O que esperar da 1ª Parada do Orgulho LGBT+ pós-Bolsonaro

História dos direitos LGBT+ conversa com a Parada, realizada há mais de 20 anos no Brasil e consolidada como um importante ato político

Foto: Mídia Ninja

Foto: Mídia Ninja

Diversidade,Eventos

A Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo terá sua próxima edição neste domingo 23, e volta à Avenida Paulista com uma temática histórica e política, que retoma a luta do movimento para manter direitos. “50 anos de Stonewall: nossas conquistas, nosso orgulho de ser LGBT+” também deve propor um front direto contra o governo no primeiro ano de gestão bolsonarista.

Com uma agenda que mistura discursos políticos e atrações musicais, a Parada de São Paulo – uma das maiores do mundo – tem horário previsto para começar às 12h, mas a concentração já é a partir das 10h. O trajeto deve seguir da Avenida Paulista até a Rua da Consolação, em uma festa que é um misto de protesto e celebração da comunidade LGBT+.

O tema conversa com uma história de 50 anos, mas que poderia acontecer nos dias atuais. Era 28 de junho de 1969 em Nova York. Gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais decidem dar um basta na repressão policial sobre o bar Stonewall Inn, onde grupos LGBTs costumavam frequentar. Na época, a homossexualidade era proibida em todos os estados americanos e ainda estava na lista de doenças da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Marsha P. Johnson, mulher trans negra considerada a pessoa a arremessar um copo contra as viaturas policiais em frente ao Stonewall, disse uma vez que “não há orgulho para alguns sem a libertação de todos”. Um ano depois, aconteceria a Primeira Parada do Orgulho LGBT em Nova York, o que impulsionou o movimento pelo mundo.

No Brasil, por mais que as ondas do que ocorresse nos Estados Unidos atingissem constantemente a sociedade, 1969 foi mais marcado como o ano da assinatura do AI-5, ato institucional do general Costa e Silva que acirrou a repressão da ditadura. É o que comenta o advogado e autor do livro “História do Movimento LGBT no Brasil”, Renan Quinalha:

“Stonewall será uma referência para o Brasil mais tarde, com todas essas ideias da parada e do orgulho, que serão generalizadas nos anos 90”, diz Quinalha. O movimento LGBT+ brasileiro começaria a se organizar efetivamente a partir de 1978, e teria suas próprias batalhas para enfrentar.

‘Operação Limpeza’

Entre elas, Quinalha destaca a chamada ‘Operação Limpeza’, realizada pela Polícia Militar de São Paulo em 1980. Ela chegou a prender arbitrariamente entre 300 e 500 pessoas por noite, totalizando cerca de 1.500, com a preferência por pessoas LGBT+, prostitutas e pessoas negras. No dia 6 de junho daquele ano, o movimento organizou o 1º Ato Público contra a Violência Policial na escadaria do Teatro Municipal. Até a primeira Parada brasileira, em 1997, ainda haveria alguns anos – tempo o suficiente, porém, para ampliar o clamor por direitos.

“Naquele momento em que a Parada aconteceu, você tinha os primeiros projetos de lei sendo encaminhados ao Legislativo, e precisava mostrar para a população quem eram aquelas pessoas”, diz Regina Facchini, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da Unicamp e uma das organizadoras da primeira Parada.

Segundo Facchini, havia uma série de estereótipos atrelados à pessoas LGBT – “uma minoria, gente muito triste, que vivia mal e que não tinha futuro”, relata a pesquisadora. Nos anos 80, a homotranssexualidade também fora associada, de maneira estigmatizada, ao surto do HIV e ao aumento dos casos de Aids.

Para superar os preconceitos, Regina Facchini também destacou a maneira pela qual a Parada se organiza, o que define como “uma escolha política que deu muito certo”: seu caráter lúdico.

“A gente precisa conversar com as pessoas numa dimensão além do discurso racional e intelectual”, diz Facchini. “Não precisa ser só aquele ativista ou artista ir na TV para dizer o que é. A Parada diz que podemos ir em conjunto na rua para mostrar que todos ali são LGBT, ou pessoas que acreditam que não há nada errado na convivência. Há uma potência grande nesse momento”, analisa ela.

Regina Facchini defende que a Parada LGBT+ é um ato político bem sucedido por dialogar com todos, inclusive de maneira lúdica. (Foto: Mídia Ninja)

O que ainda está por vir

É inegável que houve um grande avanço de direitos desde então. A comunidade LGBT+ já pode se casar e adotar crianças, pessoas trans podem alterar, no registro civil, o prenome e o sexo diretamente nos cartórios, e, mais recentemente, a LGBTfobia foi criminalizada no Brasil e tipificada como racismo.

No entanto, Renan Quinalha destaca que ainda é importante que sejam aprovadas leis específicas, já que esses direitos foram adquiridos por decisões judiciais das respectivas épocas. E vai além: “A questão da violência é central hoje. É necessário que haja políticas públicas que possam garantir a integridade das pessoas”, acrescenta.

Para Quinalha, também se fazem necessárias campanhas educativas e canais de interlocução na cultura. “Precisamos desinterditar a censura moral da qual o governo Bolsonaro se baseou”, acrescenta o escritor.

O diálogo amplo, já consolidado pela Parada, ainda tem quem alcançar, opina Regina Facchini. “A Parada é um momento importante de você ter atividades paralelas que dialoguem com as pessoas, como eventos na OAB, feiras de livros, reunião com Igrejas e outros. Eles se complementam”, diz.

Facchini acrescenta, ainda, que é sempre hora de dar um basta no silêncio – uma opinião clara ao se observar o mote deste ano. “Vamos deixar de viver pela metade. Vamos viver na família, na escola, no trabalho e na Igreja de forma inteira. A ideia do orgulho é isso: na maior parte dos estados possíveis, seremos inteiros.”

 

23ª edição da Parada do Orgulho LGBT+

Das 10h às 18h. Início na Paulista e fim da Rua da Consolação.

Abertura: Passeata Mães pela Diversidade

Trios elétricos dos patrocinadores:

Burger King: Melanie C (Spice Girls), Lexa, As Donas, DJ Cris Negrini

Avon: Gloria Groove, Iza, Aretuza Lovi, Luísa Sonza, Mc Pocahontas

Amstel: Trio comandado por Iza+ DJ’s convidados.

Uber: Mateus Carrillho, Candy Mel, Bia Ferreira, Lia Clark, Dudu Bertholini, Jaloo, Karol Conká, Mulher Pepita, Alinne Rosa e Bruna Linzmeyer.

 

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

É repórter do site de CartaCapital.

Compartilhar postagem