O trabalho ainda é um desafio para as pessoas LGBTs no Brasil

No mês do orgulho, empresas se unem em apoio à pauta, mas cenário está longe de ser o ideal

Em primeiro ato na Avenida Paulista após as eleições, manifestantes LGBTs se reencontram com o lema

Em primeiro ato na Avenida Paulista após as eleições, manifestantes LGBTs se reencontram com o lema "ninguém solta a mão de ninguém"

Diversidade

Em junho é comemorado mundialmente o mês do Orgulho LGBTQIA+, data que marca a rebelião de Stonewall em 1969 nos EUA, que deu início a mudanças no País. Neste período, é comum ver empresas fazendo propagandas com apoio ao tema, mas a realidade dentro dos escritórios está muito longe do ideal.

“Estávamos em um jantar com a chefia falando sobre as vantagens do frio. Assim como todos deram exemplos, eu comentei sobre a possibilidade de ficar de conchinha, vendo um filme. Como todos sabiam que eu tinha um namorado, recebi uma advertência da minha chefe, que classificou a fala como pejorativa, baixa, de teor sexual e um absurdo de ser dito”.

Esse é o relato do paulistano Vitor Meyer, de 24 anos. O internacionalista trabalhou em um banco na capital paulista em 2019 e contou exemplos, como esse citado acima, que faziam parte de sua rotina dentro da empresa. “Nunca me senti acolhido. Quando quebrei o braço, por exemplo, nunca ninguém me ajudou em nada. Almoçava sozinho, fazia as coisas sozinho e etc”, relata Meyes.

Não se trata de um relato isolado. Um estudo da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – a Unirio – publicado em 2020, mostra que metade dos LGBTs esconde a sexualidade no ambiente de trabalho por medo de represálias. O levantamento também mostra que 35% daqueles que decidiram se assumir homossexuais já sofreram algum tipo de discriminação velada ou direta.

 

Cenário em mudança 

A boa notícia é está em curso uma transformação. É o que afirma o consultor de diversidade e conselheiro consultivo, Ricardo Sales.

“A mudança não acontece na velocidade que a gente gostaria e não no mesmo ritmo para todo mundo, mas muita coisa evoluiu”, pontua ele, que atua no ramo desde 2005.

Sales é um dos responsáveis pela Feira Diversa, que acontece neste mês no Brasil. Desde 2015, o evento conecta jovens profissionais LGBTs a empresas comprometidas com a pauta.

A edição deste ano, que começou no dia 31 de maio e vai até o dia 4 de junho, teve o dobro de procura por empresas, reunindo 26 patrocinadores e mais de 70 apoiadores no geral.

Do outro lado, o evento recebeu mais de 3 mil currículos. “Há um amadurecimento no meio empresarial. Amadurecimento não significa que todos os problemas estão resolvidos, longe disso, mas há uma disposição maior de falar sobre esses temas”, explica Sales. A pressão da sociedade, avalia ele, tem grande papel nessas mudanças. “Existe uma cobrança maior da parte de quem vai trabalhar nas empresas e também da sociedade.”

 

 

O problema é mais grave entre as pessoas trans

O cenário de melhora descrito por Ricardo Sales diz respeito a gays, lésbicas e bissexuais cisgêneros – aqueles que se identificam com o gênero que nasceram. A realidade das pessoas transsexuais, no entanto, está longe de ser ideal.

Pesquisa feita pela Associação Nacional de Travestis e Transsexuais, a Antra, mostra que 90% das mulheres trans hoje se encontram na prostituição por falta de oportunidade de trabalho. E quando há uma oportunidade, as empresas ainda não estão preparadas para acolher essas pessoas.

Um funcionária de uma agência de São Paulo, que não quer se identificar, conta a reportagem que entrou na empresa por cotas destinadas a pessoas trans, mas que não houve um preparo para recebê-la.

“Já me chamaram pelo gênero masculino e no dia das mulheres fui excluída das homenagens da empresa”, conta.

Sales destaca essa desigualdade dentro da sigla. “Há desafios muito grande quando olhamos para a população trans, e também recortes sobre pessoas LGBTs negras ou deficientes. A desigualdade é muito maior”, conta o consultor. “Precisamos avançar.”

Marcha do Orgulho LGBT em Nova York. Foto: Michael Appleton/Mayoral Photography Office

Lucro

Além de uma cobrança sobre as empresas, muito possibilitada pelas redes sociais, pesam também questões financeiras. Uma pesquisa da consultoria americana McKinsey, por exemplo, mostra que empresas que se preocupam com a diversidade de gênero são 21% mais lucrativas.

“Uma empresa que olha para essa pauta tem um clima melhor, aumenta sua capacidade de inovar, de ser criativa e com isso atrair novos talentos. Isso tem tem impacto direto no lucro, que acaba atraindo novos investidores”, explica Sales.

Hoje existe um fórum LGBT, liderado pelo consultor, que reúne 108 empresas no qual os presidentes assinaram compromissos com a pauta. Quase todas são grandes instituições, mas que acabam servindo de exemplos para as pequenas e médias.

“Essas empresas estão imunes ao erro? Não, mas se acontecer algo lá dentro tem mais mecanismos de cobrança e fiscalização. Isso é uma conquista”, conclui.

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Repórter do site de CartaCapital

Compartilhar postagem