Do Micro Ao Macro
Caçadora de gatos
A startup carioca Fu2re cria ferramenta de Inteligência Artificial capaz de detectar fraudes no consumo de energia
Em bairros populares do Rio de Janeiro, o desvio clandestino de energia é tão comum quanto o emaranhado de fios nos postes que polui a paisagem. O “gato de luz” atravessa décadas da história urbana e ressurge pouco depois de cada corte realizado pela concessionária. A Light chegou a contabilizar essas perdas como inevitáveis, até que uma startup carioca apostou que o combate a esse problema passava por uma nova ferramenta: uma Inteligência Artificial treinada para identificar padrões que escapam ao olhar humano.
Criada em 2018, a Fu2re desenvolveu o EnergyWatch, uma plataforma de IA que cruza dados de consumo, histórico de clientes e imagens coletadas em campo para identificar, entre milhões de unidades consumidoras, aquelas com maior probabilidade de fraude. A proposta é substituir o modelo tradicional de inspeção, baseado em denúncias e rondas por bairros, por uma abordagem preditiva, capaz de ranquear consumidores suspeitos antes de qualquer equipe ir às ruas.
O problema que a startup busca enfrentar tem escala nacional. Segundo a Aneel, as perdas não técnicas do setor elétrico – categoria que engloba furtos de energia, ligações clandestinas e fraudes em medidores – somaram 45 terawatts-hora em 2025, o equivalente a 7,1% de toda a energia injetada no sistema de distribuição do País.
A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica estima que os prejuízos totais do setor com esse tipo de perda chegaram a 11,3 bilhões de reais em 2025. Desse valor, 7,8 bilhões foram repassados às tarifas pagas por quem nunca fraudou um medidor. Técnicos do Tribunal de Contas da União classificaram esse repasse como um imposto invisível, cobrado de forma diluída na conta de todos os consumidores.
O efeito descrito por auditores da própria União ajuda a explicar por que o tema interessa tanto às distribuidoras quanto aos formuladores de política tarifária. Perdas não recuperadas reduzem o faturamento das concessionárias, encolhem a base de clientes e pressionam para cima o valor cobrado de quem segue as regras, em um ciclo que especialistas do setor chamam de “espiral da morte”.
A distribuição do problema pelo mapa ajuda a entender onde soluções como o EnergyWatch tendem a fazer mais diferença. Levantamento da Aneel aponta concessionárias do Amazonas e do Rio na liderança das perdas não técnicas, com clientes arcando com os maiores prejuízos entre as 51 distribuidoras do País. Norte e Sudeste concentram a maior parte dos casos, um retrato que combina complexidade geográfica e áreas onde a presença do Poder Público é limitada.
Em 2025, os prejuízos alcançaram 11,3 bilhões de reais em todo o País, dos quais 7,8 bilhões foram repassados às contas de consumidores
A plataforma carioca busca espaço nas operações de campo das distribuidoras. O sistema processa variáveis de rede, séries históricas de consumo e imagens captadas em campo, gerando uma lista priorizada de endereços com maior chance de irregularidade. Segundo André Sih, fundador da empresa, a plataforma já opera na Região Metropolitana do Rio de Janeiro com taxa de acerto de 28% nas inspeções direcionadas pelo modelo.
O indicador mede quantas visitas de campo, entre as recomendadas pela IA, confirmam a existência de fraude. Cada ocorrência confirmada resulta em um Termo de Ocorrência de Inspeção, documento que embasa a cobrança retroativa do consumidor. O volume médio de energia recuperado por termo também cresceu com o direcionamento por dados, um indício de que o modelo consegue separar fraudes pontuais de desvios de maior porte, aqueles que mais pesam no balanço final das distribuidoras.
Além do ranqueamento automático, a plataforma inclui um aplicativo de denúncias que recebe reclamações da população em tempo real, recurso que a empresa descreve como complementar. A combinação reproduz, em versão digital, um instrumento que distribuidoras já usam há anos, agora com filtro para separar o que merece checagem imediata.
Apontada como a primeira startup brasileira acelerada pela Nvidia, a Fu2re desenvolve soluções de visão computacional para energia, saneamento, óleo e gás. Em 2025, recebeu aporte da Copel Ventures e da gestora Indicator Capital. A tecnologia por trás do EnergyWatch é a mesma que a empresa aplica a outras indústrias, adaptada para o problema específico das perdas elétricas.
Sih reconhece que a conta de implantar Inteligência Artificial não fecha sempre. Existem processos de baixa complexidade e baixa remuneração em que automatizar ainda custa mais que manter mão de obra humana, sobretudo em um mercado como o brasileiro. Nesses casos, a substituição direta não se justifica apenas pelo argumento financeiro.
Ele cita ainda pressões que encarecem qualquer projeto do tipo hoje, da escassez global de semicondutores à disputa geopolítica por soberania em capacidade computacional. O Brasil, lembra o fundador da empresa, detém a segunda maior reserva de minerais raros do planeta, mas segue mais exportador de insumo bruto que produtor de tecnologia própria a partir dele.
A aposta da Fu2re é que a curva de maturação siga o caminho de outras tecnologias que começaram caras e restritas a poucos clientes. Enquanto isso não se confirma em escala, cada novo contrato depende de um cálculo caso a caso entre investimento inicial, custo de manutenção dos modelos e ganho efetivo de receita recuperada pela distribuidora.
Para reduzir o risco desse cálculo, a empresa costuma dividir projetos em fases, com metas e pontos de controle definidos antes de cada etapa avançar. Sih compara a carteira de projetos da Fu2re a um portfólio de investimentos, medido pelo desempenho agregado ao longo do tempo. A leitura devolve ao tema uma dimensão de risco calculado, pouco comum no material promocional do setor.
O gato de luz não vai desaparecer das ruas do Rio por causa de um algoritmo, mas o desvio, que antes só um fiscal detectava andando de porta em porta, agora aparece primeiro numa tela, ranqueado entre milhões de outros pontos de consumo. É essa mudança de escala, mais do que qualquer promessa de solução definitiva, que explica o interesse do setor elétrico pelo modelo. •
Publicado na edição n° 1422 de CartaCapital, em 22 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Caçadora de gatos’
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