Maya Da-Rin: ‘Um país sério teria um ministério só para políticas indígenas’

A diretora de 'A Febre', premiado filme brasileiro sobre drama de um homem indígena na cidade, fala sobre o tema a 'CartaCapital'

Maya Da-Rin: ‘Um país sério teria um ministério só para políticas indígenas’

Diversidade,Sustentabilidade

Disponível em plataformas de streaming desde o último dia 3 de fevereiro, o premiado A Febre conta a história de Justino, um indígena Desana de 45 anos que trabalha como vigilante do porto de cargas de Manaus. Enquanto a filha se prepara para estudar Medicina em Brasília, o pai é tomado por uma febre misteriosa que o coloca em conflito com sua própria história, dividido entre a vida na cidade e o retorno à aldeia, de onde partiu há vinte anos.

Justino, vivido de forma marcante pelo ator Regis Myrupu, desperta para questionamentos sobre seus passos trilhados até então, como também se depara com outros conflitos, como a ameaça do desemprego e discriminação no ambiente de trabalho

Em entrevista à CartaCapital, a diretora do filme, Maya Da-Rin, fala sobre o longo processo da obra, iniciada em 2013, antes da queda de Dilma, e finalizado em 2018, com Jair Bolsonaro presidente.

A Febre recebeu 30 prêmios e foi selecionado para exibição em mais de 60 festivais. No Festival de Locarno, na Suíça, o filme levou três prêmios, entre eles, Melhor Ator, para Regis Myrupu (feito inédito para um ator indígena). A Febre foi eleito ainda Melhor Filme em festivais na França, China, Argentina, Portugal, EUA, Uruguai, Chile, Peru, Alemanha e Espanha.

No Brasil, o filme conquistou cinco candangos no Festival de Brasília de 2019 (Melhor Longa-Metragem, Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Som e Melhor Fotografia); além dos prêmios de Melhor Direção e Prêmio Especial do Júri, no Festival do Rio de 2019; e Melhor Filme e Melhor Som, na edição de 2019 do Janela Internacional de Cinema do Recife.

Ao final da conversa realizada por telefone, a diretora dividiu suas reflexões e críticas sobre a Ancine e o setor audiovisual brasileiro.

Confira a entrevista.

CartaCapital: O filme foi iniciado ainda no governo Dilma, finalizado no governo Temer e lançado no governo Bolsonaro. Como foi esse longo processo?

Maya Da-Rin: “A Febre” foi gestado durante todo esse momento. Eu até brincava, quando finalizamos, que existia o risco de o filme começar a se tornar um filme de época. Porque tem certas questões, como a situação da personagem Vanessa, aprovada para estudar medicina na Universidade de Brasília por meio da política de cotas, que vêm sendo descontinuadas pelo governo atual. Tem também uma série de questões ligadas, por exemplo, à migração de populações indígenas para a cidade e à garantia dos direitos dessas populações na cidade, o acesso a uma saúde especial e a regulamentação disso. Enfim, a gente viu nesses últimos anos a população indígena aumentar muito. E isso não se deve apenas ao fato de nascerem mais pessoas, mas, principalmente, ao fato de mais pessoas se reconhecerem como indígenas. E as pessoas passam a se reconhecer como indígenas porque passam a ter mais segurança para garantir seus direitos, para implementar políticas de enfrentamento ao preconceito.

Ou seja, medidas implementadas nos últimos 20 anos trouxeram uma segurança maior para pessoas que, antes, precisavam esconder suas identidades, precisavam se esbranquiçar, um processo que acontece desde o Brasil Colônia, muito forte. A gente vinha vendo um movimento muito forte de reconhecimento das identidades culturais, étnicas, raciais e de fortalecimento dessas lutas, dessas pautas. E tudo isso voltou a ser muito ameaçado no governo Bolsonaro. Existe um movimento de perseguição muito grande. Sabemos o que o País está vivendo. Uma série de direitos que pareciam assegurados, uma segurança que essas populações passaram a sentir ao se autorreconhecerem enquanto povo, hoje em dia estão ameaçados. O medo volta a estar muito presente, muito preconceito, a não continuidade de vários direitos que vinham sendo reconhecidos e implementados.

CC: A própria questão da demarcação de terras, que voltou à discussão para que passe para o Legislativo…

MDR: Mesmo nos governos petistas continuou difícil a implementação de políticas de demarcação de terras indígenas e para o meio ambiente, que estão asseguradas na nossa Constituição de 1988, mas que sempre houve uma dificuldade muito grande dos governos em fazer valer tais políticas. E a gente viu isso acontecendo também em todos os governos do PT. Foi algo até que decepcionou muitos de nós. Esperávamos uma ação mais incisiva nesse sentido.

Por outro lado, tivemos todo um reconhecimento das comunidades quilombolas, um fortalecimento das comunidades rurais e, em parte, o reconhecimento das comunidades indígenas e dos povos indígenas, apesar da falta de uma política de demarcação mais extensa. O Brasil é um País do qual se tem muita expectativa quanto a isso, porque temos uma grande reserva de florestas. Espera-se muito que daqui surjam também iniciativas de preservação. Mas a gente tem se mostrado sempre muito atrás na geração de ideias e proposições que protejam o meio ambiente.

Portanto, tudo isso nos deixou um pouco decepcionados, mas, como disse, houve o reconhecimento, em parte, dos direitos das minorias, ou, pelo menos, uma tentativa de fazer um movimento maior nesse sentido. Agora, cada vez mais, temos um governo tomado pelos ruralistas e pela polícia, um governo muito militarizado. Temos uma história de embates, de conflitos que envolvem a disputa por terras. Então, isso é muito preocupante. Pessoas estão perdendo suas vidas, principalmente aquelas que estão no front de luta, lutando por suas comunidades, por seus direitos, muitas pessoas perseguidas, ameaçadas de morte. É realmente muito preocupante.

CC: O filme também traz para o debate, de alguma forma, a reforma trabalhista, não?

MDR: Sim. É um filme que fala muito sobre a questão do trabalho, sobre os trabalhadores das classes pobres que se veem, na verdade, dentro desse sistema que, como temos visto, ameaça os direitos trabalhistas em nome do interesse das corporações. Mais uma vez, temos um processo de desmonte dos direitos trabalhistas, um processo que atende, no final das contas, aos interesses do capital, aos interesses de quem mais lucra com isso. Temos uma Constituição que é cada vez menos seguida.

CC: Qual foi a contribuição do atores para a elaboração do roteiro?

MDR: Durante o processo de pesquisa do elenco, conversei com mais ou menos quinhentas pessoas e, entre elas, encontrei o Regis [Myrupu] e a Rosa [Peixoto]. A gente se colocou o desafio de realizar um filme sobre outra cultura, da qual eu não faço parte. Só poderia realizar esse filme dialogando e contando com a contribuição do meio que buscava retratar, da história que buscava retratar. O longo processo de pesquisa de elenco também influenciou muito na escrita.

Por mais que já tivéssemos uma versão do roteiro que vinha sendo trabalhada há um tempo, para mim, sempre foi muito claro que esse roteiro encontraria a sua forma final e seria reescrito em conjunto com os atores. Porque o filme é, em grande parte, falado em tukano. Então, quando conheci o Regis e a Rosa e a gente decidiu que o filme contaria a história de uma família indígena do Alto Rio Negro, fomos reelaborando o roteiro a partir desse trabalho conjunto. As conversas com o Regis foram muito importantes. Passei uma semana na casa dele, lendo e relendo o roteiro, e logo na sequência começamos a ensaiar com os atores e atrizes que fazem parte da família do Justino, seu personagem no filme, todos indígenas. Passamos dois meses ensaiando e, durante os ensaios, reescrevemos o roteiro.

Como são culturas de tradição oral, trabalhamos muito a partir de improvisações, indo do português para o tukano e do tukano para o português. O processo de tradução e retradução fez parte de todo o ensaio e acho que constitui muito do que o filme é, no sentido de que os diálogos em tukano nunca foram fixados no papel. Para os atores e atrizes indígenas, também era muito importante que os diálogos pudessem ser vivos, e o papel não necessariamente era um lugar que dava mais segurança, como acontece a muitos atores não-indígenas. A partir do improviso, a gente encontrava as cenas e guardava, eu anotava num roteiro-guia, para que depois, na filmagem, pudéssemos recuperar o que havia sido trabalhado nos ensaios.

CC: Chama a atenção o fato de o filme ser legendado.

MDR: A gente pensa: “quantos filmes já assistimos em uma outra língua falada em território brasileiro?”, e são quase duzentas. Apesar do aumento na produção, ainda é raro. E é curioso notar que, nas plataformas digitais onde o filme está disponível não se consegue colocar as outras línguas na qual o filme é falado. Somente o português. Não sei se é por que essas línguas indígenas ainda não estão na base de dados. Ou seja, é possível adicionar a legenda em português, mas quando aparece a descrição do filme, na opção “idioma”, só aparece em português. Então, alguns espectadores não vão imaginar que é preciso adicionar uma legenda, vão achar que o filme é falado em português. As plataformas não conseguem colocar a informação de que além do português o filme é também falado em tukano e em ticuna.

CC: Isso mostra que existe uma barreira muito grande?

MDR: Sim. Existe uma negação, uma barreira em relação a essas outras línguas. Isso também acontece no processo de elaboração dos materiais didáticos para as escolas bilíngues indígenas, uma dificuldade muito grande. Primeiro, porque não existe um suporte de organizações e instituições, a fim de o governo conseguir pensar em materiais escritos em português, mas que contem a História do nosso país sob as perspectivas indígenas, dos negros, dos quilombolas, ou seja, a prtir de outras versões dessa História. Algo que é presente em lei, porém muito pouco realizado em sala de aula. E, segundo, porque é preciso pensar como gerar material didático para as escolas bilíngues indígenas de forma a fazer com que as línguas não se percam, que continuem sendo praticadas. Esse é um outro desafio grande. Há países que já conseguiram, de alguma maneira, implementar essa política. O Brasil é um país de dimensões continentais, com muitos povos, o que dificulta. Precisaríamos de uma Secretaria só para isso. Um país sério teria um Ministério só para políticas indígenas.

CC: Houve exibição do longa em aldeias indígenas?

MDR: Organizamos algumas exibições em aldeias indígenas. Foi um processo um pouco mais difícil. Queríamos organizar essas exibições presencialmente, mas, devido à pandemia, toda a campanha foi reconfigurada. Ainda assim, realizamos algumas sessões de forma remota. Uma delas foi no Xingu, em parceria com o realizador indígena Takumã Kuikuro. Teve outra numa aldeia Tupinambá, na Bahia, e ainda faremos uma terceira, em São Gabriel da Cachoeira, onde fica a aldeia dos atores principais do filme, o Regis Myrupu e a Rosa Peixoto. Por conta da pandemia e da difícil situação por que passa o estado do Amazonas, vamos aguardar mais um pouco.

CC: E desde o dia 3 de fevereiro, o filme está disponível também na Netflix. Como tem sido esse caminho de distribuição?

MDR: No cinema, estreamos em 12 de novembro, depois foi para as plataformas digitais, onde continua disponível, e agora está também na Netflix. No próximo dia 19 de março, o filme estreia nos Estados Unidos, no Lincoln Center, em Nova Iorque. Ficamos muito felizes com a notícia. Temos confirmados, até agora, nove outras salas nos Estados Unidos, mas esse número deve crescer e chegar a 20 salas, no total. Em abril, “A Febre” deve estrear na França. Ainda não está confirmada a data, por conta da incerteza sobre como se dará a evolução da reabertura dos cinemas, mas a previsão da distribuidora é para abril.

Regis Myrupu (foto) interpreta Justino, protagonista do longa e foi premiado como melhor ator nos festivais de Brasília e Locarno.

CC: Poderia falar um pouco sobre o sucesso do filme, as premiações?

MDR: O filme teve essa estrada que foi super gratificante para todos. Foi muito premiado. E é muito marcante o fato de ter um ator indígena ganhando pela primeira vez o prêmio de melhor ator em festivais como o de Brasília e de Locarno. Acho que isso é muito significativo. Ao mesmo tempo, a gente percebe que “A Febre” ainda surpreendeu uma parte do público, tanto dentro quanto fora do Brasil, por ser um filme que se passa na cidade, um filme totalmente urbano. Essa é uma realidade muito presente no Brasil, mas que ainda não é tão presente no imaginário da maior parte das pessoas. Ainda existe um imaginário do exótico, como se existisse “um indígena de verdade”, legítimo, que estaria morando na floresta, na aldeia; como se somente esse indígena estivesse levando adiante seus costumes, como se os indígenas que vão morar na cidade não levassem adiante seus costumes. Se eu moro num outro país, como morei seis anos na França, levo adiante meus costumes. Mas em relação aos indígenas, ainda existe uma barreira, que vem de um estereótipo, de um preconceito, de um exotismo presente na construção desse imaginário sobre os povos originários do Brasil. Um imaginário construído nessa tradição colonial, de um pensamento forjado na colonização, e que continua muito presente ainda hoje.

CC: E a realidade é muito mais complexa…

MDR: Como se para algumas pessoas viver na cidade não fosse, apenas em parte, uma escolha. Viver nas aldeias pode ser muito difícil também. Na comunidade onde o Regis [Myrupu] nasceu, a Pari-Cachoeiro, foi fundado um colégio Salesiano, que trouxe indígenas de vários povos da região. A população da comunidade aumentou muito e, consequentemente, parou de ter peixe, parou de ter caça. Então, a migração para a cidade está ligada à desregulação de um sistema no interior e no campo, e também à falta de políticas de preservação e regulação do meio ambiente, políticas que possibilitem às pessoas do campo o acesso a uma vida digna. Porque para se alimentar do que tem no campo é preciso ter um território grande, para poder caçar, pescar. E isso é muito questionado por esse governo. Escuto bolsonaristas falando: “Ah, mas tem indígenas vivendo num território de não sei quantos hectares”. Como se a noção de espaço fosse a mesma. Como se o espaço que um índio precisa fosse o mesmo usado para a construção de uma casa na cidade, uma ao lado da outra. Estamos falando de vidas que se organizam a partir de um outro sistema. Não só de um outro sistema físico, mas também de uma outra cosmologia, de uma outra relação.

CC: Em relação aos personagens, num exercício de imaginação, podemos dizer que o Wanderley, colega de trabalho do Justino, é bolsonarista?

MDR: O Wanderley é um ex-capataz que trabalhava no sul do Amazonas, onde existem muitos conflitos de terra, conflitos com os povos indígenas, e onde a fronteira da soja está se expandindo. Acredito que fica subentendido nas conversas entre eles que o Wanderley é uma pessoa que, além do preconceito gigantesco que nutre, provavelmente já perseguiu muitos indígenas. E esse pensamento está alinhado com o pensamento cada vez mais estimulado pelo governo brasileiro.

É muito chocante como algo assim pode ser estimulado por um presidente. Políticas não só de racismo e preconceito, mas também de perseguição. Isso também acontece em relação ao meio ambiente. Os fogos, as queimadas, a forma como a coisa vai acontecendo de uma maneira desordenada, a falta de políticas de prevenção; tudo isso afeta diretamente o ambiente nos períodos de seca. Esse panorama leva a relações de guerra no campo, entre os latifundiários e as populações historicamente perseguidas e ameaçadas. Acho que essas forças sempre estiveram presentes no Brasil. São consequência do pensamento que deu origem à colonização e que não foi ultrapassada por uma parte muito grande da população.

Há muitos pensadores indígenas que falam sobre como o mundo já terminou para eles em 1500. Então, agora a gente estaria lidando com um mundo que, para os indígenas, já terminou. Estaríamos vivendo uma espécie de estado pós-apocalíptico, de busca pela sobrevivência em um mundo que já foi exterminado.

CC: Lembrei da história do macaco, que o Justino, personagem do Regis Myrupu, conta ao neto.

MDR: Justino conta a história de um caçador que tinha muita comida em sua casa, mas que queria sempre mais. Era uma pessoa muito ambiciosa, que vai à floresta em busca de caça e, quando chove, adormece. Então, os macacos o levam para o mundo dos macacos. Chegando lá, o caçador percebe que, na verdade, ao invés de matar os macacos, ele pode curá-los, porque, aos poucos, os macacos mostram como o caçador pode ter o poder de curar uma dor de dente, de tirar um espinho que está machucando um animal, como pode ter o poder de retirar a dor, de fazer o bem, em vez de causar sofrimento, de causar o extermínio de uma espécie, por pura ambição, por querer mais do que necessita. E para os povos indígenas, essa relação está presente em muitas histórias de origem, muitas histórias contadas de geração para geração.

A história do macaco foi trazida pelo Regis durante os ensaios. Ele escutava dos pais e dos avós. É uma história muito presente na comunidade dele. São sempre histórias que falam sobre isso: o que acontece quando uma pessoa é muito sovina ou muito ambiciosa. Como a ambição coloca outras vidas, outras espécies, em risco. Não só espécies animais, mas também espécies vegetais. E cada espécie vai ter um espírito que olha por ela. Esse espírito vai se vingar da pessoa que não está agindo corretamente. Então, é uma relação de interdependência entre as espécies; uma relação horizontal entre a nossa espécie e as outras, e não vertical e hierárquica, como a que foi construída com o iluminismo europeu, com toda a ideia do humanismo, com seus “bons” valores, construídos nas costas de uma série de outras espécies e, principalmente, de outras raças. A própria ideia de raça, forjar essa ideia de raça, da forma como se organiza a sociedade ocidental, não faz o menor sentido para os indígenas. Portanto, é um pensamento muito diferente do nosso.

CC: E o caçador que é levado pelos macacos traz essa visão…

MDR: A visão do caçador era uma, enquanto a visão dos animais era outra. O caçador não era capaz de enxergar a humanidade dos animais, de enxergar que os animais são gente. Quando eu enxergo a humanidade do outro, sou capaz de me solidarizar. Mas quando imagino que apenas eu sou humano, tem-se a base sobre a qual a escravidão foi erguida, a partir da visão de que outras raças, outros povos, não são seres humanos, não têm alma. E, assim, não se estabelece uma relação de solidariedade, de igualdade e respeito com a diferença do outro.

CC: Como você avalia a atual situação da Ancine?

MDR: Em relação à cultura como um todo, no Brasil, o audiovisual sempre foi, de alguma forma, privilegiado, no sentido de que existia uma Agência e uma quantidade de recursos que outras áreas da cultura brasileira não tinham. Isso porque o audiovisual se organizou como indústria e existia toda uma questão do quanto de empregos o audiovisual gera, a quantidade de recursos que movimenta. Ao longo dos anos, a área se organizou de uma forma muito inteligente, vivendo com recursos de impostos gerados pelo próprio setor audiovisual. Agora, isso tudo foi desmontado. Atualmente, nenhum edital das linhas de incentivo está ativo, também não há editais sendo abertos nem recursos para o cinema. Os projetos que haviam sido aprovados não estão tendo os orçamentos e contratos liberados.

A Agência está sendo não só desmontada, mas também aparelhada. O que é muito perigoso, porque vem acompanhado de um processo velado de censura; uma censura que não se assume enquanto tal, mas que se faz presente.

A gente vê as consequências disso em projetos, em perseguições a pessoas etc. Toda essa situação é muito preocupante. A produção totalmente paralisada e, além disso, um pensamento muito equivocado em relação à cultura.

Rosa Peixoto (foto) interpreta Vanessa, filha de Justino que em postos de saúde em Manaus e é aprovada em Medicina pela Universidade de Brasília pela política de cotas.

CC – O que esperar do Ministério da Cultura do governo Bolsonaro?

MDR: Não dá para esperar nada de Bolsonaro em relação às políticas culturais. Temos de nos organizar rapidamente, porque as pessoas estão passando necessidade. Muitos perderam seus trabalhos. A área da cultura no Brasil era responsável por fazer girar uma parte considerável da economia. Realmente, se você pensar no PIB de um País como o Brasil, são números que não podem ser desprezados. E todo esse setor parou por conta da pandemia. Ainda é muito difícil para as equipes voltarem a trabalhar, devido aos riscos de contaminação e aos altos custos. Todo o processo de produção ficou muito mais caro devido às novas normas sanitárias. Realizar sem recursos, em uma situação como essa, é muito difícil. A Lei Aldir Blanc deu um respiro, possibilitou alguma ajuda, muito importante neste momento, mas de forma provisória.

Portanto, não há o que esperar do Bolsonaro para a cultura, para o cinema. Ao contrário, podemos esperar o pior. Por isso, é muito importante que as classes e os setores se organizem para pensar em como fazer a virada nas próximas eleições. De qualquer forma, teremos uma retomada muito lenta, gradual, porque destrói-se rapidamente políticas construídas em 20, 30 anos. Por mais que exista um “caminho das pedras” que possa servir como guia, como mapa, será necessário um trabalho muito grande. As leis têm de ser aprovadas novamente, a estrutura tem de ser novamente montada. Não é algo simples. Vai demandar um esforço muito grande, vai demorar alguns anos para que o País possa ter uma produção cultural com o fôlego que tinha antes do governo Bolsonaro e do governo Temer.

CC – Você observa que há, ao mesmo tempo, uma efervescência na produção artística indígena e um desmonte das políticas culturais?

MDR: Sim. Eu acho que é um pouco também o que acontece com o cinema brasileiro. Há uma produção muito profícua, muito forte, resultado desses últimos 20 anos de incentivo que possibilitaram o surgimento de novas vozes, a realização de muitos artistas indígenas, o reconhecimento de seus trabalhos. Artistas indígenas expondo na Bienal de São Paulo, indígenas de diferentes povos, diferentes regiões; alguns vivem em suas aldeias, outros vivem em cidades. Tivemos recentemente a Véxoa, importante exposição, curada pela Naine Terena, profissional educadora, também responsável pela assessoria da campanha de lançamento do filme. Uma pessoa que tem um trabalho bem importante. É a primeira exposição de arte indígena numa grande instituição como a Pinacoteca, dedicada à arte indígena e também curada por uma indígena.

Existe muita coisa para ser dita e construída. E, na verdade, acho que são os não-indígenas que aprendem e que mais têm a crescer com esse processo todo. Porque isso amplia, e muito, a reflexão artística. Quando a gente passa a ter contribuições desses artistas, de diferentes povos do Brasil, acho que o pensamento artístico se expande muito. Da mesma forma, a gente vem vendo o pensamento intelectual brasileiro se ampliando com a presença de pessoas como Ailton Krenak, por exemplo. Então, é realmente muito triste quando a gente perde a possibilidade dessas interlocuções.

CC: Você disse, em recente entrevista, que esse desmonte “afeta diretamente a produção de um imaginário”…

MDR: Exatamente. E a compreensão de que a cultura brasileira é muito ampla. A gente ainda produz muito sob a influência europeia e norte-americana, que está dentro de uma estrutura colonial da nossa História enquanto país. Claro que já tivemos o movimento de olhar para o interior do País, com a Tropicália, a Semana de Arte Moderna e outros diversos movimentos, mas acho que agora vivemos algo diferente e novo, que é perceber os próprios agentes produzindo, e não sendo “tema de…”, não se tornando tema de uma obra produzida por não-indígenas, por pessoas que não são do interior do País.

Temos pessoas, por exemplo, como Nego Bispo, uma importante liderança quilombola do Piauí, que inclusive participou de um debate sobre “A Febre”, fazendo uma contribuição sobre o filme. A partir da perspectiva dele enquanto quilombola e da relação que ele tem com a terra, falou do momento em que foi viver em uma outra cidade, de como ele viveu esse movimento de exílio. Nego Bispo tem um livro muito importante publicado, sobre a formação histórica brasileira e os quilombos.

Portanto, quando se percebe, neste momento de crise, as contribuições de artistas, escritores, pensadores, é um saldo muito rico. Mas há um forte risco de apagamento disso, uma vez que as pessoas não têm condições de continuar se dedicando a seus trabalhos, porque precisam comer, pagar as contas. A maior parte dos artistas indígenas tinha outro trabalho antes. Acho que o Jaider Esbell, por exemplo, um artista Makuxi, trabalhou em uma companhia elétrica, como funcionário público, durante anos, até encontrar nesse momento dos governos do PT um ar, um ‘respiro’ que possibilitava a ele se dedicar à arte, à produção artística, e hoje está expondo na Bienal de São Paulo.

CC: Poderia falar sobre as ações de lançamento do filme?

MDR – Durante a campanha de lançamento, a gente buscou ampliar um pouco, ir além do filme. Ou seja, ver o que o filme poderia gerar de discussão, também trazer um pouco do processo de criação, apresentar outras produções que nos inspiraram ou artistas com quem tínhamos vontade de dialogar. Então, criamos o “Tecendo Redes”, que foi uma ação nas redes sociais, onde um artista indígena indicava outro artista, das diversas áreas artísticas; e também criamos um ciclo de três debates. O primeiro foi o “Debate Folha”, com o Ailton Krenak, o professor de sociologia na Unicamp Laymert Garcia dos Santos, a Naine Terena, e foi mediado pelo jornalista Leão Serva. Depois, tivemos um segundo debate, realizado em parceria com a Rádio Yandê, que é a primeira rádio indígena do Brasil, e foi mediado pela Paula Tupinambá, uma das coordenadoras da rádio. O debate também contou com a participação da Graciela Guarani, cineasta indígena, e do Wellington Cançado, arquiteto e professor da UFMG, que fez um doutorado sobre cinema indígena. O terceiro debate foi mediado pela ativista Tsitsina Xavante, realizado em parceria com o Itaú Cultural e, como eu já disse anteriormente, contou com o artista indígena Jaider Esbell e o Antonio Bispo dos Santos, o Nego Bispo.

A ideia desses debates era discutir o filme enquanto obra, mas também ir além, ver o que poderia gerar de faísca, de pensamento. Foi realmente um presente imenso receber o retorno e a leitura dessas pessoas que se dispuseram a pensar, a dialogar a partir da obra.

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Roberto de Martin é jornalista mineiro de Matias Barbosa radicado em Brasília

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