Do Micro Ao Macro

Burnout não é falta de resiliência, mas falha de gestão

Casos de burnout disparam, especialista afirma que o problema não está nos profissionais, mas no modelo de gestão adotado pelas companhias

Burnout não é falta de resiliência, mas falha de gestão
Burnout não é falta de resiliência, mas falha de gestão
mulheres concentram cerca de 60% dos diagnósticos de Síndrome de Burnout, ligados à jornada tripla mulher com burnout
Apoie Siga-nos no

Primeiro de maio, Dia do Trabalhador, data que marca também os dois anos do projeto Do Micro ao Macro, iniciativa de CartaCapial apoiada pelo Sebrae que acompanha a rotina de quem empreende e trabalha no país. Ao longo desse período, um dos temas mais recorrentes entre as pautas envolvendo trabalho e empreendedorismo é saúde mental. E o burnout ganha cada vez mais espaço no vocabulário corporativo brasileiro.

A discussão ganha peso adicional neste ano. A partir de 26 de maio, entra em vigor a nova redação da NR-1, norma regulamentadora do Ministério do Trabalho que passa a obrigar empresas a identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais no ambiente de trabalho, ao lado dos riscos físicos, químicos e biológicos já previstos. Na prática, transtornos como ansiedade, depressão e burnout entram no radar oficial da fiscalização trabalhista.

Por isso, a virada de chave defendida por especialistas em gestão de pessoas começa a se impor também por força de lei. Para uma parcela cada vez maior desses profissionais, o esgotamento emocional deixou de ser leitura possível como fragilidade individual e passa a ser lido como sintoma de falhas estruturais nas companhias.

A análise é defendida por Luciana Ribeiro, CEO da Zetha Group, empresa que atua no desenvolvimento de experiências imersivas voltadas a cultura organizacional, bem-estar e engajamento de equipes. Para a executiva, naturalizar o estresse como parte da rotina deixou de fazer sentido.

“Metas irreais e a exigência constante de resultados, mesmo quando há sinais claros de adoecimento, revelam um problema de gestão, não de capacidade individual”, afirma.

Burnout exposto pelo modelo de cobrança

Segundo a especialista, o discurso da resiliência foi por muito tempo o principal antídoto oferecido aos funcionários, mas raramente acompanhado de uma análise sobre o ambiente de trabalho.

“Durante muitos anos, o mundo corporativo ensinou trabalhadores a serem mais resilientes. Mas pouco se questionou: resilientes a quê?”, provoca.

Ela enumera fatores que pesam diretamente no desgaste das equipes: jornadas exaustivas, comunicação desalinhada entre lideranças e ambientes emocionalmente inseguros. O resultado, na prática, é um dilema silencioso vivido por boa parte dos profissionais, que percebem o ambiente como adoecedor, mas permanecem por necessidade financeira.

Embora não exista solução imediata, a executiva aponta caminhos possíveis tanto no plano individual quanto organizacional.

Pausas conscientes e regulação emocional como respostas

No campo individual, a CEO destaca práticas de regulação emocional, organização de prioridades e pausas conscientes ao longo do dia. Recursos que, segundo ela, ajudam o profissional a reduzir o impacto da pressão sobre o corpo e a mente.

“Quando o sistema nervoso está mais equilibrado, a pessoa consegue trabalhar com mais clareza, mesmo em contextos exigentes”, explica.

Outro ponto levantado pela executiva é o alinhamento de expectativas com a liderança. Em ambientes com metas pouco realistas, segundo ela, a comunicação objetiva sobre prioridades e limites deixa de funcionar como confronto e passa a ser ferramenta de gestão.

Além disso, Luciana defende a preservação da identidade fora do trabalho como medida de proteção. Manter vínculos, hobbies e interesses pessoais evita que a pressão profissional se converta em ameaça à autoestima.

Sintomas do burnout exigem rede de apoio e novas competências

A executiva reforça ainda que o profissional pode usar o tempo a favor da própria autonomia, mesmo quando a saída imediata do emprego não é viável. Para isso, recomenda investir em novas competências e ampliar a rede de contatos.

“Isso não significa sair imediatamente, mas criar possibilidades e autonomia para o futuro”, diz.

Do lado das empresas, o recado da CEO da Zetha Group é direto: performance sustentável depende da saúde emocional dos times. Ignorar esse fator, segundo ela, encurta o ciclo de produtividade e eleva a rotatividade.

“Negócios que desejam crescer de forma consistente precisam entender que bem-estar não é um benefício extra, mas uma estratégia de sobrevivência organizacional”, reforça.

Por fim, Luciana lembra que o avanço depende de uma postura conjunta. Ambientes saudáveis retêm talentos e ampliam o potencial de resultados, em um movimento que combina amadurecimento das lideranças e protagonismo dos profissionais.

Se você ou alguém próximo está enfrentando sintomas de esgotamento, ansiedade ou outras questões de saúde mental, busque ajuda profissional.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo