Do Micro Ao Macro
Burnout não é falta de resiliência, mas falha de gestão
Casos de burnout disparam, especialista afirma que o problema não está nos profissionais, mas no modelo de gestão adotado pelas companhias
Primeiro de maio, Dia do Trabalhador, data que marca também os dois anos do projeto Do Micro ao Macro, iniciativa de CartaCapial apoiada pelo Sebrae que acompanha a rotina de quem empreende e trabalha no país. Ao longo desse período, um dos temas mais recorrentes entre as pautas envolvendo trabalho e empreendedorismo é saúde mental. E o burnout ganha cada vez mais espaço no vocabulário corporativo brasileiro.
A discussão ganha peso adicional neste ano. A partir de 26 de maio, entra em vigor a nova redação da NR-1, norma regulamentadora do Ministério do Trabalho que passa a obrigar empresas a identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais no ambiente de trabalho, ao lado dos riscos físicos, químicos e biológicos já previstos. Na prática, transtornos como ansiedade, depressão e burnout entram no radar oficial da fiscalização trabalhista.
Por isso, a virada de chave defendida por especialistas em gestão de pessoas começa a se impor também por força de lei. Para uma parcela cada vez maior desses profissionais, o esgotamento emocional deixou de ser leitura possível como fragilidade individual e passa a ser lido como sintoma de falhas estruturais nas companhias.
A análise é defendida por Luciana Ribeiro, CEO da Zetha Group, empresa que atua no desenvolvimento de experiências imersivas voltadas a cultura organizacional, bem-estar e engajamento de equipes. Para a executiva, naturalizar o estresse como parte da rotina deixou de fazer sentido.
“Metas irreais e a exigência constante de resultados, mesmo quando há sinais claros de adoecimento, revelam um problema de gestão, não de capacidade individual”, afirma.
Burnout exposto pelo modelo de cobrança
Segundo a especialista, o discurso da resiliência foi por muito tempo o principal antídoto oferecido aos funcionários, mas raramente acompanhado de uma análise sobre o ambiente de trabalho.
“Durante muitos anos, o mundo corporativo ensinou trabalhadores a serem mais resilientes. Mas pouco se questionou: resilientes a quê?”, provoca.
Ela enumera fatores que pesam diretamente no desgaste das equipes: jornadas exaustivas, comunicação desalinhada entre lideranças e ambientes emocionalmente inseguros. O resultado, na prática, é um dilema silencioso vivido por boa parte dos profissionais, que percebem o ambiente como adoecedor, mas permanecem por necessidade financeira.
Embora não exista solução imediata, a executiva aponta caminhos possíveis tanto no plano individual quanto organizacional.
Pausas conscientes e regulação emocional como respostas
No campo individual, a CEO destaca práticas de regulação emocional, organização de prioridades e pausas conscientes ao longo do dia. Recursos que, segundo ela, ajudam o profissional a reduzir o impacto da pressão sobre o corpo e a mente.
“Quando o sistema nervoso está mais equilibrado, a pessoa consegue trabalhar com mais clareza, mesmo em contextos exigentes”, explica.
Outro ponto levantado pela executiva é o alinhamento de expectativas com a liderança. Em ambientes com metas pouco realistas, segundo ela, a comunicação objetiva sobre prioridades e limites deixa de funcionar como confronto e passa a ser ferramenta de gestão.
Além disso, Luciana defende a preservação da identidade fora do trabalho como medida de proteção. Manter vínculos, hobbies e interesses pessoais evita que a pressão profissional se converta em ameaça à autoestima.
Sintomas do burnout exigem rede de apoio e novas competências
A executiva reforça ainda que o profissional pode usar o tempo a favor da própria autonomia, mesmo quando a saída imediata do emprego não é viável. Para isso, recomenda investir em novas competências e ampliar a rede de contatos.
“Isso não significa sair imediatamente, mas criar possibilidades e autonomia para o futuro”, diz.
Do lado das empresas, o recado da CEO da Zetha Group é direto: performance sustentável depende da saúde emocional dos times. Ignorar esse fator, segundo ela, encurta o ciclo de produtividade e eleva a rotatividade.
“Negócios que desejam crescer de forma consistente precisam entender que bem-estar não é um benefício extra, mas uma estratégia de sobrevivência organizacional”, reforça.
Por fim, Luciana lembra que o avanço depende de uma postura conjunta. Ambientes saudáveis retêm talentos e ampliam o potencial de resultados, em um movimento que combina amadurecimento das lideranças e protagonismo dos profissionais.
Se você ou alguém próximo está enfrentando sintomas de esgotamento, ansiedade ou outras questões de saúde mental, busque ajuda profissional.
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