Dos semáforos para Hollywood: a história de resistência de Marcella Maia

Atriz e modelo narra sua infância dramática e sua escalada, igualmente dura, até os dias atuais de sucesso

Marcella Maia no espetáculo

Marcella Maia no espetáculo "Brian ou Brenda?". Foto: Mia Lisboa

Diversidade

Quem procurar pelo nome de Marcella Maia na internet, vai se deparar com um currículo de dar inveja: modelo de sucesso, com direito a capa da revista Vogue; atriz com participação no sucesso hollywoodiano Mulher Maravilha e na peça Roda Viva, de Chico Buarque; participações em clipes como da cantora americana Fergie e da brasileira Iza; protagonista de séries e em preparação para sua estreia na carreira musical.

A história da mulher trans que nasceu em Minas Gerais e já rodou por mais de 15 países é uma inspiração para quem vive na nação que mais mata LGBTs no mundo. Por trás do véu do sucesso, porém, a história de Marcella nunca teve calmaria. É muito mais uma trilha de resistência.

A modelo recebeu a equipe de CartaCapital em seu apartamento, no bairro da Bela Vista, em São Paulo. De cara lavada, cabelo molhado e uma blusa aberta deixando o corpo à mostra, ela narrou sua trilha de resistência.

Marcella no filme Mulher Maravilha (Foto: Reprodução)

Afinal, quem é Marcella Maia?

Marcella nasceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1990. Moradora da periferia, ela dividia o teto de uma casa simples com seus pais. Quando tinha apenas 5 anos, sua mãe fugiu para Brasília, deixando-a com o companheiro, viciado em crack.

A tia paterna pegou a criança para criar, fato que desencadeou um novo drama. Marcella foi estuprada seguidamente, até os 7 anos, pelo primo mais velho para “corrigir” sua feminilidade, que já era sentida pela família.

“Meu corpo foi hipersexualizado desde muito cedo. Eu não tinha voz. O sexo foi introduzido na minha vida de forma forçada e acabou se tornando um hábito nos dois anos que passei na casa da minha tia”, relembra Marcella.

Em 1997, quando tinha 7, sua mãe voltou para buscá-la e a levou para Brasília, onde trabalhava como empregada doméstica e morava em um quartinho da casa em que trabalhava. Em um cenário muito parecido com o do filme Que Horas Ela Volta?, estrelado por Regina Casé, Marcella iniciou sua trajetória na capital brasileira.

“É muito difícil falar sobre base. Sou mineira, mas me considero do mundo porque vivia muito de galho em galho, uma criança jogada no mundo, sabe?”, diz ao relembrar a infância.

Após um tempo morando no trabalho, a mãe de Marcella conheceu Renato, seu padrasto. Os dois se casaram e resolveram morar juntos, levando a família para as Chácaras Anhanguera, na cidade goiana de Valparaíso de Goiás, distante 40 quilômetros de Brasília. Foi lá que Marcella cresceu e viveu.

cenas do espetáculo Roda Viva, de Chico Buarque. Foto: reprodução.

Escola

Algo muito comum na história de pessoas trans: o abandono escolar. O bullying dos colegas e da própria instituição muitas vezes se torna insuportável, fazendo com que o ambiente escolar seja sinônimo de tortura. Aconteceu com Marcella.

Sempre atacada, a mineira não baixava a cabeça. “Eu era afrontosa, fui expulsa de diversas escolas por brigas, mas eu não abaixava a cabeça não”, ressalta.

E isso não mudou. Até hoje Marcella não se curva a nada nem ninguém. Seu rosto meigo se mistura com sua fala forte e sua determinação no olhar.

Semáforo

Aos 12 anos, depois de ter sido expulsa de algumas escolas, Marcella queria ter independência financeira. “Queria sair de casa e ter minhas coisas. Tinha apenas um sapato e três peças de roupa. Queria mais que isso, mas queria comprar com meu próprio dinheiro”, conta.

Foi quando decidiu comprar doces e vender nos semáforos de Brasília. E novamente o estupro voltou a assombrar a vida da criança.

“Conheci a maldade nos semáforos de Brasília. Empresários e políticos passavam por lá, compravam todos os doces e me levavam para motéis”, relembra.

Marcella diz que na época não conseguia enxergar o abuso, pois recebia um “afeto” dos homens engravatados. “Aquilo era a única forma de amor que eu tinha. Fui entender que era abuso sexual e de poder hoje. Não tinha essa consciência com 12 anos.”

O exorcismo da igreja

Ainda com 12 anos, ao mesmo tempo em que vendia doces nos semáforo, foi obrigada pela mãe e pelo padrasto – ambos evangélicos – a frequentar a igreja. Ela conta que encontrava um refúgio, mas pedia para que Deus tirasse aqueles pensamentos para não ir para o inferno, algo que a própria instituição a fez acreditar.

“Acreditava que eu era um lixo por fazer tudo que fazia. Não queria aquela culpa cristã”, conta.

Marcella tentou fugir de casa diversas vezes, inclusive chegou a entrar escondida em um avião que partia para Natal na tentativa de fugir da família e da igreja. O plano nunca deu certo. Aos 14 anos, após uma das fugas, a mãe a enviou para um retiro espiritual de quatro dias. E então se viu no meio de um processo de exorcismo da homossexualidade.

Quatro missionários ficaram em cima dela pedindo para Deus tirar todo o espírito de homossexualidade daquela alma, enquanto gritavam aleluia ao céus. “A igreja mora na sua mente de uma forma muito pesada. Isso é cruel. Comecei a tremer, caí no chão, quando vi tinha quatro homens em cima de mim me segurando. E eu acreditando que estava possuída. Estava buscando a luz nesse Deus tão ditador, anarquista e cruel com quem não se enquadra nos padrões da igreja”, lembra.

“Estava fazendo aquilo porque pedia todos os dias para Deus me mudar. Não aguentava mais viver daquele jeito. Queria aquilo e acreditava que eu poderia mudar.”

Nesse encontro, Marcella entrou em uma crise com Deus e com a igreja. “Não encontrei essa luz que tanto procurava. Desse episódio começaram a surgir questionamentos. Quiseram jogar água quente no meu ouvido para tirar o espírito da homossexualidade de dentro de mim. Como pode Deus aprovar esse tipo de coisa?”, questiona a modelo.

E Marcella, que hoje segue o candomblé, abandonou a igreja evangélica.

Início na comunidade LGBT

Ainda aos 14 anos, Marcella começou a frequentar o Barulho’s Bar, um local de encontro de LGBTs em sua cidade. Ela e suas amigas começaram a se montar com roupas femininas para frequentar o ambiente. A transição de gênero começava.

Em um dos encontros no bar, Marcella percebeu o que estava por vir em sua vida. “Está vendo essa cicatriz aqui?”, questiona a modelo apontando para o braço direito. “Eu fui levada junto com minhas amigas para um milharal da minha cidade. Quatro caras nos espancaram com arame”, diz.

Os rapazes acharam que Marcella e suas amigas tinham dinheiro e atraíram o grupo para rouba-las. Quando perceberam que não tinham nada, decidiram castigá-las. “As pessoas acham que travesti tem dinheiro do programa, mas não queria isso pra mim. Não queria a prostituição, queria a arte na minha vida”, ressalta.

Fora da escola, fora da igreja, apanhando na rua, Marcella resolveu voltar para Minas.

Uma conversa com o pai

Em Juiz de Fora, ficou com o pai, que ainda era viciado em crack, e com a tia. Como Marcella na época era vista como um menino afeminado, os vizinhos começaram a chamá-la de “viadinho”, “boiolinha” e os xingamentos que todo LGBT é obrigado a ouvir durante a vida.

Com este cenário, o pai de Marcella não pensou duas vezes e resolveu tentar uma “cura gay” através da violência. “Meu pai me deu uma surra de enxada. Os vizinhos saíram e não fizeram nada. Essa cicatriz aqui (aponta para a testa) é um piercing que ele tirou na mão”, relembra a modelo.

Após a sequência de violência, Marcella teve a primeira conversa sincera com seu pai. Em um novo momento de desordem familiar: ele ofereceu crack e os dois usaram juntos a droga enquanto ela contava seus dramas. “Foi a única vez em que ele me ouviu”, relembra a modelo.

Marcella não aguentou ficar mais de um ano nessa realidade e voltou a morar com a mãe em Brasília. “O som que eu ouvia indo para escola era de latinha, dele usando droga. Não queria aquilo pra mim, eu queria ser artista, não viciada. Essa foi a única vez em que usei crack”, conta ela.

O inicio da mudança

Aos 15 anos, e de volta aos semáforos para vender doce, foi parada por um olheiro de uma agência de modelos que a convidou para fazer um teste.

Aceitou na hora. Fez o teste, não foi aprovada. Mas ganhou um prêmio de consolação: acabou convidada para atuar como “olheiro”. Surgia seu primeiro emprego.

Ela conseguiu sair de casa e foi morar em uma pensão com outros LGBTs. “Minha mãe ajoelhou aos meus pés e me pediu para não sair de casa. Ela disse que o meu final seria igual ao do meu pai, que é HIV e viciado.”

A cada modelo que ela levava para a agência, ganhava 1 real. E garante que conseguia se virar. “Travesti não é bagunça meu amor”, diz, rindo.

A carreira drag em Juiz de Fora

Marcella trabalhou na agência dos 15 aos 17 anos. Ela chegou a ser promovida como assistente no departamento fashion, mas passou a achar o salário baixo e resolveu voltar para Juiz de Fora, na casa do tio.

“Meu tio estava preso e eu queria aproveitar que a casa dele estava vazia. Convenci minha avó de me deixar ficar.”

No local, iniciou a carreira de drag queen. Vestia-se de mulher e ia para as boates. Uberlândia, Barbacena e Juiz de Fora eram as cidades em que ela se apresentava como “Bianca Navarra”. Chegou a fazer shows em ponto de ônibus para conseguir dinheiro.

E quando os 18 anos chegaram, Marcella não pensou duas vezes: foi se alistar no serviço militar montada. Um choque para todos, mas não impediu que os militares a obrigassem a tirar a roupa. Marcella ficou nua, de peruca, em uma sala com outros meninos.

O tráfico humano

Com a maioridade, Marcella viu uma oportunidade. Estava montada na parada LGBT de Juiz de Fora quando conheceu Guilherme, um jovem que a seduziu. “Ele me convidou para ir a Londres, me apresentar nas boates de lá. Não pensei duas vezes, não tinha nada a perder. Ele me deu dinheiro, passaporte, passagem e eu embarquei nesse sonho.”

A realidade: ela era mais um número na estatística mundial de tráfico humano. Em Londres, outro integrante da quadrilha a esperava. O passaporte foi confiscado e ela teve de pagar a “dívida” se prostituindo.

Ficou três meses assim. Criaram um perfil em um site de prostituição e marcavam seus clientes. Nenhum dinheiro ficava com ela. Um dia, Marcella conheceu um cliente e contou sua história. Comovido, o rapaz deu dinheiro suficiente para a modelo fugir para o Brasil.

Ela montou um plano de fuga, guardou o dinheiro no sapato. E foi descoberta. A quadrilha roubou toda a quantia, mas a colocou em uma avião de volta ao Brasil.

Mark, o suíço

De volta ao seu país, desamparada, pediu abrigo para a mãe, que recusou ajudá-la. “Falou que na casa dela eu não ficava. Aí recorri à agência, que me deu emprego novamente.”

Sobre a mãe, anos depois: “Eu a perdoei. Ela é uma inspiração para mim. Já falamos sobre isso, ela não se arrepende porque não entende, por isso prefiro ficar na paz. Cansei de correr, se alguém me quiser na família, terá de vir atrás de mim.”

Nesse cenário, Marcela conheceu Mark, um suíço de 40 anos. Eles se conheceram em um site e começaram uma história de amor. Marcella ainda não havia feito sua transição, mas já tomava hormônio para ficar feminina.

Mark veio ao Brasil para conhecê-la e, aos 19 anos, Marcella foi pedida em casamento e convidada para morar na Suíça. Aceitou na hora. “Eu tinha tudo. Comecei a estudar. Aprender inglês. Mark mudou a minha vida. Ele é uma pessoa incrível”, relembra.

A transição

Depois de um ano na Suíça, Marcella entrou em depressão e entendeu que a tristeza vinha do fato de não se identificar com o gênero masculino. “Quando eu contei ao Mark que queria fazer a transição, ele não ficou do meu lado, foi um momento muito difícil. Ele me apoiava, mas não quis continuar. Tive de escolher entre o amor da minha vida e eu.”

Com uma estrutura financeira garantida pelo ex-marido suíço, Marcella iniciou sua transição. Seus traços femininos e a falta de pelos no corpo facilitaram o processo. O primeiro procedimento que ela fez foi colocar silicone para depois pensar em fazer a cirurgia de redesignação sexual.

Já no corpo de mulher, Marcella voltou a Brasília. Ela tinha vergonha de assumir que era trans e saia com homens sem contar o “segredo”. “Um policial federal, quando descobriu, chegou a apontar uma arma para minha cabeça.”

A transfobia começou a ser sentida na pele. Virou rotina ser xingada na rua e humilhada. E, aos 21 anos, ela decide operar. “Não tinha ódio de meu órgão sexual. Operei depois desses fatos, pois estava psicologicamente afetada. Todos os meus relacionamentos foram experiências muito duras.”

Resolveu ir à Tailândia fazer a cirurgia, com um especialista renomado. O que sobrou do dinheiro do ex-marido mais o que a modelo tinha juntado em trabalhos possibilitou a realização desse sonho. “Era muito nova e não tinha informação. As únicas coisas que perguntei: vai doer? Vou gozar?”, conta.

A cirurgia foi um sucesso e ela se sentiu renascida. E a vida começou a mudar – novamente.

A mineira passou a ser agenciada por uma empresa de São Paulo e, aos 21 anos, foi enviada como modelo para Turquia. Ficou três meses no país e foi para Milão, onde começou, de fato, uma carreira internacional.

Na Itália, decidiu começar uma vida nova, sem que as pessoas soubessem do seu passado. Adotou uma vida “cisplay”, termo utilizado por ela para representar essa época que ela negava ser trans. Uma mulher cisgênera é aquela que nasce no gênero feminino e se identifica com ele.

“Não queria passar por aqueles traumas de novo. Tinha vergonha de ser trans. Fazia mil castings por dia e trabalhava em três empregos para conseguir me sustentar.”

Até que uma marca alemã a chamou para uma campanha e o rosto da brasileira ficou estampada pela Europa. As carreiras de modelo e atriz decolaram. Filmes, clipes, campanhas, capa de revista.

Tudo que nem havia sonhado na infância acabou se realizando. Mas o sucesso traz um peso. Aos 27 anos, uma crise de depressão a levou a uma tentativa de suicídio. Mais um drama superado. A história estará em um livro autobiográfico, atualmente em produção.

Hoje Marcella Maia é roteirista, diretora, atriz, modelo e performer residente em São Paulo. Transita pelo mercado brasileiro e internacional com sua arte múltipla e personalidade forte. Ela fez supletivo, terminou os estudos e realizou seu sonho de estudar arte.

É formada em Atuação pelo Studio Fátima Toledo através do curso de cinema  No exterior cursou New York Film Academy – NY; na Inglaterra cursou atuação pra cinema na City Acting Drama School. E o mais recente curso da atriz foi com o diretor Eric Morris Los Angeles “O estudo de um ator nunca cessa, estou sempre estudando”, reforça a atriz

Marcela Faz questão de se assumiu trans e lutar por empoderamento.  “Agradeço muito de onde vim, mas não é pecado ter aquilo que você nunca teve. Minha ostentação é muito política. São conquistas ao grito”, concluiu.

Capa do novo sigle de Marcella Maia. Foto: reprodução

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Repórter do site de CartaCapital

Compartilhar postagem