Diversidade

Taça da Diversidade, o torneio que une pessoas LGBTs afastadas do futebol pelo preconceito

O campeonato reunirá mais de 200 atletas em São Paulo, na véspera da Parada LGBTQIA+. Boa parte está regressando ao esporte e competindo pela primeira vez

Rafael sempre gostou de futebol, mas só retornou ao esporte após encontrar um time que acolhia homens gays. Foto: Filipe Manetta Marquezin
Rafael sempre gostou de futebol, mas só retornou ao esporte após encontrar um time que acolhia homens gays. Foto: Filipe Manetta Marquezin
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“Viado não sabe jogar bola” foi a piada mais frequente ouvida por Rafael de Araújo Silva na infância.

O esporte sempre foi uma brincadeira agradável com os seus pais, mas a homofobia que enfrentava na escola onde estudava, em Osasco (SP), foi o afastando aos poucos das quadras. Bastava dar um passe errado que Rafael virava alvo de apelidos pejorativos e de uma perseguição violenta e desproporcional. Depois de uma lesão na canela, aos dez anos, ele decidiu, então, pendurar de vez das chuteiras.

Mas vinte anos se passaram, e Rafael, hoje com 34 anos, está de volta ao gramado para disputar o seu primeiro campeonato de futebol. Estreará na Taça da Diversidade, um torneio para times de atletas da comunidade LGBTQIA+, a ser realizado no sábado, 18 de junho, na Barra Funda, em São Paulo.

Rafael é um dos 260 atletas que estarão no evento, muitos com histórias semelhantes. Em entrevista a CartaCapital, o designer paulistano conta que decidiu retornar ao futebol no início de 2020, ao conhecer pelas redes sociais o Unicorns, time de São Paulo fundado por dois homens gays em abril de 2015. Segundo os criadores da agremiação, procurava-se um nome “bem gay e fofo” para contrariar o ar másculo e agressivo dos times heterossexuais e, portanto, chegou-se à alusão aos unicórnios.

Foi conhecendo essa novidade que Rafael se encorajou a jogar novamente, chegando a participar das primeiras aulas da escolinha do time, criada no segundo semestre do ano passado. Hoje ele treina em todas as noites de quartas-feiras, na posição de zagueiro.

“Estou jogando com pessoas que têm experiências parecidas, que já foram ridicularizadas ou sofreram algum tipo de pressão. Na maior parte das vezes, são pessoas que não tiveram a oportunidade de jogar”, descreve ele.

A Taça da Diversidade terá 13 times, a maioria é de paulistas, cada um com 16 jogadores e quatro integrantes da comissão técnica. O torneio premiará duas agremiações separadamente, uma de pessoas cis – aquelas que se identificam com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer – e outra de pessoas trans – aquelas que têm identidade de gênero divergente daquele que lhe foi designado a partir do sexo biológico.

São oito times no núcleo cis: duas equipes de homens gays (Unicorns e Bulls), duas de mulheres lésbicas (Fugitivas da Lei Seca e Jogamiga A), duas com homens e mulheres (Guarani e Jogamiga B) e duas heteronormativas, ou seja, com predominância de pessoas heterossexuais (Nenê de Vila Matilde e Reggae Boys).

Outros cinco times concorrerão no núcleo de homens trans: Manda Buscá, Meninos Bons de Bola, Pogonas, Trans United e T Mosqueteiros. Não há um núcleo com times de mulheres trans.

Renan Dias, presidente do Bulls, time nascido em 2017, diz que o torneio terá a participação de uma série de jogadores que se distanciaram do futebol na infância e na adolescência e regressaram somente após os 25 anos de idade, justamente por conta da LGBTfobia.

“Muitas pessoas se afastaram do futebol na infância, por não se aceitarem ou por verem o futebol como um trauma”, afirma Dias, que também é dirigente da Taça. “A gente sempre recebe relatos na equipe.”

Os organizadores esperam a presença de 500 pessoas no espaço. O torneio é avaliado em cerca de 70 mil reais e ocorre com a ajuda de apoiadores como a Prefeitura de São Paulo, a Companhia de Saneamento Básico Sabesp e a Parada LGBTQIA+, manifestação programada para o dia seguinte, 19 de junho, na Avenida Paulista.

Zagueiro do Unicorns, Rafael passou anos afastado do futebol por homofobia. Foto: Gerson Areias

Cada abraço é menos um dia pensando em suicídio’

Faz apenas dois meses que o analista de marketing Gabriel Aranha, de 26 anos, joga futebol pelo T Mosqueteiros, um dos times do núcleo de homens trans, criado em 2019. A última vez que ele havia batido uma bola foi nas aulas de Educação Física entre a 5ª e a 6ª série do ensino fundamental, quando ainda se associava ao gênero feminino.

Naquela época, como a única garota do time, recebia constantemente o tratamento de “café com leite”, mas sempre esteve na mira dos colegas mais agressivos. Parou de praticar o esporte depois de sofrer uma falta brusca. Ali, percebeu que não conseguiria driblar as intimidações dos meninos.

A volta ao futebol ocorreu no dia 1º de maio deste ano, quando completou dois anos de transição para o gênero masculino. Dentro de campo, Gabriel encontrou um espaço de acolhimento que lhe faltava na própria família. Natural de Caraguatatuba, ele havia deixado sua casa aos 16 anos, depois de uma série de desentendimentos sobre a sua sexualidade.

Pelo pouco tempo de prática, Gabriel não competirá nesta Taça, mas estará atento às partidas na arquibancada. Enquanto isso, ele integra um projeto ligado ao time que oferece assistência psicológica a pessoas trans.

O programa leva o nome de Núcleo Resistência, composto por grupos de apoio onde são compartilhadas experiências relacionadas a dosagens hormonais, cirurgias, retificação do registro civil, inclusão no mercado de trabalho, entre outros temas. Gabriel está num setor chamado Homens Trans em Diálogo, que realiza reuniões mensais para pautar assuntos comuns.

“Cada dia que a gente troca uma mensagem de bom dia, que a gente se encontra, que a gente se abraça, é um dia a menos que algum de nós pensa em suicídio”, afirma.

Segundo Matheus Oliveira da Silva, treinador do T Mosqueteiros, as pessoas que manifestam interesse em se tornarem atletas são encaminhadas para um grupo virtual chamado “portaria”, para que sejam listadas num formulário as eventuais necessidades de cada um.

Os treinos ocorrem aos domingos, em um salão no bairro da Luz, com a participação média de 35 pessoas. O aluguel da quadra e a obtenção dos materiais esportivos dependem da contribuição coletiva de 20 reais mensais. O caixa tem uma reserva para pessoas com carências financeiras maiores.

“As pessoas trans são muito julgadas. O nosso time tem pessoas que nunca tiveram contato com o futebol, por vergonha de exporem seus corpos”, diz Matheus. “Lá no time, todos são iguais e se sentem à vontade.”

Gabriel Aranha, ao centro, passou uma vida afastado do futebol. Ao regressar, encontrou espaço de apoio entre homens trans. Foto: Arquivo pessoal

O boom do futebol LGBT+ no Brasil

A Taça da Diversidade é precursora de uma cena ascendente de competições de futebol entre times LGBTQIA+ no Brasil. Neste ano, ocorre a terceira edição do campeonato – a primeira foi em 2016, com apenas quatro times, e a segunda, em 2019.

Hoje, o País tem 37 times cadastrados no site da Ligay, uma liga nacional de futebol que mapeia agremiações do segmento.

A Ligay surgiu em 2017, após a realização da 1ª Taça Hornet de Futebol da Diversidade, torneio que leva o nome do aplicativo móvel Hornet, voltado para relacionamentos LGBTQIA+. No mesmo ano, a associação promoveu a 1ª edição da Champions Ligay, que é hoje o principal campeonato a nível nacional do segmento, com etapas regionais.

As equipes jogam na modalidade society, nome dado ao futebol praticado entre dois times em um campo de grama sintética, cada um com sete atletas, sob o acompanhamento de dois árbitros.

Os times aparecem em um ranking da Ligay com pontuações acumuladas por vitórias e empates desde 2017. Atualmente, os cinco times com os melhores números são o Beescats Soccer Boys (Rio de Janeiro), o Bulls Football SP (São Paulo), o Unicorns Brazil (São Paulo), o Alligaytors Esporte Clube (Rio de Janeiro) e o Magia Sport Club (Porto Alegre).

Segundo a Ligay, há registros isolados de competições entre os times LGBTs desde a década de 1990, mas a partir da Taça da Diversidade de 2016 houve um boom no País.

A organização, que já conta com o apoio de algumas empresas,  prevê a criação de um CNPJ neste ano para, futuramente, ampliar os seus projetos a partir de verbas públicas e privadas. A sede fica na casa do diretor-presidente, Carlos Renan dos Santos Evaldt, em Porto Alegre.

Em entrevista a CartaCapital, Evaldt diz que o futebol tem vocação para ser um instrumento de inclusão social e que não poderia ser diferente com a população LGBTQIA+. Segundo ele, os integrantes da Ligay atuam para atrair novos membros da comunidade ao esporte.

“Muitas vezes nos foi dito que não poderíamos participar do futebol porque éramos LGBTs, afeminados ou de um determinado modo que não se encaixava no que se julga como perfil ideal para jogar”, relata Evaldt. “Estamos aqui para afirmar que o esporte é para todos.”

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Victor Ohana

Victor Ohana
Repórter do site de CartaCapital

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