Diversidade

Dane-se o racismo: coletivos lutam contra o preconceito nos estádios

Não é só na Copa: racismo, homofobia, machismo reinam no futebol, no campo e nas arquibancadas. Mas tem torcedor na luta para mudar esse cenário

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Quando o juiz apitou o fim do jogo, Ligia e outros três amigos se misturaram à multidão e saíram à paisana do Allianz Parque, estádio do Palmeiras na zona oeste de São Paulo. Haviam sido avisados: do lado de fora umas 15 pessoas esperavam por eles.

Antes da partida, enquanto se reuniam em uma das ruas próximas às entradas, em meio às famílias e outros torcedores, haviam sido abordados por um conhecido de uma das organizadas do Palmeiras e o encontro quase gerou uma discussão. Conseguiram sair em segurança mas, desde então, bolam estratégias para entrar e sair do estádio em paz.

O “crime” deles: levantar bandeiras contra o homofobia, machismo e racismo no futebol. Ligia e Wagner fazem parte da P16, ou Palmeiras Antifascista. Trocaram as tradicionais cores preta e vermelha do símbolo mundial do movimento contra o fascismo pelo verde e acrescentaram o “P” característico do time. Em cada jogo, vestem camisetas e carregam bandeiras com o símbolo.

É dessa exposição que vem o receio. Essas brigas incomodam. E incomodam justamente porque os estádios recebem gente de todo tipo – inclusive torcedores declaradamente adeptos às ideologias fascistas e nazistas. Uma das companheiras da P16 já tomou uma rasteira de um desses homens.

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Alguns membros da Banda Alma Celeste, torcida organizada do Paysandu, de Belém, apanharam no estádio em 2017. Isso porque haviam abraçado a causa LGBT e levantado bandeiras para apoiar a presença desse público na torcida. Em áudios de Whatsapp, torcedores contrários à manifestação haviam comentado sobre a necessidade de acabar com aquela “coisa de veado”.

Não há mistério para explicar essas brigas: futebol reflete a sociedade. Só no ano passado, o Observatório da Discriminação Racial no Futebol registrou 71 casos de racismo, homofobia e machismo envolvendo torcedores, jornalistas, comissão técnica e jogadores brasileiros. A maior parte deles, ainda que sejam levados à Justiça, não dá em nada. Ainda paira sobre o esporte a ideia de que manifestações assim são culturais e não há nada a ser feito.

Derby antifa

Luiz nasceu em uma família ligada ao movimento negro de São Paulo. Corintiano, vai aos estádios quando pode – os preços dos ingressos aumentaram com a construção das arenas modernas e excluíram uma multidão de brasileiros do esporte mais popular do País. Já escutou torcedor xingando jogadores de “macaco” e “negão filho da p*”. “Dei um tapa nas costas de um cara uma vez e ele ficou falando que ‘não era isso’. Mas era sim, era isso mesmo”, conta.

Em duas ocasiões viu torcedores com tatuagens fascistas. Um deles carregava o símbolo 88, referente ao nazismo, na nuca. “Vi o cara com a tatuagem e eu atrás com uma camiseta do Black Panther. Eu não acreditei, não podia ser real. Aí o cara olhou para trás, eu olhei de novo a tatuagem. E era mesmo o 88! Ele saiu de perto de mim”, relembra.

Luiz faz parte do Coringão Antifa – o coletivo corintiano contrário às expressões de ódio e preconceito nos estádios. Criado em 2016, o Coringão Antifa nasceu da ideia de Rafael e outros amigos. Eles trocaram a bandeira do Estado de São Paulo por três setas para baixo, outro símbolo antifascista (criado na Alemanha, em 1932, na luta contra contra o nazismo), no brasão do Timão.

A gente reuniu uma galera que tinha duas coisas em comum: o Corinthians e a militância. O Corinthians Antifascista estava inativo e a gente queria erguer essas bandeiras”, diz Rafael. “Se a gente contar a história do Corinthians, do Miguel Battaglia, essa molecada vai ver que não faz sentido ser corintiano e votar em caras como o Bolsonaro”, opina.

Miguel Battaglia foi um dos fundadores do Corinthians, em 1910. Alfaite, Battaglia se juntou a operários para criar o time. “O Corinthians é o time do povo e o povo é quem vai fazer o time”, afirmou Battaglia em um de seus primeiros discursos como dirigente do então recém-criado time.

É essa a esperança do Coringão Antifa e da Palmeiras Antifascista: relembrar a história da criação dos clubes e acabar com gritos racistas e homofóbicos nos estádios. “Se as pessoas lembrarem que o Palmeiras nasceu de imigrantes já é um bom começo”, afirma Ligia.

Entre os palmeirenses, poucos ainda gritam “bicha” quando o goleiro adversário cobra tiro de meta – no Corinthians o hábito segue em alta. Mas, no Palmeiras, ainda é comum escutar cantos como “todo veado que eu conheço é tricolor” ou “para cima delas”, em jogos contra o São Paulo.

Deixando toda a rivalidade do derby paulista de lado, os dois coletivos se unem para criar estratégias de combate ao preconceito. Na última quinta 12, deram uma aula aberta sobre futebol moderno e antifascismo na zona norte de São Paulo. Também fazem parceria com a ala antifascista da torcida do Santos. E não são os únicos. Estima-se que existam quase 30 torcidas antifascistas no futebol brasileiro.

Lutas em comum

Há algo que une essas torcidas: as experiências frustrantes . Se Luiz identificou torcedores nazistas, a P16 nasceu depois do encontro com um torcedor fascista no Pacaembu. Um palmeirense usava um agasalho da torcida Iriducibilli, organizada nazista da Lazio, da Itália. “Esse episódio mostrou de forma mais explícita que existe, sim, ideologia nas arquibancadas e que o futebol é quase que essencialmente misógino, homofóbico, machista e racista”, explicam em seus panfletos.

Todos eles conhecem bem o ambiente do futebol. E sentem todas as formas de opressão nas arquibancadas. “Não vou de saia, nem muito maquiada ao estádio. Meus pais também sempre me falaram para não ir sozinha”, relata Ligia. Fora a preocupação com as roupas, Ligia ainda precisa escutar provocações do tipo “ah, então me fala a escalação do time, vai”.

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Na hora das comemorações, quando torcedores desconhecidos se abraçam na emoção do momento, Ligia e outras mulheres ficam de lado. “Sempre escuto essa história. Levei minha namorada ao estádio duas vezes e ela me perguntou se era invisível, por que os caras só falavam comigo”, comenta Rafael.

Sabem também como funcionam as outras organizadas. “Uma vez, no intervalo do jogo, um cara veio perguntar se a gente era antifa. Ele nos convidou para entrar em uma das organizadas, falou que a gente seria bem vindo”, conta Rafael. “Bem vindo até a página dois! Quando for para bater de frente contra alguns gritos ou estender nossas bandeiras, aí quero ver. Não vamos ter espaço”, diz aos risos. “É sempre o mesmo papo: ah, mas fulano é linha de frente. Está sempre nas caravanas e quando dá problema ele está lá”, completa Wagner, da P16.

Ainda almejam parcerias, claro, mas sem grandes expectativas. Fazem trabalho de formiguinha, como gosta de dizer Rafael. E lutam até contra ídolos que insistem em apoiar candidatos preconceituosos: Jadson, meia do Corinthians, e Felipe Melo, volante do Palmeiras, declararam apoio a Bolsonaro. Em poucos, unem suas torcidas e juntam energia para quebrar preconceitos – e deixar o futebol verdadeiramente popular.

Carta Capital

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