Diversidade

Em tempos de regressão, quase nada pode ser a Gota d’água (preta)!

A cada cena nos defrontamos com um redemoinho de protesto justo em favor da esquecida dignidade da gente negra

(Foto: Evandro Marcedo)
(Foto: Evandro Marcedo)
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Assistir ao musical Gota d’água (preta), dirigido e idealizado por Jé Oliveira e exibido no Itaú Cultural em São Paulo, é como ser premiado com um bote salva-vidas num momento em que a tempestade se aproxima e o vento se intensifica. Equivale a receber uma lufada de oxigênio no momento em que parecemos agonizar numa atmosfera tóxica, que nos leva à irrefreável decadência estética e política.

Gota d’água (preta) é uma releitura de Gota d’água (1975), escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes. A peça, que se tornou um clássico, retrata a tragédia urbana, as tensões nas favelas do Rio de Janeiro, o fim do tormentoso relacionamento de Joana (moradora de um conjunto habitacional, a Vila do Meio-Dia, prestes a ser despejada junto com os dois filhos) e Jasão, jovem sambista que alcançou a fama e parece inebriado pelo mundo das facilidades. O motivo da separação dos dois é a igualmente jovem Alma, filha do rico e poderoso Creonte, dono dos imóveis da Vila do Meio-Dia. Creonte explora toda a comunidade com valores proibitivos da prestação dos imóveis.

O musical de Chico Buarque e Paulo Pontes é inspirado no trabalho de Oduvaldo Viana Filho, que adaptou a peça grega de Eurípedes sobre o mito de Medeia para a TV. Ao longo de seus mais de 40 anos, Gota d’água vem se prestando a reelaborações e releituras, o que confirma sua vocação para ser efetivamente um clássico (entre as várias definições que pairam sobre o termo, podemos lembrar aquela que diz que clássico é o que sempre tem algo a dizer porque não disse tudo). A propósito, as formas culturais nunca surgem do grau zero, da tábula rasa; elas são sempre resultado de infinitos arranjos e de intensos intercâmbios entre os bens simbólicos.

À primeira vista, Gota d’água (preta) poderia ser apenas mais uma reelaboração de um trabalho de dramaturgia que não cessa de nos interpelar se por trás dessa releitura  não se manifestasse um levante contra a cegueira da lógica de representação que silencia, invisibiliza e até destitui corpos racialmente não hegemônicos. Ao dar mais uma volta no parafuso, o empreendimento de Jé Oliveira e de todo o elenco apresenta uma natureza de outro jaez, confere ineditismo aos gestos de interpretação, nos faz ver e ouvir o que não se tinha visto nem ouvido no âmbito do musical.

Criar e refundar: por outro enunciado do visível

Percorro a trilha de Jé Oliveira, pontilhada pelo tripé – intenções, empenhos e porquês –, para pôr em relevo esse novo que Gota d’água (preta) nos oferta. Em seu nascedouro, em 1975, Gota d’água subverte a tragédia grega para retratar a tragédia à brasileira que se materializa na naturalização das determinantes históricas, na perpetuação das desigualdades e das injustiças, na soberba dos poderosos: “O fundamental é que a vida brasileira possa, novamente, ser devolvida, nos palcos, ao público brasileiro. Esta é a segunda preocupação de Gota d’água. Nossa tragédia é uma tragédia da vida brasileira”.

Ora, como retratar a tragédia da vida brasileira sem pensar o fundamento racial que a motiva e perpetua? De que modo pensar o país a partir desse ângulo, ontem e hoje, sem dar voz e vez àqueles e aquelas marcados negativamente por uma tragédia cujos tentáculos alcançam a escravidão?

Eis que Gota d’água (preta) flagra as lacunas e brechas do clássico de 1975 e nelas se instala para nos fazer ver que só tem sentido falar de uma tragédia brasileira se a dimensão racial estiver em primeiríssimo plano. Embora toda a ambiência de Gota d’água finque raiz na cosmovisão negro-africana e nos espaços de sociabilidade dos pobres e pretos, a questão racial é atravessada como cortina de fumaça, corpos negros praticamente não comparecem na trama, o racismo é diluído no líquido da pobreza e da injustiça.

Uma das explicações sobre a criação de Gota d’água (preta) não dá margem a equívocos: “O que se busca aqui não é só uma reparação histórica, o que já seria suficiente para diminuir um hiato acerca da presença negra em papéis relevantes na dramaturgia nacional, mas busca-se também uma atualização da realidade social com base na coerência, ainda não realizada por nenhuma montagem da própria Gota d’água, de Chico Buarque e Paulo Pontes: se essa história é a de pessoas pobres e macumbeiras, nada mais justo e coerente que, tendo como base esses marcadores socais de diferença (religião, raça e classe), como sabemos, a maioria da população brasileira é preta e pobre.”

A essa reparação histórica, que, na verdade, é uma refundação, sucedem-se outras estratégias: Gota d’água (preta) acrescenta mais uma mão de tinta no quadro da tragédia brasileira, apresentando o perfil, com contornos imprecisos, da política contemporânea. As reformas da previdência e trabalhista estão aí para reafirmar que a espoliação dos pobres e miseráveis permanece sendo o “hobby” predileto da maioria dos governantes de plantão que, ao modo de um jogral, reproduzem o mesmo pensamento da elite predatória. Creontes, mineradoras, construtoras permanecem irmanados, ontem e hoje. O fim do relacionamento amoroso entre Jasão e Joana (que é interpretada pela cantora Juçara Marçal – na peça de Chico Buarque este papel é dado a atriz recém falecida Bibi Ferreira), bem como as alterações entre ela (mulher negra vulnerabilizada) e Creonte (representante da elite) não são meramente embates de foro pessoal, íntimo, mas são metáforas da traição da raça e da classe, como bem frisa Oliveira.

A crise de representação, de um lado, e as reinvenções da escrita de si, constituem mais um vértice que completa o tripé acima referido. Novos regimes de visibilidade vêm atingindo em cheio o coração das formas tradicionais de representação que quase nunca questionavam as ausências dos terrivelmente outros, vistas como derivadas da boa e velha rotina do mundo.

Modos de fazer, modos de profanar

Gota d’água (preta) é um trabalho coletivo de monta que se coloca espacialmente no lugar do poder da fala, do dizer e do dito, reivindicando acesso a uma soberania negada pelos sistemas de visibilidade. E a reivindicação que enuncia não se restringe tão somente ao plano das intenções ideológicas, mas se verifica na manufatura da montagem do musical: a feitura do espetáculo é integralmente um jogo de desmontagem do estabelecido, um exercício de profanação, na acepção de Giorgio Agamben:

E se consagrar (sacrare) era o termo que designava [no antigo direito romano] a saída das coisas da esfera do direito romano, profanar, por sua vez, significa restituí-las ao livre uso dos homens. Por isso é importante toda vez arrancar dos dispositivos – de todo dispositivo – a possibilidade de uso que os mesmos capturaram. A profanação do improfanável é a tarefa política da geração que vem.  (2007, p. 117).

E pelo que se viu essa geração chegou. Alguns deles há mais tempo, outros mais recentemente, mas chegaram: Jé Oliveira (além da direção, interpreta Jasão e comanda o cavo), Juçara Marçal (Joana e interpretação musical), Rodrigo Mercadante (Creonte), Saloma Salomão (Egeu/flauta transversal), Aysha Nascimento (Corina), Dani Nega (Nenê), Marina Esteves (Zaíra e Alma), Ícaro Rodrigues (Cacetão), Mateus Sousa (Amorim).

Eles chegaram junto com a banda da qual fazem parte: DJ Tano (pick-up e bases), Fernando Alabê (percussão), Gabriel Longhitano (guitarra, violão, cavaco e voz), Suka Figueiredo (sax) demonstram, com maestria, como a hibridização é um belo exercício de profanação que promove uma influência em sentido anti-horário (samba e rap, Chico Buarque e Racionais MC’s estão em sintonia fina). O elenco abre de par em par janelas que vão descortinando outros modos de fazer e de (re)existir.

Gota d’água (preta) retira dos pobres, pretos e favelados a condição de seres virtuais, que carregam “potencialidades que acompanham cada existência: aquilo que ela poderia ser se…, mas que carece de realidade, como se não houvesse lugar para ela no mundo real”. Eis a tragédia que asfixia e mata boa parte de nossa população.

A cada cena nos defrontamos com um redemoinho de protesto justo em favor da esquecida dignidade da gente negra. São mananciais de insubordinação e ternura que brotam do palco e que nos fazem crer que o mundo (ainda) tem jeito. É tudo o que precisamos nesta quadra da nossa história.

Aviso aos esperançosos: o musical entrará novamente em cartaz no Centro Cultural São Paulo (CCSP), no período de 8 a 24 de março. Fiquem [email protected], peguem seus botes salva-vidas enquanto há tempo.

Rosane Borges

Rosane Borges
Jornalista, pós-doutorada em ciências da comunicação, professora colaboradora do grupo de pesquisa Estética e Vanguarda (ECA-USP), integrante do grupo de pesquisa Teorias e práticas feministas (Unicamp/Usp), conselheira de honra do grupo Reinventando a educação. Autora de diversos livros, entre eles: Espelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro (2004), Mídia e racismo (2012) e Esboços de um tempo presente (2016).

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