Por que o Brasil precisa ler Carolina Maria de Jesus?

Se o Brasil lesse Carolina Maria de Jesus, não elegera governantes sem compromisso com políticas para erradicação das desigualdades

A escritora Carolina Maria de Jesus. Foto: Reprodução/Acervo Instituto Moreira Salles)

A escritora Carolina Maria de Jesus. Foto: Reprodução/Acervo Instituto Moreira Salles)

Diversidade,Opinião

Inicio este artigo destacando algo fundamental: minha escrita não é apenas sobre indivíduos ou pessoal.

Trago reflexões através de memórias da minha trajetória na educação pública, pois a partir de narrativas autobiográficas é possível perceber o contexto social em que as personagens estão.  Relatos autobiográficos revelam muito mais do que a vida de uma única pessoa. Através deles, podemos aprender com o passado e trabalhar por um futuro mais justo.

Dito isto, retomo a pergunta: por que o Brasil precisa ler Carolina?

Suas obras publicadas em vida e as póstumas não estão dispostas nas escolas e bibliotecas na mesma proporção que os demais escritoras(es) brasileiras reconhecidas, sequer recebem o mesmo prestígio. Ao compararmos a lista dos nomes que os estudantes são incentivados a ler durante a formação, constataremos que a escrita que merece honra tem cor, raça e gênero.

É uma listagem sexista e branca. Tomarei como exemplo a Fuvest, uma das mais concorridas. Vestibulandos deveriam ler Gregório de Matos, Machado de Assis, Drummond, Graciliano Ramos, Eça de Queiroz, Guimarães Rosa, Cecília Meireles, Pepetela, Aluísio de Azevedo e Bernardo Carvalho.

A exclusão de escritoras(es) negras é vergonhosa e intencional. A mesma situação se repete nas bibliografias dos concursos públicos que ocorrem pelo Brasil. Se os professores com quem que trabalhei lessem Carolina, teriam aprendido “que a fome também é professora”.  Eu provavelmente não vivenciaria situações violentas como a que relatarei:

Era dezembro de 1994, dia das famílias matricularem as crianças e a escola realizava uma reunião com os professores. Me recordo de ver dois “colegas” brancos debochando de uma das mães que estava na fila. Assisti a criminosa cena porque os dois chamaram o grupo em tom jocoso:

Venham ver a mulher que está na fila. Além de estar com dois na barra da saia, carrega mais um bebe no colo. Como é alguém teve coragem de comer uma mulher assim!“

Eu vi uma mulher negra com o rosto da fome e seus filhos. Cabelos que carregavam a poeira das ruas, pele ressecada pelo sol, rosto cadavérico e envelhecido. Sofri um abalo emocional tão grande que só conseguia chorar. Ao me recuperar disse aos colegas que não entendia de onde vinha o sentimento que os impulsionou a rir e lamentava que crianças conviveriam com educadores que zombavam da fome.

Um professor negro como eu, propôs aos que desejassem participar, que fossemos a casa daquela família levar mantimentos. Éramos dezenas, mas apenas 3 aderiram e subiram o morro localizado em uma área de ocupação na Zona Norte de Sampa, em busca das crianças.

Ao chegar encontramos um espaço pequeno, coberto com uma espécie de lona. As crianças estavam sozinhas. O mais velho de 7 anos contou que o irmão de 2 ainda não andava, por isso precisava tomar conta de todos enquanto a mãe saia para catar papelão e trazer comida. No espaço havia uma lata sobre o fogo com feijões cozinhando.  Eles não sabiam do pai, pois havia partido.

É sobre essa realidade que algumas pessoas riem e outras não se importam, que Carolina escreveu. Ela denunciou a devastação que o racismo, a misoginia e a miséria fazem na vida de milhares. Seu livro Quarto de Despejo foi publicado em mais de 40 países, traduzido para 14 línguas e se espalhou pelo mundo porque não é apenas sobre ela e sim sobre muitos. Carolina dizia usar a escrita como mecanismo de vingança, pois contaria todo mal feito a ela. Das ofensas e violências e dos sonhos não realizados, dentre eles ser professora.

Ela morreu abandonada pelo mercado editorial e se dizia confusa em relação a dia do seu nascimento. Mulheres como ela, veem a face do abandono ao nascer, durante a vida, no momento da morte e também após, pois as tentativas de apagamento do legado não dão trégua. Carolina escolheu o dia 14 de março para ser o seu aniversário, então celebramos sua existência nesta data, apesar do silencio midiático que evita comemorar.

No mês de fevereiro Carolina recebeu o título de doutora honoris causa concedido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro por sua contribuição, notícia pouco divulgada.

Se o Brasil lesse Carolina Maria de Jesus, não aceitaria que quase 30 milhões de pessoas vivessem abaixo da linha da pobreza extrema e que cerca de 15 milhões passassem fome. Não elegeria representantes para governar sem compromisso com políticas públicas para erradicação dessa situação. Não naturalizaria a existência de cerca de 222 mil pessoas em situação de rua, não pularia os corpos do número absurdo de jovens diariamente assassinados, a maioria negros. Não resumiria a desigualdade a três sílabas de cínico significado: MiMiMi.

O Brasil precisa ler Carolina para ver a própria face diante do espelho. Toda mulher que escreve e traz o sustento para casa em um país que ainda as trata com desprezo é uma Carolina e por mais que queiram apagar a trajetória dessas mulheres, o legado deixado, segue impulsionando o trabalho de homens e mulheres comprometidos com a continuidade da vida no planeta de forma justa, apesar de como escreveu Aldir Blanc em Querelas do Brasil:

O Brazil não merece o Brasil.

 O Brazil tá matando o Brasil.

Carolina de Maria de Jesus é leitura necessária para o mundo inteiro.

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Pedagoga com 30 anos de experiência na área da Educação no município de São Paulo. Foi Coordenadora Pedagógica, Supervisora Escolar 10 anos. Supervisora Técnica por 4 anos. Diretora da Divisão de Normatização Técnica da Secretaria Municipal de Educação.

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