Diversidade

Pesquisadores alertam para escalada de violência contra os povos indígenas Parakanã, do Pará

Acusados sem provas pelo assassinato de três jovens encontrados mortos dentro de uma reserva, os Parakanã têm sido alvo de ameaças e manifestações de ódio

Créditos: Reprodução
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Universidades do Pará e Amazonas e organizações ligadas aos direitos humanos se manifestaram em uma nota pública, nesta sexta-feira 6, pedindo proteção aos povos indígenas Parakanã, da Terra Indígena Parakanã, localizada nos municípios de Novo Repartimento e Itupiranga, no sudeste do Pará.

Os autores citam forte “clima de tensão” contra as comunidades após a veiculação da notícia de que três jovens, dados supostamente como caçadores, foram encontrados mortos dentro da reserva indígena no domingo 24.

A autoria do crime, ainda sob a investigação da Polícia Federal e da Polícia do Pará, vem sendo atribuída aos indígenas de maneira prematura.

Um outdoor colocado na entrada da cidade credita aos indígenas a autoria dos crimes, sem nenhuma prova

No texto, os autores pedem proteção continuada aos povos Parakanã, garantia de circulação segura no território e entorno, garantia das atividades de educação e saúde; e garantia de investigação do caso e da defesa dos Parakanã, respeitando a sua cultura e em sua própria língua.

Em conversa com a reportagem de CartaCapital, a pesquisadora da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, Maria Cristina Macedo Alencar, afirma que as populações indígenas estão “sitiadas” em suas aldeias, dada a escalada da violência. A população Parakanã se concentra em 18 aldeias no município de Novo Repartimento e seis no de Itupiranga, totalizando cerca de 1.500 pessoas.

“Isso virou uma onda de ódio, de proliferação de mensagens nas redes sociais e em grupos de mensagens, que reverberou muito forte entre a população local. Todos os povos indígenas estão sendo tratados com a mesma hostilidade”, afirmou. “Os Parakanã não podem sair da terra indígena, porque se eles forem às cidades ninguém sabe o que pode acontecer.”

Um relato da pesquisadora dá o tom da gravidade: “Aqui na cidade de Marabá, que está a 150 km da cidade de Novo Repartimento, tivemos relato de um aluno nosso, que não é Parakanã, que se envolveu em um acidente de trânsito simples, e quando desceu para conversar com o dono do outro carro, quase foi linchado pela população, por ser ‘índio’, como eles dizem”.

Em Novo Repartimento, um outdoor colocado na entrada da cidade atiça ainda mais a opinião pública contra as populações indígenas. “A gente não quer guerra, só queremos Justiça, índio não pode matar”, diz a peça, em referência aos jovens mortos William Câmara, José Luis e Cosmo Ribeiro. “Essas populações já foram julgadas e condenadas pela população local e isso é muito preocupante”, alerta a pesquisadora.

Outdoor colocado na entrada da cidade de Novo Repartimento. Créditos: Divulgação

A reportagem também teve acesso a áudios que circulam em grupos de supostos comerciantes se negando a atender os povos indígenas em seus estabelecimentos. Em algumas mensagens, as ameaças de morte ficam evidentes: “Aonde topar um índio, ir matando, de um por um, para não deixar nenhum vivo, esses índios vagabundos”. (ouça o áudio)

O contexto de insegurança também afeta a rotina e o desenvolvimento de crianças e adolescentes indígenas que, neste momento, estão com as aulas suspensas em Novo Repartimento, por uma determinação da Secretaria Estadual de Educação, sem previsão de retorno. São 16 escolas sem funcionamento.

Na terça-feira 3, o Ministério da Justiça autorizou o envio da Força Nacional para garantir a segurança da reserva indígena e sua manutenção por 15 dias. A reportagem de CartaCapital entrou em contato com a Funai para entender se há outras ações previstas e também questionou a prefeitura de Novo Repartimento sobre a autoria do outdoor exposto na cidade. A matéria será atualizada em caso de manifestação.

Ana Luiza Basilio

Ana Luiza Basilio
Repórter do site de CartaCapital

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