Cultura

Beyoncé não quer que você se demita, ela quer que você reaja! 

No topo da Billboard, a maior estrela pop do século coroa um caminho de autoconhecimento, ancestralidade, poder, libertação, revolta e… dança.

Apoie Siga-nos no

Beyoncé é oficialmente a maior estrela pop do século XXI e está de volta ao topo das paradas – de onde nunca deveria ter saído: a música “Break My Soul” chegou à 1ª posição do Hot 100 da ‘Billboard’. Desde ‘Single Ladies’, de 2008, a cantora não alcançava o primeiro lugar nas paradas. O disco de estúdio, “Renaissance”, lançado no último dia 29 de julho, também lidera a lista de álbuns mais ouvidos. 

Muito se falou sobre o novo álbum de Beyoncé. Primeiro, vimos a exaltação do lançamento do single pós-pandêmico “Break My Soul”, em que ela reclama da rotina de trabalho, declara que ninguém vai despedaçar sua alma, pede demissão e vai viver. Dizem – dizem!, que a música teve um certo impacto no mercado de trabalho e impulsionou alguns pedidos de demissão e que o intuito dela era esse.

Eis que surge, então, o novo álbum completo, não só com “Break My Soul”, mas outras músicas ainda mais revoltadas, revolucionárias e dançantes. Alguns críticos desavisados taxaram “Renaissance” como apenas “álbum dançante”, uma “renovação das pistas de dança” e, até mesmo, disseram que Beyoncé “se curvou ao mercado” fazendo house music para alcançar bons números com o lançamento. 

Pois bem. É importante entender que Beyoncé não quer que você peça demissão literalmente. Bom, talvez até queira… Mas, conhecendo a realidade de milhares e milhares de pessoas pretas ao redor do globo, o que ela quer, antes de tudo, é que você reaja diante de um mercado que não costuma respeitar pessoas negras, em ambientes que nos desumanizam! A Sra Carter – mulher de Jay-Z, mãe da Blue, do Rumi e do Sir – não quer caber num modelo rentável de música e deixou isso bem escurecido em seu novo disco. Nem ela, nem nenhuma pessoa negra se curvará diante de seja lá ao que for, inclusive ao mercado da música e do trabalho como um todo. 

O que a maior artista da nossa geração fez com “Renaissance” foi coroar um caminho de autoconhecimento, ancestralidade, poder, libertação e, aí sim, dançar.

E o que ela quer, para além de caminhar individualmente, é partilhar esse caminho de retomada de poder com o público: nós! E tem feito isso. Se, no início, tinha uma carreira essencialmente feminista, hoje, alça voos embasados num feminismo negro implacável.

Beyoncé evoluiu ao longo dos últimos anos. Entre, “Lemonade” e “Lion King”, passando por “Homecoming”, ela bebeu na fonte do feminismo, se empoderou no aspecto mais americanizado e individualizado da palavra. Na sequência, entendeu que só aquilo não bastava, foi buscar suas origens, para além de dar vida a Nala em “O Rei Leão”, ela foi conhecer a fundo sua ancestralidade africana, entender de quais costelas de reis e rainhas africanos viemos e exaltar isso. É de lá que ela tira forças para livre-dançar.

Beyoncé no álbum Lemonade, em 2016.

O “renascimento” aqui não é apenas um movimento cultural revisitado – embora seja sim, uma proposta vívida de um novo modelo de vida, o início de uma nova era, quem sabe a “Era Bey”, em que teremos uma idade pós-pós-moderna com novos ORIentadores, com o povo preto no centro, com nossos próprios valores, leis de mercado e conhecimento afrocentrados. O movimento aqui é renascimento e tomada de poder preto, menos viéses ocidentais e mais aos moldes de nossas raízes. E ela canta e dança tudo isso.

Uma mulher negra dita o mercado

Com sua ancestralidade em punho, Beyoncé não só chega ao topo da Billboard mas é coroada com tudo daquilo que mais almejamos enquanto pessoas racializadas: chegar lá, sendo quem a gente é, com orgulho, com espaço e conforto para ser, e mais, instigando todo mundo – pelo menos aqueles que sabem ouvir suas músicas – a ser também.

Contradizendo o que muitos críticos brancos fizeram questão de declarar sobre Bey se moldar aos formatos atuais do mercado da música, a Billboard declara que, na verdade, quem tem ditado as regras do mercado é ela. “Ela preenche todos os requisitos em termos de imagem, som e impacto, ela redefine regularmente a cultura da música pop com seus lançamentos e performances, e ela ainda está dominando com seu sétimo álbum. Não há mais ninguém que possa tirar esse título, nem deve tentar; pertence a Beyoncé.”, declararam os críticos. 

Um disco para dançar, mas antes refletir muito e se rebelar 

Se você escutar o álbum na ordem em que está servido, perceberá que já na primeira música, “I’m that girl”, ela mete o pé na porta e declara: “Please, m@t#erf3cker* ain’t stopping me” ((Por favor, filhos da p*t@ não vão me parar). A pose é de quem não tem como voltar atrás, carrega um exército dentro de si.

É a exaltação da mulher preta que ela reconhece que se tornou e agora volta à sua essência empoderada, o axé feminino negro que não está nas jóias, nas pessoas ao seu redor, no dinheiro, mas no poder pessoal que seu DNA enquanto mulher negra lhe confere. “I’ve been thuggin’ for my un-American life” (Eu tenho lutado pela minha vida brilhante nem um pouco americana). Ou seja, não é americana. Beyoncé sabe de onde veio. E segue…

Em “Cozy“, ela endossa o coro que levantou em “Brow Skin Girl” do último álbum “The Lion King” de estar confortável em sua pele, seja ela clara ou escura, mas preta, e de se achar bonita. Aqui, a agressividade se acirra. Ela não só está orgulhosa, como cansada de competir com as mulheres brancas e ser achincalhada por muitas delas. Aos olhos verdes que a invejam, ela responde: “I’m black” (Eu sou preta).

Nesta letra, ela exalta não só a sua negritude como tudo o que acompanha a nossa estética, comportamento, fala, com muita autoestima e amor próprio. Ao mesmo tempo, se retroalimenta de toda violência que sofreu por parte dessas pessoas, nos mostra como aprendeu e cresceu com elas. “Dancin’ in the mirror, kiss my scars / Because I love what they made”. (Dançando na frente do espelho, beijando minhas cicatrizes. Porque eu amo o que elas criaram).  

Entre “Cozy” e a próxima música, “Alien Superstar“, ela mostra que sabe que é única, insubstituível, que transborda não só uma sexualidade mas uma intelectualidade incomparável e invejável, é capaz de alcançar tanto o poder de persuasão quanto o poder econômico. Sonha e realiza seus desejos do seu próprio jeito, brigando com um mercado acostumado a ninar mulheres brancas e relegar mulheres pretas.

Ela não precisa do mercado, ela tem seus próprios diamantes. E as pessoas vão ter que aturá-la. “We dress a certain way / We walk a certain way / We talk a certain way /We create a certain way / We paint a certain way/ We make love a certain way/ You know, all of these things we do in a different/ Unique, specific way that is personally ours” (Nós nos vestimos, andamos, falamos, criamos, pintamos, fazemos amor de um jeito diferente, único e totalmente nosso). 

Como já era de se esperar – e toda mulher negra deseja isso – “Cuff it” mostra como Queen Bey se liberta para o amor e para a paixão, sem culpa, sem pudor, com seu corpo, suas curvas e seu jeito de amar livre. Só quem é mulher entende o quanto as prisões psicológicas que são infligidas aos nossos corpos impactam em todas as áreas de nossas vidas. Nos olham e nos negam a feminilidade, a beleza, a sensualidade que é sexualizada violentamente durante toda uma vida. O quanto isso nos impacta e quanto é doloroso e difícil acessar e resgatar a nossa sexualidade diante disso? Nós sabemos. E Beyoncé um dia soube. 

De faixa em faixa, faz uma ode a house music com “Energy” e canta o hino dos tempos pós-pandêmicos atuais “Break my soul” em que deixa bem explicando que a música é uma protesto, um limite, um ponto final, uma reação e um convite à reação  – “You won’t break my soul” (Você não vai despedaçar a minha alma), com sua autoestima nas alturas, ela não vai aceitar mais trabalhar por menos, ser explorada ou violentada por ninguém nem pelo mercado, não vai passar pelo caos que foi a pandemia e deixar tudo como está, ela vai reagir.

Para isso, Beyoncé se prepara e busca forças onde nem fazia ideia de que poderia encontrar. Ela não vai mais engolir a tal da produtividade-chave do capitalismo, o modus operandi do tempo ocidental. Ela vai vestir a liberdade da mulher preta para sair de casa em sua melhor forma, quandoa pandemia acabar – que para as mulheres pretas nem começou. E convida as pessoas a refletirem:  “I’m taking my new salvation/ And I’ma build my own foundation, yeah/ Got motivation motivation/ I done found me – new foundation/ I’m taking my new salvation – new salvation”. (Estou escolhendo a minha nova salvação. E vou construir minha própria fundação, sim. Tenho motivação, Encontrei uma nova fundação para mim, sim (nova fundação, Estou escolhendo a minha nova salvação – nova salvação. E vou construir minha própria fundação, sim, própria fundação).

Essa música não é sobre pedir demissão pura e simplesmente. É passar por um caos como foi a pandemia e não sair ileso nem alienado dela, mas sim com consciência racial, de classe, de gênero, entender como esses fatores aliados à uma doença escancararam o abismo entre nós, pessoas pretas e o resto da sociedade. E, depois de aprender na prática como o sistema é pior para nós mulheres negras, fazer algo a respeito. É levar essa sensação de “estar prestes a explodir” para o dia a dia e reagir através dela.

Em “Church Girl“, Beyoncé mexe no último vespeiro possível, convida a um despir da culpa e diz que, nem mesmo a igreja que também é – e principalmente é – colonizadora, poderá demonizar essa mulher que ela exalta. Nem mesmo a igreja terá poder para julgá-la, reservando também à sua fé a liberdade. Seja na igreja ou não, a mulher é livre para ser, para dançar, para dar e – vender – seu corpo se quiser, sem ser julgada por isso. Se libertar dessa fé cega pode ser um caminho para sorrir novamente, se amando. Não determina que não se possa estar igreja, mas dentro ou fora dela, que seja livre.

Numa transição no meio do álbum para algo que parece começar a arrefecer toda a sua revolta, encontramos “Plastic off the sofá“. Num primeiro momento, pode parecer uma declaração de amor a Jay-z, e até é, mas Beyoncé dedica o disco ao seu falecido tio Jhonny, que ela gosta de frisar que era gay, a apresentou à música e inspirou toda a sua carreira, inclusive as músicas atuais. “Ele foi corajoso e sem remorso durante uma época em que este país não era tão receptivo. Testemunhar sua batalha contra o HIV foi uma das experiências mais dolorosas que já vivi (…) Espero que sua luta tenha servido para abrir caminhos para outros jovens viverem mais livremente. Os direitos LGBTQIA+ são direitos humanos.” desabafou Beyoncé. 

Na música, ela determina que gosta dele – seja Jay-z, seja Jhonny, seja o preto ou a preta que for – do jeito que é, e que essa pessoa não precisa da aprovação do mundo. Se coloca no mesmo patamar de uma pessoa muitas vezes desumanizada, julgada e violentada pelo mundo. Ou seja, serve tanto para o boy quanto para o tio, com uma ressalva ou outra, para nós também.

A partir daí, para Beyoncé a onda é viver um amor leve, dançar, transar a pista e na pista –  já que é livre de todas as maneiras possíveis. Exalta as batidas e belezas africanas ao lado de Grace Jones cobrando movimento – seja ele na dança ou munido de consciência racial e afrocentrada no dia a dia. Vive suas fantasias. E finaliza com um ensolarado Renascimento. O nascimento de Queen Bey. “Oh, it’s so good, it’s so good” (Oh, é tão bom, é tão bom). 

Tão bom!

“Criar este álbum me permitiu sonhar e encontrar uma fuga durante um período assustador para o mundo (a pandemia). Permitiu que eu me sentisse livre e aventureira em uma época em que quase nada estava se movimentando. Minha intenção foi criar um lugar seguro, um lugar sem julgamentos. Um lugar para sermos livres de perfeccionismo e pensamentos excessivos. Um lugar para gritar, soltar, sentir a liberdade”,  declarou a artista.

“Espero que você encontre alegria nesta música, te inspire a se libertar, a se mover, a se sentir tão único, forte e sexy quanto você”. 

“Renaissance” promete ser o primeiro ato de uma série de três gravados ao durante os três anos de pandemia. Uma série de libertação. Nele, Beyoncé definitivamente não quer que você se demita, ela quer que você reaja, se movimente na vida e na dança!

No topo da Billboard com esse disco ostentação de uma mulher negra, acima dos 40, mãe, milionária, racialmente consciente, Queen Bey volta para onde nunca deveria ter saído, coroa caminho de autoconhecimento, ancestralidade, poder, libertação e compartilha isso conosco enquanto dança, transa, se olha no espelho, se beija. Definitivamente é o nosso lugar, de onde nenhuma de nós deveria ter saído. Coroadas, que saibamos ouvir e escutar nossa musa, nos revoltar, resgatar nossa dignidade, lutar e, com liberdade, simplesmente dançar e transar uma vida próspera, a nossa obrigação ancestral que é ser feliz.

ENTENDA MAIS SOBRE: , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor…

O bolsonarismo perdeu a batalha das urnas, mas não está morto.

Diante de um país tão dividido e arrasado, é preciso centrar esforços em uma reconstrução.

Seu apoio, leitor, será ainda mais fundamental.

Se você valoriza o bom jornalismo, ajude CartaCapital a seguir lutando por um novo Brasil.

Assine a edição semanal da revista;

Ou contribua, com o quanto puder.