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Erica Malunguinho e Erika Hilton: a importância da diversidade na política

Diversidade

Pela primeira vez na história a Assembleia Legislativa de São Paulo contará com duas deputadas transgênero: Erica Malunguinho, eleita pelo PSOL, com mais de 50 mil votos, e Erika Hilton, uma das nove integrantes da Bancada Ativista, que chega à Alesp com quase 150 mil votos.

Malunguinho, formada em Pedagogia e com mestre em estética e história da arte, ganhou ainda mais visibilidade em São Paulo ao inaugurar o Aparelha Luzia, um quilombo urbano, em 2016. Aberto a todos, inclusive à população de rua, o centro cultural reúne rodas de samba, exposição de arte, exibição de filmes e palestras. Hilton estuda gerontologia na Universidade Federal de São Carlos.

Em comum, além dos nomes, duas mulheres negras trans que defendem pautas ligadas aos direitos humanos e à igualdade social e racial. “Nossa existência já é muito mais política do que qualquer coisa que esses espaços já tenham feito. Mas agora estaremos lá e prometemos: vai ser babado, não queiram! Somos as primeiras de milhares que viram!”, escreveu Hilton em seu perfil do Facebook.

“A Alesp daqui para frente contará com um rosto que não é um rosto só, é o rosto de muitas gentes. Povo pretoíndio, mulheres cis e trans, homens cis e trans, gentes que amam iguais e/ou diferentes, migrantes e imigrantes que aquilombaram seus votos neste rosto, que é a soma de todos os rostos que existem na resistência”, comemorou Malunguinho em sua conta.

A entrada dessas mulheres na política não aumenta só a visibilidade da população LGBT, ajuda também a repensar políticas que melhorem as vidas delas. Vale lembrar: o Brasil ainda é o país que mais mata transexuais no mundo, segundo o Grupo Gay da Bahia. A expectativa de vida de travestis e transexuais por aqui é de 35 anos – enquanto a média do brasileiro é de 75 anos.

Na Câmara dos Deputados, Jean Wyllys, do PSOL, emplacou lutas a favor de homens e mulheres trans. É de autoria dele um dos projetos de lei, ainda à espera de votação, que facilita a mudança de nome e gênero no registro civil, sem que seja necessário um processo judicial, e oferecimento de tratamentos pelo SUS.

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É só um exemplo dos debates e ideias que podem chegar à Alesp nos próximos anos. Em agosto, durante a Semana da Diversidade da USP, Alexandre Peixe dos Santos, militante e Coordenador Regional do Instituto Brasileiro de Transmasculinidade, narrou alguns dos problemas pelos quais ele mesmo passou.

“Em relação à saúde… é uma merda. A gente tem ambulatórios [específicos para pessoas trans], mas não somos só transexuais. Somos pessoas”, disse. “Cheguei em um pronto-socorro com cólica renal e quando o médico viu meu nome no documento e minha cara não entendeu nada. Eu expliquei e ele me encaminhou para o ambulatório. Pessoas agem de má-fé. Somos tratados e tratadas de forma diferente das outras pessoas”, concluiu. Ele ainda lembrou da falta de preparo e de situações constrangedoras em que ainda precisa convencer as atendentes de que ele é “a paciente da identidade”.

Não dá para saber como serão as mudanças ou em quanto tempo acontecerão, mas será impossível ignorá-las na política – e os direitos à população LGBT estarão em pauta. A Alesp e a Assembleia de Pernambuco, que também elegeu pela primeira vez uma mulher trans – advogada Robeyoncé Lima – nunca mais serão as mesmas.

Como disse Angela Davis, quando uma mulher negra fala toda estrutura se modifica. Então, quando três mulheres trans negras falam e adentram este espaço, antes dominado por pessoas cercadas de privilégios, “o CIStema entra em colapso e se TRANSforma”, como comemorou a Associação Nacional de Travestis e Transexuais.

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