Sobre mães e transfobia

'A luta contra a transfobia é essencial num país transgenocida, mas episódios como o da expulsão de Raquel Marques nos desviam dela'

(Foto: Divulgação)

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Diversidade,Opinião

Veio à tona no início do mês a expulsão da codeputada estadual Raquel Marques, da Mandata Ativista do PSOL, cuja titular é Mônica Seixas. Este triste episódio nos dá a oportunidade de refletir sobre alguns problemas óbvios da esquerda, mas que não são pensados de forma madura nem séria no nosso campo. Às vezes, é realmente surpreendente como as obviedades são ignoradas por nós.

Vamos aos fatos:

1. Acusação de transfobia

A codeputada da Assembleia Legislativa de São Paulo foi acusada depois de escrever o seguinte tuíte: “Queria que um dia o desrespeito ao direito da infância e adolescência ganhasse na mente da esquerda a mesma indignação que a transfobia causa”. Do fundo da minha humildade, acho que nos encontramos aqui diante de um exemplo típico de má interpretação de texto. Admito que a postagem da Raquel tenha sido pouco estratégica, pois foi feita no dia da visibilidade trans.

Mas acusá-la de transfóbica me parece um exagero descabido. Umas aulas básicas de língua portuguesa nos permitem entender que Raquel não quer diminuir o papel da luta trans, mas aumentar a visibilidade e a centralidade da pauta sobre a infância no campo progressista, ainda mais neste contexto de pandemia e de fechamento das escolas que tanto sofrimento provoca em crianças e adolescentes. Mas, se ainda restasse algum tipo de dúvida linguística, conhecer a trajetória militante de Raquel afastaria a opção de encaixá-la no rótulo da transfobia. Peço, desde este espaço que ocupo, que não sejamos levianos com acusações tão sérias como estas. O Brasil é campeão em assassinatos de trans. A luta contra a transfobia é essencial num país transgenocida, mas episódios como o de Raquel me parece que nos desviam da importância desta luta.

Se restasse algum tipo de dúvida linguística, conhecer a trajetória militante de Raquel afastaria a opção de encaixá-la no rótulo da transfobia

2. Mandata coletiva?

Não só a acusação me parece desproporcional, mas a forma como Raquel foi expulsa da Mandata demonstra como, às vezes, nosso campo tem problemas com o respeito às normas democráticas. Muitos de nós gostamos da formulação dos mandatos coletivos por eles representarem práticas políticas mais democráticas, mais integradoras, mais participativas. A coletividade precisa, no entanto, ser levada até as últimas consequências. Raquel foi afastada de um mandato para o qual ela tinha sido votada, de forma unilateral, sem ser incluída no debate sobre sua expulsão.

Milhares de votos depositados nela não foram respeitados. O debate, o direito de defesa e o sagrado princípio do dissenso não foram respeitados. Se a gente não for capaz de construir, de forma radical, um projeto político coletivo, lidando com os conflitos, com as divergências, com os desacordos, então estamos muito longe daquilo que dizemos representar. Cancelar, excluir por decreto, anular sem direito de defesa quem sempre lutou do nosso lado, não me parece o melhor caminho.

Se a gente não falar de família, não estranhem que, depois, a direita que fala sobre família conquiste esses votos

3. Maternidade e infância

Finalmente, outro ponto essencial neste debate sobre equívocos e ausências. Sejamos sinceros. A esquerda não representa as mães. A esquerda não representa as crianças. São pautas que não ganham eleições, que não ocupam os espaços centrais dos programas nem os discursos dos debates entre candidatos. Se a esquerda e o feminismo não colocarem no centro de sua agenda a questão da maternidade e a infância, continuaremos sem representá-los e vamos perder milhões de mulheres às quais depois chamaremos de burras porque apoiam uma agenda de direita que fala sobre infância e família. Nas pesquisas que desenvolvo com Camila Rocha, nas quais temos entrevistado muitas mães periféricas, é uma reclamação comum o abandono que elas, enquanto mães, sentem. Em muitas ocasiões ouvimos criticarem um feminismo e uma esquerda que, segundo a sua percepção, não se preocupam como a maternidade como elas gostariam e como elas precisam.

Bem, temos duas opções: desconsiderar a posição dessas mulheres e pensar que elas estão equivocadas, pois a gente luta, mas elas são ignorantes e não entendem que somos seus legítimos representantes, ou podemos escutar. Escutar que elas, enquanto mães, se sentem excluídas.

Escutar que elas sentem que seus filhos são excluídos de nossas pautas. Escutar que elas, durante a pandemia, estão, estamos, esgotadas, no nosso limite, desassistidas no pior dos mundos.

Eu sou da opinião de que a esquerda deve assumir a pauta da maternidade e da infância com total potência e centralidade. Vivemos num país de milhões de mães solo, de milhões de crianças vulneráveis. Se a gente não falar de família, não estranhem que, depois, a direita que fala sobre família conquiste esses votos. A gente pode continuar a pensar que elas não sabem votar e nós estamos certos. Ou podemos escutar. E mudar.

Publicado na edição n.º 1144 de CartaCapital, de 12 de fevereiro de 2021.

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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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