Paridade entre os gêneros no mercado de trabalho? Só daqui a 100 anos

Dados da World Economic Fórum de 2020 apontam que a paridade está ainda muito longe. Especialmente na política

(Foto: iStock Photo)

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Diversidade,Economia

Por Priscila Gorzoni, em colaboração para CartaCapital

Nem você, nem eu, e provavelmente, nem as nossas filhas terão acesso à paridade de gêneros, tanto no mercado de trabalho, quanto em termos de educação, política, economia, saúde, participação política, entre outros aspectos tão importantes à vida das mulheres.

Isso é o que constatou um relatório produzido pela World Economic Fórum, que examina a paridade de gênero, não só em relação ao mercado de trabalho, mas em relação a economia, educação, saúde e participação política. 

De todas, a educação e a saúde são as que mais se aproximam de eliminar as disparidades de gênero, com 96% e 97% de paridade. 

Por outro lado, a participação política é a mais distante da paridade, com 24,7%, mas observou um aumento de 1,8 ponto percentual no ano passado.

Erica Castelo, headhunter internacional e CEO da The Soul Factor, empresa internacional que faz busca e advisory de executivos globalmente, destaca como um dos grandes focos da questão, o gap na participação econômica, em que a marcha em direção à paridade regrediu no ano passado para 57,8% de paridade de gênero. O levantamento anterior, apontava 60% de desigualdade econômica entre homens e mulheres em nível global. “Os culpados habituais são uma parcela menor de mulheres presentes na força de trabalho. As diferenças de gêneros aumentam com a idade. As mulheres ainda são proibidas de abrir uma conta bancária ou obter crédito em 72 países. Somado a isso, as mulheres assumem uma parte desproporcional das responsabilidades domésticas e de cuidados familiares, o que reforça a diferença salarial”, lembra.

A headhunter explica que, para tentar mudar um pouco esse quadro, é fundamental enfrentar a realidade de que homens e mulheres estão muito longe de alcançarem a igualdade, e se isso ocorrer, só será a longo prazo. 

No Brasil essa situação não é nenhuma novidade, e ficou escancarada durante a pandemia. Apesar da lenta retomada da economia, muitas mulheres, sobrecarregadas com os filhos, a família, e demais encargos, se viram obrigadas a abandonar o mercado de trabalho. 

A indiana Anita Bhatia, diretora executiva adjunta da ONU Mulheres, estima graves consequências futuras para o gênero nos próximos anos. “A carga de cuidados das mulheres é muito pesada, e elas já faziam três vezes mais do que os homens antes da pandemia. Agora, com crianças em casa, ensino remoto e outros encargos, mulheres têm abandonado o mercado de trabalho. E isso, terá consequências de longo prazo nas suas rendas, vidas, perspectivas de carreira, e finalmente, terá impacto nos países, porque, se um número significativo da população não pode voltar a trabalhar por causa da carga de cuidados, isso é um problema real”, relata Anita.

As mulheres já tinham uma situação desigual no mercado de trabalho, por conta de salários baixos, oportunidades desiguais e da cultura machista. A pandemia tornou mais graves todos os aspectos. Muitas mulheres ficaram desempregadas, e das que se mantiveram trabalhando, boa parte se viu enfrentando a carga dobrada, dividida entre cuidar dos filhos ou dos pais idosos, e lidando com as questões do ensino remoto e a manutenção da casa. 

Em entrevista sobre o assunto, Anita divide a força de trabalho feminina entre as mulheres que têm filhos, pais idosos, familiares para auxiliar durante a pandemia, mas sem estrutura adequada para trabalhar em home office, e as que não são responsáveis por familiares e filhos, mas possuem uma boa estrutura para trabalhar em casa. 

Por uma questão de mentalidade atrasada, machista e patriarcal, toda a responsabilidade de lidar com a família, filhos, pais recai sobre as mulheres. Para que a paridade de gêneros ocorra, é necessária uma mudança na mentalidade da sociedade. “Igualdade de gênero não é uma questão das mulheres, é uma questão universal, tem que envolver homens e meninos, e mostrar que a masculinidade tóxica é uma coisa terrível. A masculinidade positiva significa apoiar as mulheres. Para fazer isso, temos que ter bons modelos de líderes, no setor público ou privado, nas artes, na imprensa. Como a igualdade de gênero é uma questão de direitos humanos, é preciso ter certeza de que todos estão envolvidos”, exemplifica Bhatia.

Nesse processo, é fundamental incluir representantes políticos que expressem, e que de fato tenham uma mentalidade aberta à paridade de gêneros. A inexistência disso impacta tudo na sociedade, desde as relações, até a economia. 

Se as mulheres estivessem em pé de igualdade com os homens, em todos os sentidos, teríamos US $13 trilhões adicionados ao PIB global.

No Brasil, as coisas vão mal….

Se a situação das mulheres é ainda muito complicada no mundo, o Brasil vai ainda pior. O país ocupa o 93º lugar entre 156 países no ranking global de igualdade de gêneros. 

A postura do governo atual, que não dá a devida importância ao papel das mulheres, nem à igualdade, provoca ainda um retrocesso em algumas conquistas das mulheres brasileiras. “O Brasil um dos maiores países na América Latina, está atrás de países como  República Dominicana e Nicarágua, o que demonstra o tamanho do caminho ainda a ser perseguido em busca de uma economia mais justa entre homens e mulheres”, exemplifica Erica.

As profissões do futuro

Para entender melhor o problema, também é importante levantar alguns dados, entre eles o da representação das mulheres em empregos considerados ‘emergentes’: aqueles que crescerão nos próximos cinco anos nas 20 principais economias. “Em apenas duas das oito categorias desses empregos (Pessoas e Cultura e Produção de Conteúdo) as mulheres constituíam a maioria da força de trabalho. Nas outras seis, Marketing, Vendas, Desenvolvimento de Produto, Dados e IA, Engenharia e Computação em Nuvem, as mulheres estavam em minoria”, lembra a headhunter.

Mas os problemas não param por aqui. Além de estarem sub-representadas nesses campos emergentes, as mulheres aparecem pouco em profissões que correm o risco de serem automatizadas. “A oferta de mulheres com habilidades adequadas aos trabalhos mais promissores é apenas parte do problema. Em alguns casos, os empregadores negligenciam as mulheres qualificadas para tais funções, ou elas não se sentem preparadas para assumir esses postos”, ressalta Erica.

Se observarmos em mais detalhes os dados mapeados pelo report do World Economic Forum no Brasil, os resultados são ainda mais polarizantes. Enquanto as mulheres são a grande maioria (71%) em trabalhos relacionados a Pessoas & Cultura, a presença em setores tecnológicos de ponta é pequena: 18% em Dados e Inteligência Artificial, 11 % em Engenharia e apenas 5% em Computação na Nuvem.

Para garantir paridade de gêneros nas profissões do futuro na próxima década, explica Erica Castelo, é fundamental que as organizações tenham uma agenda sustentável de diversidade e inclusão. “É preciso direcionar as contratações utilizando plenamente os talentos existentes, e garantindo, que os ambientes de trabalho inclusivos retenham e desenvolvam as mulheres já empregadas nas profissões consideradas “do futuro.”

Deborah Folloni, CEO da Chiligum, vê um mais profundo. Ela conta que encontra dificuldades de entrevistar candidatas às vagas ligadas às profissões tecnológicas. Isso ocorre porque existem poucas mulheres nessa área, devido a uma tradição que vem desde a infância, em que meninas são minorias no setor dos games. “Um dos caminhos é investir em mulheres nesse setor e é importante as marcas desmistificarem que tecnologia é coisa de homem”

Como diminuir as desigualdades nas empresas?

Para tentar diminuir essa disparidade atual, muitas empresas ligadas à tecnologia no Brasil e no mundo têm apostado em programas para inserir mais mulheres no mercado de trabalho de tecnologia. 

Várias delas, têm oferecido capacitação e até mesmo possibilidades de contratação ao final da jornada de treinamento. Mas ainda é preciso lidar também com um fantasma que ronda a mente das mulheres, a famosa “Síndrome do Impostor”. “Aquela sensação, resultado dessa tradicional injustiça social, que descreve um padrão de comportamento no qual se duvida de suas realizações, um medo de ser exposta como incompetente”, indica Érica. 

É preciso aproveitar esse momento em que a questão de paridade de gênero está sendo debatida e praticar uma maior exposição a novas situações. 

A headhunter dá alguns exemplos de como as mulheres podem fazer isso. “Aplicar-se a uma variedade maior de vagas segundo seus interesses e sonhos, realizar cursos que fogem de seu conhecimento atual mas que abrem oportunidades maiores. É importante que a mulher também exercite o protagonismo em suas iniciativas, e esse conjunto de bons hábitos pró ativos certamente devem criar um futuro diferente, muito mais promissor.”

Segundo os dados da pesquisa do WEF, as mulheres representam uma parcela maior das pessoas que afirmam terem as habilidades comportamentais ou “soft skills”. E uma parcela relativamente menor, daquelas que se declaram com habilidades tecnológicas disruptivas. “Mas é preciso destacar que em ambos os grupos, as mulheres representem uma parcela menor do que os homens”, lembra Erica.

Nesse processo, conclui Erica, o papel do RH das empresas se torna fundamental. “A estratégia de aumentar a oferta de mulheres capacitadas em tech é primordial, mas só é a ponta do iceberg. É preciso fomentar a agenda de inclusão dentro das organizações, garantido o sucesso do futuro dos programas de capacitação e atração de mulheres em tecnologia: a retenção desses talentos femininos e a garantia de que os programas levarão ao aumento natural da presença dessas mulheres em cargos de liderança. As práticas de inclusão contemplam mentorias, workshops internos e formação de grupos de apoio. É verdade, que as mulheres precisam ser aliadas umas das outras na causa. Mas o maior impacto vem também dos homens e da equipe de gestão que as fortalece e defende. Em vez de perpetuar comportamentos tóxicos e hostis em relação às mulheres, as empresas devem tomar medidas preventivas por meio de treinamento, linguagem inclusiva, foco na igualdade e investimentos na criação de uma cultura real de inclusão”.

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