Do Micro Ao Macro
1 em cada 3 brasileiros não tem motivação para levantar da cama e ir trabalhar, revela pesquisa
Pesquisa ouviu 1.355 pessoas de todas as regiões e classes sociais e traça um retrato de uma população exausta que aposta na vida pessoal para seguir em frente
Um em cada três brasileiros não tem motivação para levantar da cama. A ansiedade é a principal razão, e os números de uma pesquisa inédita confirmam o que boa parte da população já sente, mas raramente nomeia. O retrato que emerge do estudo Tensões Culturais 2026, realizado pela Quiddity, consultoria do ecossistema Untold|, é o de um país funcional por fora e sobrecarregado por dentro.
O estudo ouviu 1.355 pessoas entre 18 e 64 anos, de todas as classes sociais e regiões do Brasil, e identificou o que chama de “estado de defesa otimista”: uma combinação de esperança e esgotamento que define o humor nacional no início do ano.
Otimismo e ansiedade
Os dados revelam uma ambiguidade que o brasileiro já incorporou ao cotidiano. A ansiedade foi o sentimento mais relatado no último ano, presente em 43% dos entrevistados. Logo atrás aparece a gratidão, com 39%, seguida de alegria (32%), exaustão (33%) e desânimo (28%).
Essa mistura não é contraditória. É adaptativa.
“O brasileiro aprendeu a usar o otimismo como uma estratégia de sobrevivência. É o famoso ‘a gente dá um jeito’ como padrão nacional”, diz Rebeca Gharibian, sócia e diretora geral da Quiddity. “Por trás dessa resiliência, há um custo: a normalização do caos. O sentimento predominante não é de alívio ou realização, mas de um cenário onde a ansiedade e o cansaço pesam significativamente.”
Confiam na própria vida, desconfiam do país
A pesquisa expõe uma divisão clara entre o plano individual e o coletivo. Oitenta e cinco por cento dos entrevistados acreditam que sua vida financeira vai melhorar em 2026, e 78% apostam que o ano será melhor do que o anterior.
Quando a pergunta muda de foco, os números despencam. Apenas 34% depositam a mesma confiança no futuro do Brasil.
Esse recuo para a esfera pessoal funciona como uma resposta ao desgaste com o ambiente externo. A positividade se concentra onde o indivíduo sente que ainda tem algum controle.
Menos informação, mais autocuidado
O estudo também mapeia o impacto da chamada “infoxicação“, o estresse provocado pelo excesso de estímulos e notificações. Em resposta, parte da população adotou o que a pesquisa descreve como “descanso do militante”: o abandono de grandes causas e debates em favor da preservação da própria saúde mental.
Quatro em cada dez brasileiros relatam não ter com quem conversar. E 45% afirmam operar sob sobrecarga constante, o que torna o convívio presencial um esforço emocional frequentemente insuportável.
A pesquisa chama esse processo de “erosão silenciosa”: o indivíduo permanece funcional, mas o isolamento vai se instalando sem alarmes.
O que isso significa para marcas e líderes
Para Everton Schultz, especialista em reputação e líder do grupo Untold|, ignorar esse estado emocional é um risco para empresas e marcas. “A reputação tornou-se um ativo extremamente volátil”, afirma. “Ignorar o cansaço emocional do consumidor ou insistir em narrativas unilaterais, que não convidam as pessoas a participarem de conversas, pode afastar marcas e empresas de seus stakeholders.”
Segundo ele, o consumidor de 2026 não quer ser orientado. Quer ser acompanhado. “As pessoas buscam ações concretas e caminhos que as ajudem a navegar em um cotidiano cada vez mais complexo. Caminhar junto e não apenas indicar caminhos.”
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