nos quais o consumidor reage rápido a mudanças de valor ou quando existe disputa forte entre concorrentes. Nesses casos, o corte ajuda a estimular a demanda ou a segurar clientes.
Ainda assim, a estratégia não precisa valer para todo o portfólio de uma vez. Uma empresa pode reduzir preços apenas em categorias específicas, montar condições para determinados clientes ou apostar em promoções pontuais. A escolha depende de como o público responde e do objetivo comercial daquele produto.
“Antes de reduzir um preço, é importante entender o que a empresa pretende alcançar. Se o objetivo é aumentar volume, conquistar mercado ou reagir à concorrência, a redução pode fazer sentido. Mas, se não houver uma resposta relevante da demanda, a empresa simplesmente terá reduzido sua margem”, diz o especialista.
Preço não segue o IPCA automaticamente
Outro cuidado está em tratar a inflação como régua automática de reajuste. Para Zornig, essa lógica falha tanto quando os índices sobem quanto quando caem, porque duas empresas podem enfrentar o mesmo cenário macroeconômico e tomar decisões opostas. Uma pode estar com custos pressionados, enquanto outra ganhou eficiência. Uma pode atuar num mercado disputado, enquanto outra tem um produto com maior valor percebido.
“Preço é uma decisão estratégica. O mesmo cenário macroeconômico pode exigir respostas diferentes dependendo do negócio. O empresário precisa olhar para seus próprios números e para o comportamento do mercado antes de tomar uma decisão”, afirma.
Promoções ganham espaço com a deflação
A desaceleração dos preços também muda a forma como empresas trabalham promoções e descontos. Em vez de reduzir o preço de tabela de forma permanente, negócios podem usar ações direcionadas para estimular produtos, períodos ou perfis específicos de consumidores. Assim, a empresa busca gerar vendas sem comprometer toda a estrutura de preços.
“Promoção não precisa significar simplesmente colocar um produto mais barato. Existem diferentes formas de estimular a compra. A questão é saber qual comportamento se quer provocar e quanto essa ação vai custar para a margem”, explica Zornig.
Preços pedem análise antes de mudar
A recomendação de Zornig é não decidir com base apenas no resultado do IPCA-15. Entre os pontos que ajudam nessa avaliação estão o custo de cada produto ou serviço, a margem atual, os preços dos concorrentes, o comportamento da demanda, a sensibilidade do consumidor ao valor e o posicionamento da marca.
Para negócios menores, que nem sempre têm estrutura de gestão de preços, acompanhar esses pontos também ajuda a evitar decisões baseadas apenas na percepção do mercado. “O resultado do IPCA-15 mostra que o ambiente de preços mudou, mas isso não significa que todas as empresas precisem responder da mesma maneira. O empresário deve transformar a informação macroeconômica em uma análise do próprio negócio. A pergunta não é apenas se o preço pode cair, mas se reduzi-lo vai gerar resultado”, conclui Zornig.
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