Colunas
‘Mulher cis’ e a polĂtica sexual das palavras
Disputas nĂŁo sĂŁo apenas pelas palavras, mas pelo que elas significam, e para quem
âMulher cisâ Ă© uma das tantas expressĂ”es do lĂ©xico dos estudos de gĂȘnero que sĂŁo, ao mesmo tempo, local e ferramenta de disputa.
A expressĂŁo Ă© usada para designar fĂȘmeas identificadas/que se identificam como mulheres e Ă© bastante problematizada por pessoas que cabem em seu enunciado.
NĂŁo posso dizer que nĂŁo compreendo.
A saber, sou mulher cis. Quando nasci, a partir do que viram, ou do que nĂŁo viram, me designaram menina. Nunca me ocorreu que o fato de que me âliamâ como menina nĂŁo correspondia Ă forma como eu mesma me âliaâ (e estou segura de que a congruĂȘncia entre o olhar do outro e o meu prĂłprio sobre mim, neste sentido estrito, Ă© fator positivo na constituição da minha subjetividade).
Tendo dito isso, Ă© certo que tambĂ©m sempre estive atenta e vulnerĂĄvel Ă s violĂȘncias a que meninas e mulheres sĂŁo expostas por serem meninas e mulheres: assĂ©dio, misoginia, micromachismos, macromachismos, violĂȘncia letal, sexual e simbĂłlica, para nomear alguns.
Sempre vivi e ainda vivo sob o jugo dos estereĂłtipos e normas, opressĂ”es, injustiças e desequilĂbrios nas relaçÔes com homens, relaçÔes que estĂŁo aĂ, em operação e bem visĂveis, desde muito antes de sermos denominadas mulheres cis.
Me identifico como feminista bastante por causa disso tudo, e outro tanto para resistir a isso tudo, e outro tanto ainda para reconfigurar isso tudo.
Ă tambĂ©m por isso tudo que compreendo o incĂŽmodo que o termo âcisâ pode causar. Falar em mulheres, atĂ© pouco tempo atrĂĄs, parecia significar falar apenas sobre mulheres cis.
Para um grupo tĂŁo controlado e silenciado historicamente, e justamente ao redor e por causa do qualificador âmulherâ, a demanda pelo qualificador extra âcisâ pode soar como uma injĂșria.
Mas vale ressaltar que âcisâ nĂŁo Ă© ferro em brasa, e sim uma palavra, que carrega significados em disputa, e que existe, quer se goste dela ou nĂŁo.
AtĂ© onde sei ninguĂ©m tem obrigação de usar o termo âcisâ, e por Ăłbvio Ă© preciso resistir a quaisquer imposiçÔes violentas de seu uso. Da mesma forma, nĂŁo Ă© necessĂĄrio rechaçar o termo ou demonizar quem o usa. Ele bem serve como qualificador analĂtico.
†Leia também: Onde as lutas se cruzam
Do mesmo ladoÂ
HĂĄ uma interpretação panfletĂĄria da palavra âcisâ que, volta e meia, como Ă© caracterĂstico da era da pĂłs-verdade, circula pela internet.
De acordo com esta interpretação, a expressĂŁo significa âcomfortable in skinâ â âconfortĂĄvel na peleâ, em inglĂȘs inculto â e supostamente assinalaria que mulheres nascidas fĂȘmeas estĂŁo em plena harmonia com sua identidade de gĂȘnero.
Embora a expressão possa ser usada para articular certas relaçÔes identitårias, é falacioso atribuir a esta interpretação do termo seu status de origem.
O âcisâ dos estudos de gĂȘnero nĂŁo vem do acrĂŽnimo de uma expressĂŁo coloquial, mas do prefixo que, em latim, significa âdo mesmo ladoâ. Este prefixo Ă© utilizado em outras esferas da linguagem, nĂŁo apenas no contexto dos estudos de gĂȘnero.
Um exemplo Ă© o gentĂlico âcisalpinoâ, palavra romana utilizada para denominar os habitantes âdo lado de cĂĄâ dos Alpes.
Na quĂmica orgĂąnica a isomeria geomĂ©trica Ă© tambĂ©m conhecida como isomeria cis-trans.
Desconheço seus usos, porĂ©m compreendo sua lĂłgica: isomeria cis Ă© aquela cujos substituintes estĂŁo âdo lado de cĂĄâ da ligação dupla (dois pares de elĂ©trons) ou dos cicloalcanos (compostos de hidrogĂȘnio e carbono), e isomeria trans Ă© aquela cujos substituintes estĂŁo âdo lado de lĂĄâ da ligação dupla e dos cicloalcanos.
O sufixo cis da palavra romana denota que o âdo lado de cĂĄâ dos Alpes equivale Ă perspectiva de Roma. Na isometria, a baliza Ă© um lado ou outro das ligaçÔes duplas e cicloalcanos.
Afinal, o que Ă© gĂȘnero?
O que significaria o âlado de cĂĄâ no contexto de gĂȘnero? Isso abre outra pergunta: o que Ă©, afinal de contas, gĂȘnero?
†Leia tambĂ©m: Ă possĂvel ser feminina e feminista?
Pode uma palavra significar, ao mesmo tempo, um sistema, as formas como nos organizamos simbolicamente entre femininos e masculinos, e a teoria crĂtica e campo de estudos interdisciplinares sobre este sistema?
GĂȘnero para um dicionĂĄrio marxista: a polĂtica sexual de uma palavra Ă© um artigo de Donna Haraway, no qual ela confessa ter sido tonta por aceitar um convite para descrever o vocĂĄbulo para o famoso pai-dos-burros.
A teĂłrica feminista Donna Haraway
O que segue essa confissĂŁo Ă© uma minuciosa introdução teĂłrica que demonstra a complexidade de se pensar em gĂȘnero como termo.
O texto, que Ă© de 1991 e passeia por uma vasta coleção de perspectivas teĂłricas sobre gĂȘnero e sexo, evidencia as muitas tentativas de definir ambos, e revela a construção, erros, acertos e ausĂȘncias de suas gramĂĄticas.
Desde que o feminismo questionou a categoria âmulherâ, seus significados vĂȘm se transformando. E as categorias âmulherâ e âcisâ nĂŁo sĂŁo os Ășnicos lugares e ferramentas de disputa de gĂȘnero.
O conceito de âprivilĂ©gio cisâ tambĂ©m Ă© bastante contestado. Afinal, quais seriam as vantagens de ser mulher cis num mundo misĂłgino?
A escolha militante entre o uso de expressĂ”es como âviolĂȘncia de gĂȘneroâ X âviolĂȘncia masculinaâ, ou ainda âgĂȘnero nas escolasâ X âescola sem machismoâ tambĂ©m apresentam argumentos aparentemente conflituosos: por um lado, ao dar enfoque a gĂȘnero, dilui-se a questĂŁo da violĂȘncia masculina; por outro, machismo e violĂȘncia masculina nĂŁo dĂŁo conta de articular todos as opressĂ”es de gĂȘnero.
O prĂłprio feminino-como-linguagem vive em disputa.
Pairam interrogaçÔes nos feminismos. O que afinal define o feminino? Seria ele somente um conjunto de normas aprisionantes? O que fazer com o feminino? Ele precisa ser aniquilado? Sendo assim, aniquilarĂamos tambĂ©m o masculino? E como farĂamos uma e outra coisa, ou a distinção entre elas?
E quando feminilidades e masculinidades sĂŁo deslocado dos seus corpos âde origemâ?
Este deslocamento revela a ruptura entre os cĂłdigos de gĂȘnero e a normatização de gĂȘnero pautada na interpretação de corpos, ou a reforça?
Quem pode e quem nĂŁo pode se utilizar dos cĂłdigos de gĂȘnero, e por que?
A lista Ă© imensa.
Haraway conclui que a decisĂŁo de manter ou refutar categorias de gĂȘnero â mulher, homem, trans, cis, por exemplo â Ă© uma insistĂȘncia polĂtica, e cauciona que explicaçÔes da categoria social âgĂȘneroâ nĂŁo sĂŁo tarefa simples, e dependem muito da historicização de categorias como sexo, carne, corpo, biologia, raça e natureza.
Disputas nĂŁo sĂŁo apenas pelas palavras, mas pelo que elas significam, e para quem. Se procuro por pontes entre as perspectivas dos jĂĄ marginalizados discursos feminista e de gĂȘnero, Ă© porque a investigação dos significados de seu lĂ©xico para alĂ©m de prescriçÔes e regras me parece mais profĂcua do que travar infinitas e circulares batalhas semĂąnticas entre minorias.
Gosto tambĂ©m de pensar que de algum jeito isso corrobore com a utopia feminista de Donna Haraway, na qual se pode âfalar todas as lĂnguas de um mundo de cabeça para baixoâ.
Conversemos, entĂŁo, sem medo sobre a polĂtica sexual das palavras de gĂȘnero.
A opiniĂŁo de colunistas e articulistas nĂŁo representa, necessariamente, a opiniĂŁo de CartaCapital.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. NĂłs nĂŁo. O compromisso de CartaCapital com os princĂpios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate Ă desigualdade nos importa. A denĂșncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego Ă verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, hå mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo tambĂ©m importa para vocĂȘ, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



