Mulheres quilombolas se organizam em obra para transmissão de saberes

'CartaCapital' conversou com a organizadora, e uma das autoras, Selma Dealdina

Mulheres quilombolas se organizam em obra para transmissão de saberes

Cultura,Diversidade

“Nós, mulheres quilombolas, temos um papel de extrema importância nas lutas de resistência, pela manutenção e regularização dos nossos territórios. No quilombo ou na cidade, temos sido as guardiãs das tradições da cultura afro-brasileira, do sagrado, do cuidado, das filhas e filhos, das e dos griôs, da roça, das sementes, da preservação de recursos naturais fundamentais para a garantia dos direitos”.

O trecho acima está na apresentação assinada por Selma dos Santos Dealdina, coordenadora do livro “Mulheres quilombolas: territórios de existências negras femininas”, livro lançado pela parceria entre o Selo Sueli Carneiro, coordenado pela filósofa Djamila Ribeiro e a Editora Jandaíra.

O livro é uma espécie de mapa que nos leva pelos caminhos da resistência e da transmissão de saberes da cultura quilombola. Escritos por mulheres de quilombos de diversas partes do País, os doze textos que compõem a obra tocam em temas fundamentais para as mulheres quilombolas. Também revelam o do papel central das comunidades tradicionais na construção de um futuro menos predatório para o meio ambiente e para o ser humano.

A obra é inédita no País — o mercado editorial apenas recentemente tem se aberto a produções escritas por negros e negras. Partindo de mulheres quilombolas, a obra literária coordenada por Selma, mulher quilombola do Angelim III, Território do Sapê do Norte, em São Mateus, no Espírito Santo, rompe esse obstáculo.

A escritora conversou com CartaCapital. Ao longo da entrevista, você poderá encontrar trechos de artigos das mulheres que compõem o livro.

Confira:

CartaCapital: Como surgiu a ideia de escrever o livro?

Capa do livro Mulheres quilombolas: territórios de existências negras femininas.

Selma dos Santos Dealdina: Esse livro foi a coisa mais linda que aconteceu. Conheci a Djamila em 2014, quando estava gerente de Políticas para as Mulheres, no estado do Espírito Santo, e a convidamos para um evento. Depois disso, continuamos nos falando, principalmente pelas redes sociais. Até que em 2017, a Djamila me convidou para escrever um livro sobre a questão das mulheres quilombolas. Eu falei: “aceito com a condição de que possa ser escrito por várias mãos”. Porque eu não podia pegar a narrativa só para mim.

E ela disse: “ok. Você coordena esse processo. Façam do jeito que quiserem”. Aí fui chamando, mobilizando, convidando, insistindo com algumas companheiras, até que conseguimos, em outubro de 2020, cerca de três anos depois, finalizar e lançar “Mulheres quilombolas: territórios de existências negras femininas”. Esperamos que seja o primeiro de muitos. Juntar só mulheres quilombolas para escrever, a partir do seu lugar de vivência, de ancestralidade, a partir do seu território, é muito importante, ainda mais tendo a liberdade para criar.

CC: E de que forma se deu a composição do material?

SSD: Fomos vendo que, de alguma maneira, uma narrativa completava a outra. A gente fala de vários temas, mas que se complementam. O processo da diáspora fez com que nos separássemos, mas as histórias são muito parecidas e a luta de resistência e de fortalecimento das comunidades quilombolas é uma só. A Givânia Maria da Silva fala da educação escolar quilombola; a Cida Mendes fala do rompimento do ciclo da violência doméstica e das especificidades desse tipo de situação em um ambiente comunitário; a Carlídia Almeida fala da importância da tradição da passagem de sementes de geração a geração; a Valéria dos Santos fala do desenvolvimento da agroecologia por meio da participação coletiva; a Ana Cleide e a Dalila Martins falam seus poemas; a Vercilene Dias fala da identidade Kalunga; a Rejane de Oliveira, a Mônica  Borges, a Andreia Nazareno e a Nilce de Pontes falam o que é ser mulher quilombola; a Amária Campos de Sousa, a Maria Aparecida Sousa e a Débora Lima falam da experiência no espaço universitário; a Sandra Maria fala como é ser filha de uma mulher tão forte, que é Mãe Tiana, como é ser filha de Xangô, dentro de toda essa dinâmica que a gente tem.

O que tem no livro é a nossa forma singular, nosso jeito de ver a sociedade, nosso modo de organização enquanto mulheres dentro do movimento feminista, dentro de uma pauta que, às vezes, não vê para a questão de gênero com o olhar que merece. Como a gente vem lidando com o machismo do campesinato, por exemplo. Então, o que queríamos era passar o recado para dizer que as mulheres quilombolas estão lutando, contribuindo para a dinâmica da sociedade. E para nós, o livro possibilitou contato com pessoas que nem sabiam que existia comunidade quilombola.

CC: De que forma você enxerga o livro dentro da luta feminista?

SSD: Colocar em evidência a pauta feminista é, de fato, colocar todo mundo para refletir se vamos continuar da forma que estamos ou se vamos fazer o enfrentamento aos males que nos atingem internamente. Racismo, divisão sexual do trabalho e outras questões ligadas ao machismo foram fundamentais para o empoderamento dessas mulheres e para o desenvolvimento do projeto. Portanto, é essencial não perder de vista a importância da autonomia nas nossas vidas. E os textos trazem reflexões sobre esse momento atual, que é de voltar às raízes, de se perceber enquanto militantes, ativistas, mulheres que lutam e que estão dentro dos seus espaços, mas também dentro de seus processos de organização na sociedade; nas associações, nos conselhos, nas coordenações estaduais, municipais, nacional.

“Desde a década de 1950, a produção comunitária deixou de ser suficiente para suprir todas as necessidades; com isso, muitas famílias, incluindo a minha, se submetiam ao exercício da atividade agrícola como diaristas dos fazendeiros da região, em terras que antes pertenciam aos nossos ancestrais. De modo geral, o pagamento pelos serviços era feito com produtos alimentícios, numa prática que hoje seria caracterizada como trabalho escravo – trabalhávamos durante toda a semana para no sábado recebermos milho e feijão. E por mais que trabalhássemos durante semanas inteiras seguidas, as contas nunca fechavam. Meu pai não podia cuidar do próprio roçado porque tinha de priorizar o chamado do fazendeiro, para pagar as dívidas com a sua própria mão de obra”. Maria Aparecida Mendes – Saindo do quarto escuro’”: violência doméstica e a luta comunitária de mulheres quilombolas em Conceição das Crioulas.

CC: Poderia falar da importância histórica que esse projeto tem?

SSD – O projeto, por um lado, foi dolorido, porque toca em algumas feridas que ainda não estão resolvidas. Mas foi também uma dádiva porque, escrevendo, a gente consegue sair da oralidade e deixar nossas histórias escritas e postas nesses lugares. Na escola, a gente aprende sobre revolução Verde, revolução americana, um monte de coisas, mas não aprende sobre cabanagem, não aprendeu sobre Antônio Conselheiro, não aprendeu sobre o quilombo dos Palmares, sobre André Rebouças, enfim. Porque, na continuidade do processo de embranquecimento, há também o processo de apagamento das identidades, das histórias.́ Ou seja, “não vamos dar munição para o povo. Vamos tirar o pouco que eles ainda têm. Então, vamos apagar a história, dizer que foi outra pessoa que construiu”. E a partir disso consegue-se mexer na identidade, no modo de viver e de conviver daquelas pessoas, porque não há nada de referência.

Então, quando a gente apresenta essas narrativas, a gente está falando que um outro Brasil é possível, uma outra pauta também é possível, desde que inclua a questão racial na sua totalidade e veja como é que isso atinge os jovens negros, as mulheres negras, os quilombolas e tantas pessoas que estão nesse meio. E é importante falar dessa efervescência que existe agora – de uma forma mais visível – do interesse da população pela literatura preta. E, respeitando todo mundo que veio antes, acho que a Djamila Ribeiro é um divisor de águas porque traz reflexões que despertaram o nosso interesse pela vida de Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Abdias do Nascimento, também Sueli Carneiro, que está do nosso lado, viva, e tantas outras pessoas incríveis: Jurema Werneck, Lucia Xavier, Regina Adamo, enfim, pessoas incríveis que, não fosse esse novo despertar, ou efervescência da literatura preta, não teríamos acesso. Então, tudo o que ouvíamos, tudo que estava na oralidade, a gente consegue ver agora na escrita.

“Quais são os significados das lutas de gênero ou do feminismo para uma mulher urbana? E para uma mulher negra, urbana e quilombola? Seria a mesma lógica? A vida no meio rural é a mesma do meio urbano? Que valores urbanos são comuns ao mundo rural? Não estou afirmando que as mulheres quilombolas urbanas tenham perdido o seu sentido do ser, nem que as mulheres negras em geral não tenham pautas comuns às mulheres quilombolas. Apenas reflito sobre esses dois mundos, rural e urbano, e as perspectivas de gênero, que por si só se dividem e levam consigo ou constroem para si seus próprios significados. Mesmo no meio rural, existem várias ruralidades, assim como existem várias urbanidades, ou seja, formas diferentes de viver esses dois mundos”. Givânia Maria da Silva – Mulheres quilombolas: afirmando o território na luta, resistência e insurgência negra feminina

Sueli Carneiro, ícone do movimento feminista negro do país, fala no I Congresso Internacional da Coalização Negra por Direitos. Ao seu lado, a ativista quilombola Selma Dealdina (Foto: Fael Cunha)

CC: Como tem sido a recepção do livro?

SSD: Volta e meia alguém diz: “Ah, o livro de vocês foi usado na roda de leitura tal”, “teve indicação de leitura”. Para nós, isso é maravilhoso porque conseguimos, como eu digo no meu artigo, romper a cerca da ignorância, nos colocando nesse espaço enquanto donas de histórias e de narrativas importantes para a História do Brasil.

Temos um trato de enviar o livro para o máximo de mulheres quilombolas que a gente conseguir. Fizemos uma ‘vaquinha’ com algumas entidades, para que fossem doados exemplares bibliotecas e espaços de formação. É um incentivo para que outras mulheres também escrevam, para que surja, quem sabe, uma grande rede de narrativas desses espaços. Porque são mulheres que foram historicamente silenciadas e que têm muito a dizer, que têm muito a trocar, que têm muito a ensinar, e a gente tem muito o que aprender com essas mulheres.

Então, é tratar também desse carinho, desse espaço, tratar com respeito essas narrativas, essas histórias, essas mulheres e homens, essas pessoas que contribuíram para a luta. A gente não chegou aqui do nada. A gente chegou com muita luta, embora passando por esse momento tão complicado, de retirada de direitos, de desvalorização, de tantas outras situações em que somos colocados, colocadas e colocades pelo atual governo, a gente também pensa nesse papel digno que estamos deixando para as próximas gerações. E dizer para as próximas gerações: é possível. Um grupo de mulheres, pretas, quilombolas, sentou, escreveu seu primeiro livro em conjunto.

“O critério de autodeclaração foi um dos principais elementos contraditados na Ação Direta de Inconstitucionalidade (adi) nº 3.239 proposta pelo Partido da Frente Liberal (pfl), atual Democratas (dem), em 2003, contra o Decreto Presidencial nº 4.887/03, que teve sua constitucionalidade confirmada em fevereiro de 2018 pelo Supremo Tribunal Federal. Na ação, argumentava -se que o critério de autodeclaração era frágil, pois qualquer indivíduo poderia se declarar quilombola. Todavia, na prática, há um rito imposto pela própria comunidade a fim de coibir a usurpação de sua identidade/territorialidade, baseado sobretudo na ancestralidade do indivíduo, que é avaliada durante as etapas do procedimento de reconhecimento do pertencimento, sendo, ao final, atestada pela associação da respectiva localidade”. Vercilene Francisco Dias – Eu Kalunga: pluralismo jurídico e proteção da identidade étnica e cultural quilombola

CC – Poderia falar da importância da Conaq para o fortalecimento da luta política quilombola?

SSD – A Conaq foi responsável pela titulação, ainda que pouca, dos territórios, ou seja, foi responsável pela certificação e pela permanência dos quilombolas nos seus espaços ancestralmente ocupados. Ela é forjada na luta pelos territórios, com os anseios de atender a educação, saúde, cultura, moradia, água, terra, território, todos os temas que nos são caros. Completou 25 anos de luta, de reafirmação da identidade quilombola, de luta pelo nosso povo preto, do campo, da cidade, da água, da floresta. E isso impacta a nossa vida diretamente, dando condição política para esse movimento continuar dinâmico, coeso e fazendo a diferença na vida das pessoas. Acho que isso é o mais importante.

Dados da Conaq, em parceria com a Terra de Direitos e outras entidades, mostram que de 2016 para 2017 o número de assassinatos de quilombolas saltou de quatro para 18. São dados do levantamento “Racismo e Violência contra Quilombos no Brasil”, que eu pude ajudar na coordenação. Foi um aumento de 350% nos assassinatos. Estamos preparando, agora, o segundo caderno. Esse estudo foi criado para dizer onde estão e quem são os nossos mortos. O que está acontecendo, por que ninguém é punido? A gente tinha uma angústia com os assassinatos de lideranças quilombolas e com o que estava sendo feito com relação a isso. Quem ia dar o retorno sobre essa questão.

O retorno para as famílias, para as mães, para os filhos. A pessoa morreu, e aí? Vai ficar por isso mesmo?  A vida dela não vai ter justiça? Os responsáveis não irão pagar pelos crimes que cometeram? E, novamente, a gente esbarra na questão do racismo e nas suas manifestações, altamente elaboradas e bem feitas. Porque, no Brasil, quem é vítima de racismo é que tem que provar que sofreu e, ao mesmo tempo, é como se só falássemos disso, como se não tivéssemos outros assuntos para tratar. Obviamente que temos, mas o enfrentamento ao racismo é um deles. É nossa bandeira de luta. O enfrentamento ao racismo é uma questão de sobrevivência.

A luta pelo território cumpre um papel central na reivindicação de direitos dos povos quilombolas, pois do território depende o exercício de diversos direitos fundamentais, como o acesso à educação escolar quilombola, livre uso e preservação da sociobiodiversidade, o direito à produção agrícola tradicional e o direito à cultura etc. A liderança das mulheres quilombolas, por sua vez, é central na luta política pelo território, na medida em que sustenta, protege e desenvolve o principal elemento de sustentação do quilombo: a coletividade. Coletivo de Mulheres da Conaq – Quando uma mulher quilombola tomba, o quilombo se levanta com ela

CC – Como vê as ações do governo Bolsonaro em relação aos quilombolas e às comunidades tradicionais?

SD – Eu sempre digo que existe um projeto em curso, um projeto para a destruição das pautas das comunidades tradicionais. Sucatear o Incra, a Fundação Cultural Palmares, acabar com os espaços de conferência, espaços como a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secadi), sucatear o meio ambiente. Pautas importantes para os quilombolas, indígenas e demais comunidades e povos tradicionais estão sendo esvaziadas. Por exemplo, o governo não fecha o Incra, mas também não põe recursos. Então, o governo mata o Incra de uma outra forma, não colocando dinheiro, não tendo recursos nem para contratar uma pessoa ou para pagar a gasolina de um técnico que precise ir a campo. Portanto, é um processo que é tão cruel quanto a extinção direta de um órgão. Porque não acaba, mas deixa a instituição ‘vivendo na UTI’ e com o oxigênio praticamente acabando.

E tem também a questão das políticas públicas. Na verdade, Bolsonaro nunca escondeu o que realmente pensa. Ele disse que não titularia terra para quilombolas, que não demarcaria terra para indígenas, que não faria reforma agrária para o MST e que não daria casa popular para o MTST. Ou seja, grupos da sociedade considerados, de antemão, inimigos do governo federal. E isso, depois, só se concretizou.

O Tratado de Alcântara, no Maranhão, que ameaça despejar quase 800 famílias quilombolas, várias outras comunidades tradicionais sendo despejadas em todo o Brasil, mesmo o STF tendo decidido que ações de despejo durante a pandemia são ilegais. Desde assentamentos de reforma agrária a territórios indígenas ou quilombolas. E tudo isso acontecendo numa velocidade espantosa, o que é pior.

A falsa abolição nos trouxe até esse cenário, a abolição incompleta, inacabada. Quando, em 1888, decretou-se o fim da escravidão, com a Lei Áurea, o Estado não ofereceu políticas de inclusão à população negra. Pelo contrário, o que houve foi o aumento na exclusão. Não é à toa que a gente está em pleno século XXI fazendo o enfrentamento ao racismo, talvez no seu momento mais exposto. As pessoas não estão escondendo mais. Antigamente, as pessoas sentiam vergonha de dizer que eram racistas, hoje elas fazem questão de se autodeclarar, de se identificar como tal. Não estão mais preocupadas. Estão mais focados em atingir quem pensa diferente, de uma forma muito cruel.

“Foi na disciplina Relações Étnico-Raciais na Escola, recém -introduzida na grade curricular do curso de Pedagogia da Universidade Federal Fluminense, no ano de 2010, que refleti pela primeira vez sobre o racismo estrutural em nossa sociedade.4 Refletir sobre essas histórias e resgatar a memória da família me levaram à autorreflexão, o que, por sua vez, deu início à desconstrução do racismo que habitava em mim e ao processo da minha autoidentificação como quilombola”. Gessiane Nazário – Trajetória acadêmica, raça e identidade quilombola: um breve relato biográfico 

CC – Enquanto vivemos esses retrocessos, o último relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, constata que as taxas de desmatamento na América Latina são mais baixas em áreas indígenas e de comunidades tradicionais reconhecidas pelo Estado.

SSD – Os brasileiros não conhecem o Brasil. Quem preserva nesse país são os indígenas, os quilombolas, as comunidades tradicionais. O que ainda tem de mata atlântica em pé, o que ainda tem de ar limpo, deve-se especificamente a esses povos, que vêm fazendo lá, no seu cantinho, na sua terra, igual formiguinha, o salvamento do meio ambiente. E não há esse respeito, esse entendimento, esse reconhecimento por parte da população, que trata como se fosse obrigação.

Há um grupo importante que vem preservando o que o País tem. A gente se coloca nessa posição. Esse não reconhecimento vem, muito, por parte do Estado brasileiro. Somos agentes fundamentais para essa preservação, para esse debate sobre o meio ambiente, sobre o alimento saudável que a gente quer consumir. Temos técnicas milenares de sobrevivência, de plantio. Não é alguém que vai à universidade ensinar aos povos. O enfrentamento à grilagem também, o enfrentamento à concentração de terras.

Nós estamos aqui, fazendo a nossa diferença no dia a dia, preservando. Porque acho que é essa a ligação, né? Dos quilombolas e dos indígenas com a terra, é a ancestralidade. A gente cuida bem de quem cuida da gente. Embora a terra, o ambiente, a natureza cuidem tão bem da gente, muita gente continua cuidando mal, fazendo tudo errado, jogando lixo, veneno etc, em nome do desenvolvimento. Mas é um desenvolvimento excludente, porque precisa atropelar, passar por cima. Como é o caso do que está acontecendo em Matopiba, com a extensão agrícola; como é o caso de projetos de licenciamento ambiental, que a gente sempre enfrenta, em que as comunidades quilombolas são vistas mais como empecilho do que como possuidoras de direitos em relação aos seus territórios; como é o caso também da Transnordestina e de outros projetos de ‘desenvolvimento’, que, às vezes, não desenvolvem nem sequer as comunidades próximas. Ou projetos de desenvolvimento como no caso de Mariana e Brumadinho, que deu no que deu. Portanto, a gente fica no meio, sem saber, de fato, como se ver num lugar que é questionado a todo momento.

É uma forma também de colocar a opinião pública contra a gente. “Olha, poderia estar acontecendo isso. Só não está porque tem indígenas, quilombolas, povos e comunidades tradicionais”. É uma forma de colocar uma sociedade que não debate temas estruturais, que não conhece a história do Brasil, contra as comunidades tradicionais: “ah, quilombolas, indígenas, sem-terras, o povo que luta por moradia é tudo vagabundo”, mas não se atentam para o fato de que enquanto uma comunidade abriga 70, 80, 700 famílias, grandes latifúndios, que poderiam estar sendo usados para fins de reforma agrária, são verdadeiros “elefantes verdes”, improdutivos. Os proprietários colocam uma cabeça de gado lá e acham que a questão está resolvida.

“É interessante notar que nem sempre as pesquisas realizadas com esse grupo de mulheres e demais agricultores nomeia sua prática como agroecológica. No entanto, conforme explicou Dona Bibia em uma roda de conversa em Parateca, as práticas agrícolas dos grupos de mulheres são inegavelmente agroecológicas: “Nós aqui não joga nenhum veneno. Tudo que nós fazemos é natural. É muito difícil a gente perder algum canteiro porque inseto atacou”.” Valéria Pôrto dos Santos – Quilombo Pau D’arco e Parateca: quando as vozes negras se (re)envolvem na construção de caminhos para a participação coletiva

Selma dos Santos Dealdina em ação pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, a CONAQ. Foto: Nathália Purificação.

CC: Como é a relação das comunidades quilombolas com a atual gestão da Fundação Palmares?

SSD – Não existe relação. Às vezes, pelo governo federal, somos obrigados a falar com a ministra Damares. Mas não existe uma política de Estado e não existe uma relação entre a Fundação Palmares e as comunidades quilombolas; existe uma política de governo contra os povos tradicionais.

Tem um outro ponto que é o seguinte: as pessoas sempre cobram um posicionamento da comunidade negra sobre a gestão de Sergio Camargo à frente da Fundação Palmares. Mas antes é preciso cobrar de Bolsonaro. Quem colocou o Sérgio Camargo lá foi ele. Então, ele é o responsável pelo desmonte das políticas públicas, desmonte da pauta de direitos humanos, da pauta internacional – e a ameaça de sair da Organização Internacional do Trabalho, a OIT. Não podemos ‘passar pano’ para isso.

No ano passado, tivemos um grande retrocesso, quando o governo federal transferiu da Fundação Palmares para o Incra a competência para analisar processos de licenciamento ambiental em territórios quilombolas. Na prática, a mudança beneficia os ruralistas, aumenta a influência de empresários e latifundiários no processo de concessão de licenças para grandes empreendimentos em territórios quilombolas.

Sergio Camargo também quer mexer na logo da Fundação Palmares, que é o machado de Xangô. Ou seja, com tanta coisa acontecendo, os quilombolas precisando de vacina, de teste, de comida, precisando de incentivo para a recuperação pós-covid, o cara está preocupado em facilitar o licenciamento ambiental e mexer com a logomarca da Fundação Palmares, que não está atingindo ninguém.

Esse desrespeito está relacionado à pauta que demoramos 20 anos para construir e que eles destruíram em dois anos. Nós vamos demorar mais 20 anos para reconstruir. Vamos enfrentar um processo de reconstrução de tudo o que foi destruído. Retrocessos, despejos, remoções sem direito de reclamar, e um caminho aberto para a bancada ruralista poder atacar como sempre atacou. Agora, de uma forma legalizada e licenciada, porque tem a permissão do Estado brasileiro.

“Uma das práticas culturais dos povos tradicionais é cultivar e preservar suas próprias sementes, sementes da vida, que trazem uma carga do passado no presente e, ao mesmo tempo, lançam uma ponte para o futuro. Essas sementes são um símbolo de forças latentes, misteriosas, portadoras de esperança para as comunidades. (…) é importante que os saberes tradicionais sejam mantidos vivos. São saberes incontestáveis e libertadores, que vêm construindo cada vez mais um campo de conhecimento desprendido do modelo produtivo capitalista de matriz colonial”. Carlídia Pereira de Almeida – Sementes crioulas, da ancestralidade para a atualidade: o protagonismo dos saberes tradicionais do povo quilombola de Lagoa do Peixe.

CC: A bancada ruralista…

SSD – Bolsonaro sabe muito bem o que está fazendo. O chamado “namoro” com a bancada ruralista – que saiu ainda muito mais fortalecida nas últimas eleições – está botando e aprovando todos os projetos que nos prejudicam. Ou seja, titular território quilombola, não pode, porque “é muita terra”; demarcação indígena não pode, porque “é muita terra”; fazer reforma agrária, não pode, porque “é muita terra”; mas a grilagem de terra, o desmatamento da Amazônia, botar fogo de forma criminosa no Pantanal, e tantas outras coisas, isso aí está liberado porque tem aval do presidente da República. Porque tinha um ministro do Meio Ambiente para fazer a ‘boiada passar’, como foi dito naquela reunião do dia 22 de abril de 2020.

E quem estiver atrapalhando essa “boiada”, vai ser atropelada no processo. Portanto, esse flerte do Bolsonaro com a bancada ruralista é real e extremamente perigoso. Por que ninguém questiona a concentração de terras dos latifundiários desse País, mas questiona quando um determinado pedaço de terra é solicitado para que várias outras famílias, várias outras pessoas, possam morar dignamente? É um processo que arrasa, que desrespeita os direitos humanos, a pauta ambiental, social e cultural. É um projeto nítido de desmantelamento das políticas públicas anteriores ao governo Bolsonaro. E vai piorar.

“Às vezes, Sandra e seus parentes riem do seu próprio temperamento bravio. “Xangô é da machadinha, é bravo, por isso que eles falam que eu sou brava. Eu falo: é meu jeito de ser. E esse jeito meu é fogo, viu?”, diz Sandra Maria, provocando risos. De maneira semelhante, a Yalorixá Mãe Stella de Oxóssi, mãe de santo no conhecido terreiro de candomblé baiano Ilê Axé Opó Afonjá, e sábia escritora, descreve o orixá Xangô como aquele de olhos sempre abertos e atentos, que usa sua arma contra a injustiça”. Ana Carolina Araújo Fernandes – “Eu sempre fui atrevida”: alguns movimentos de uma filha de Xangô na luta quilombola

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Roberto de Martin é jornalista mineiro de Matias Barbosa radicado em Brasília

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