‘As mulheres trans e travestis entenderam a potência de movimentos feministas’

Letícia Carolina Nascimento conversa com CartaCapital sobre seu livro Transfeminismo, mais recente lançamento da Coleção Feminismos Plurais

Professora Letícia Nascimento, nascida em Parnaíba, Piauí, é professora da Faculdade de Pedagogia da Universidade Federal do Piauí. Fotografia: Wilkerson Araújo

Professora Letícia Nascimento, nascida em Parnaíba, Piauí, é professora da Faculdade de Pedagogia da Universidade Federal do Piauí. Fotografia: Wilkerson Araújo

Diversidade

“E não posso ser eu uma mulher?”, pergunta Letícia Carolina Nascimento, professora do curso de Pedagogia da Universidade Federal do Piauí.

A questão, que abre o livro Transfeminismo, 10ª obra da Coleção “Feminismos Plurais, é uma adaptação da célebre frase proferida pela abolicionista, – pioneira na luta pelos direitos dos negros e das mulheres nos Estados Unidos – Sojourner Truth, que, em discurso de 1851, indaga “e não sou eu uma mulher?”.

Se no caso dos Estados Unidos do século XIX a crítica é dirigida a uma sociedade que coloca a mulher branca como único modelo único de mulher, Letícia, mulher trans do século XXI, recorre à diversidade de experiências femininas para provocar “redimensionamentos na categoria gênero”.

Reivindicando outras formas de mulheridade, a autora aponta as contradições de discursos que, sob uma perspectiva binária de gênero, ignoram o caráter social e político na formação da personalidade humana. “Existem vários processos de ser outro, de ser outra. Não podemos determinar que somos apenas outro em relação a uma questão. Se olho para a minha experiência, sou a outra da branquitude, mas também a outra da cisgeneridade”, ressalta.

Letícia ressalta também a opressão “a tudo o que é feminino” como um dos pontos de ligação entre feminismo e transfeminismo. “Percebeu-se uma grande correlação entre a opressão vivenciada por mulheres cis e a vivenciada por mulheres trans e travestis. No ano passado, no Brasil, foram 175 assassinatos de travestis e transexuais. E 100% dos casos foram de identidades de gênero feminina”, enfatiza.

O surgimento do transfeminismo, explica Letícia, tem a ver com certo afastamento do movimento trans de algumas pautas do movimento LGBT, historicamente conduzido por homens brancos gays. “O confronto entre as identidades travestis e as identidades de homens brancos gays acabou fazendo com que as travestis e transexuais sentissem a necessidade de criar um espaço próprio de discussão”, pontua. “E nesse espaço, o diálogo com o feminismo pareceu bastante pertinente.”

Letícia define o lugar de onde fala o transfeminismo como uma espécie de território próprio, mas que faz fronteira com outros espaços de luta. “A gente sempre fala, observa e vive de um lugar. Quando construo conhecimento, estou atravessada por este lugar; mas todo lugar possui fronteira. E o lugar da fronteira é um lugar de encontro”, diz.

Na conversa com CartaCapital, Letícia nos apresenta o panorama histórico-social que fundamenta o reconhecimento da luta de mulheres trans e travestis como parte da luta feminista.

Confira a seguir:

CartaCapital: Qual é a sua expectativa em relação ao livro?

Letícia Carolina Nascimento: Acredito que este livro seja útil e importante para todas as pessoas que estudam gênero e sexualidade; principalmente por trazer essas experiências a partir das vivências e dos saberes de pessoas travestis e transexuais. E é muito importante entender a construção de saberes localizados. Não existe um saber universal. A produção de conhecimento sempre se dá a partir de determinados contextos sociais, culturais, históricos, políticos.

CC: Como entender o feminismo a partir da experiência de travestis e mulheres transexuais?

LCN: É a isto que o livro tenta dar consistência, ampliando o debate, as fronteiras feministas e possibilitando mais entradas e saídas para múltiplas questões que já são levantadas dentro do campo de discussões feministas. Discussões que, agora, passam também a incorporar as pautas transfeministas e, por sua vez, as pautas transfeministas passam a incorporar as pautas feministas. Ou seja, há um processo de retroalimentação. E o lugar da fronteira é um lugar de encontro. o transfeminismo faz fronteira com o feminismo negro, com o feminismo lésbico, com o feminismo branco, com o feminismo socialista, com o ecofeminismo; e essas fronteiras são instersecções. Portanto, existem possibilidades de diálogo, de trocas, de divergências, de disputas. O debate é múltiplo.

CC: O que você quer dizer quando propõe redimensionamentos da categoria gênero?

LCN: O gênero surge no ambiente acadêmico com a inserção de mulheres brancas e negras na universidade, a partir da década de 1970 e 1980. Essas mulheres perceberam a necessidade de elaborar teorias que nos possibilitassem compreender os motivos da nossa opressão. Então, não foi difícil para as feministas entenderem que um dos motivos da nossa opressão estava associado a uma ideia naturalizada de que o sexo biológico determinaria a nossa identidade. Nesse sentido, as feministas criaram a categoria gênero para diferenciar aquilo que é do âmbito biológico, daquilo que é do âmbito cultural. Uma pessoa até pode nascer com este ou com aquele genital, mas isso não significa dizer que o genital determina o modo de ser da pessoa. Porque o que determina esse modo de ser é a cultura.

CC: Quando surge, nesse âmbito, o transfeminismo?

LCN: Já na década de 90, algumas feministas começam a entender que nós não poderíamos ter um lugar único para definir nossas mulheridades. E que considerar a biologia o único ponto de convergência entre nós é essencializar, é naturalizar a categoria mulher. Então, se é uma construção sócio-histórico-política, não podemos essencializar. E aí a gente retoma uma discussão que é muito importante dentro das ciências sociais e humanas: a compreensão de que nenhuma categoria é natural. Toda categoria, dentro das ciências sociais, passa por um processo de construção.

Portanto, nós não poderíamos atrelar o gênero, a experiência do gênero, exclusivamente a uma dimensão biológica. Elas entendem que a construção de uma ideia de sexo como questão binária é falha. Então, as feministas desassociam-se da ideia de sexo biológico, e passam a compreender que é o gênero que produz o sexo.

E é essa compreensão, é esse redimensionamento de gênero, que nos permite entender que, independentemente do genital que a pessoa nasça, ela pode assumir sócio-culturalmente uma identidade feminina. Quer seja uma identidade de mulher ou não, uma vez que nem todas nós nos reivindicamos mulheres. Algumas se reivindicam enquanto uma identidade que vive a feminilidade.

E do mesmo jeito que na década de 1970 e 1980 as mulheres cis começam a adentrar as universidades, a partir dos anos 2000 e, principalmente, na segunda década do século XXI, a gente vai ver esse fenômeno no Brasil em relação a mulheres travestis e transexuais. Elas começam a fazer mestrado e doutorado e começam a pautar um campo de conhecimento próprio dentro da academia; esse campo se chama transfeminismo e é vinculado aos estudos de gênero, aos estudos feministas. Então, há todo um processo de aglutinação das bandeiras feministas às bandeiras de luta do transfeminismo.

CC: A luta contra a opressão une as travestis e as transexuais ao feminismo?

LCN: Sim. As travestis e transexuais perceberam que o modo de organização feminista era muito potente. Desde a década de 70, as feministas decidiram colocar as mulheres no centro da luta política e estudar as experiências das mulheres. Mas, em diversos momentos, o feminismo lutou junto com outras lutas. Por exemplo, muitas feministas lutaram ao lado dos sindicatos, que eram compostos por homens. Então, era uma luta sindical, com homens, em que mulheres pensavam as suas questões.

Nas décadas de 70 e 80, vai haver uma diferenciação. As feministas decidem que elas até podem compartilhar outros espaços políticos, mas que é necessária a criação de espaços políticos exclusivos para mulheres. E é isso que o movimento travesti, no Brasil e no mundo, vai entender. Que, primeiro, a gente precisa criar um espaço exclusivo para travestis e transexuais, porque viver acoplada ao movimento LGBT nem sempre é importante.

CC: Por que não?

LCN: Historicamente, o movimento LGBT tem sido conduzido por bandeiras de homens brancos gays. Esse confronto entre as identidades travestis e as de homens brancos gays acabaram fazendo com que as travestis e transexuais sentissem necessidade de criar um espaço próprio de discussão. E nesse espaço, o diálogo com o feminismo, com o modo como o feminismo atuava, colocando o foco sobre as mulheres, pareceu bastante pertinente.

Além disso, percebeu-se uma grande correlação entre a opressão vivenciada por mulheres cisgêneras e a opressão vivenciada por mulheres transgêneras e travestis; um ódio naturalizado, no Brasil e em toda a América Latina, a tudo o que é feminino. Aqui, na América Latina, tudo o que é feminino, é inferior. É algo que é submisso, é algo que serve de uso, é algo objetificado. Nunca é um “ser em si”, como vai colocar Simone de Beauvoir; é sempre um “ser para o outro”, que é uma objetificação das nossas existências. Portanto, as travestis e transexuais, na década de 1990, de certo modo, tiveram um insight. Perceberam que o modo do feminismo se organizar era potente, e elas trouxeram essa movimentação para dentro da movimentação travesti e transexual. E isso possibilitou a criação do transfeminismo.

Letícia Nascimento, professora doutoranda da Universidade Federal do Piauí e autora do livro “Transfeminismo”.

Transfeminismo é o 10º título da Coleção Feminismos Plurais.

CC: Um dos capítulos do livro é nomeado “Cisgeneridade, despatologização e autodeterminação: nós por nós mesmas!”. Poderia falar sobre o tema?

LCN: Quem determina as identidades transgêneras é o poder biomédico. E a medicina, em especial a psiquiatria, determina, em torno da década de 1950, que a transexualidade seria uma doença. É um modo de nomear a diferença a partir de uma patologização. Quando trazemos o conceito de autodeterminação, estamos querendo dizer que não é a instituição jurídica, médica ou psicológica que deve nos definir, e sim nós mesmas. Nós definimos a nossa identidade.

Até bem pouco tempo atrás, para se fazer a retificação de nome era necessário um laudo psiquiátrico, validando que você tinha uma identidade transgênera. Hoje em dia, a partir de uma decisão de 2018 do STF, é possível ir a um cartório e alterar o nome, sem a necessidade de um laudo, apesar de ainda ser um processo burocrático. Essa mudança fortalece o conceito de autodeterminação, de autodefinição das nossas identidades. Porque eu não preciso ir a um médico para ele me dizer que sou trans. Sou eu que vou ao cartório e digo: “olha, sou uma pessoa trans e quero mudar o nome”. E o cartório muda. Como eu disse, existe uma burocracia, mas há o respeito ao meu desejo, à minha vontade.

O movimento trans luta para que essa autodeterminação seja levada também para outros setores. Infelizmente, hoje, vários acessos a cirurgias que são necessárias para a população trans – pelo menos para boa parte das pessoas trans – só podem ser realizadas a partir de uma autorização médica. É o médico que determina se nós podemos ou não fazer uma cirurgia. Atualmente, ainda é assim que funciona. Se você quer fazer uma mamoplastia, precisa de uma validação médica. E aqui é interessante ressaltar que não se trata de acompanhamento médico. É validação médica. Porque, por exemplo, pessoas cis que vão fazer cirurgia bariátrica têm acompanhamento médico, mas em nenhum momento o médico diz que precisa autorizar a cirurgia. Ele só quer saber se a pessoa tem condições de fazer a partir dos exames. Em nenhum momento o médico diz: “Vamos fazer umas sessões para eu saber se posso ou não fazer a cirurgia em você”.

CC: Vai para o campo moral…

LCN: Vai para o campo moral. A medicina, no que tange às questões trans, não produz conhecimento científico. Sobre as corporalidades transgêneras, a medicina produz conhecimentos morais. Então, a medicina ainda se ancora numa verdade biológica, e por isso proíbe, de certo modo, a autorização de procedimentos cirúrgicos.

Precisamos lembrar que, no Brasil, a pessoa que fez a primeira cirurgia trans foi processada. O médico Roberto Farina chegou a ser condenado por ter feito a cirurgia no João Nery. Foi processado sob a acusação de mutilação. A cirurgia foi considerada uma mutilação. Olha só! Era um desejo da pessoa trans fazer essa  cirurgia. Não é uma mutilação. A mutilação é a partir da perspectiva cisgênera, que entende que os nossos corpos são naturais. Mas isso, também, na verdade, até um certo ponto. Porque, hoje em dia, mulheres cisgêneras acima de trinta anos, ou até menos, vão ao dermatologista colocar botox; e isso é considerado natural, apesar de a pessoa estar colocando uma toxina artificial dentro do corpo. Isso é permitido. É permitido, por exemplo, fazer cirurgia de rinoplastia, e ninguém faz dez sessões de psicoterapia ou nem vai ao psiquiatra para saber se pode ou não operar o nariz.

Então, a medicina estabelece um padrão moral acerca de algumas questões e permite outros procedimentos. A cisgeneridade pode fazer muitas coisas com seus corpos. Pode fazer rinoplastia, bariátrica, pode colocar botox, pode fazer sobrancelha pigmentada; todos esses procedimentos, se formos entender, são procedimentos que violam a natureza do corpo. Afinal, o corpo não foi pensado para aplicarmos botox e nem o nariz, para fazermos uma cirurgia que reduza seu tamanho. Isso também poderia ser considerado uma mutilação. Mas não é. Por quê? Porque é um anseio da cisgeneridade. Quando é um anseio da transgeneridade, é considerado patológico. Por outro lado, é preciso destacar que há um diálogo forte e fundamental com a psicologia e a medicina. Os movimentos estão incessantemente em diálogo, e isso tem provocado resultados positivos.

CC: A questão do saber médico passa por uma dimensão de mercado, de capitalismo?

LCN: É preciso lembrar que a medicina lucra a partir do sofrimento dos outros. Inclusive, existem muitas práticas abusivas de médicos, de clínicas, que exigem de pacientes trans laudos a preços exorbitantes, laudos casados. Ou seja, você tem que ter o laudo do mesmo psiquiatra de um determinado hospital, do mesmo psicólogo, do mesmo endocrinologista; o que impossibilita a pessoa de conseguir laudos em outros lugares. Tem que ser o laudo do mesmo médico que ela apresentou inicialmente. Para lucrar a partir do sofrimento das pessoas trans, a medicina cria várias questões burocráticas.

E obviamente há um jogo de interesse. As pessoas trans que se submetem a esses procedimentos de extorsão, pagam porque se sentem desconfortáveis com o corpo. Isso, inclusive, as endivida no processo. Às vezes, fazem empréstimos ou parcelam na própria clínica e, recém-cirurgiadas, precisam de um período para se recuperarem. É óbvio que a pessoa que faz uma cirurgia de mamoplastia ou de redesignação sexual precisa de um período de recuperação. Mas ela contrai uma dívida. Como vai pagar a dívida se está cirurgiada? Isso acaba vulnerabilizando as pessoas e, principalmente, as pessoas trans, que estão numa camada social mais baixa.

CC: A maioria está na prostituição…

LCN: Exatamente. Dados da Antra apontam que 90% da população trans brasileira vive exclusivamente e compulsoriamente da prostituição. Portanto, estamos falando de um segmento muito grande dentro da população trans, que muitas vezes vai para a Europa se prostituir como única opção de trabalho – e digo isso sem nenhum juízo de valor acerca da atividade da prostituição. Vão à Europa porque querem ganhar dinheiro para fazer cirurgias; para colocar uma prótese ou para fazer uma rinoplastia. Enfim, para ter esse corpo que tanto desejam. E uma vez estando em um país estrangeiro, apesar de algumas meninas relatarem experiências positivas, acabam se vulnerabilizando mais ainda, expostas a uma série de violências, extorsões.

Eu sempre tomo o cuidado de contextualizar a situação para não parecer que apenas as pessoas trans querem mudar o corpo. Claro que as pessoas cis também querem. Todas as pessoas possuem inconformidades com os seus corpos e com as suas corpas. Todo mundo, em algum momento, se tirar a roupa e se olhar no espelho, vai olhar para algum lugar do corpo e pensar: “se eu pudesse, mudaria isso em mim”. Pode não ter coragem para fazer cirurgia, porque nem todo mundo se sente confortável estando no médico; eu, pelo menos, não quero fazer nenhuma cirurgia, só porque tenho medo de hospital. Mas, se não tivesse, existem várias coisas que mudaria. Quem disser que se olha no espelho e se ama integralmente, o tempo todo, está mentindo. Porque a gente nunca consegue se amar integralmente, 24 horas por dia.

Sempre há um momento em que olhamos para aquela parte do corpo e falamos: “ah, por que esse bumbum é caído? Por que essa bochecha é tão cheia? Por que não posso dar aquela diminuidinha?”. Isso é comum a todas as pessoas. Isso acaba contribuindo para uma visão estereotipada, de que a gente faz cirurgia e as pessoas cisgêneras, não. Mas a cisgeneridade continua fazendo cirurgias sem ninguém questionar. As pessoas não vão ao perfil da Anitta dizer: “ah, você tinha que aceitar o seu nariz”; ou até vão, porém, com menor intensidade. Mas quando é com pessoas trans, dizem: “aceite o seu corpo como ele é. Para quê mudar isso?”. Ou seja, há todo um padrão moral nessas mudanças.

 

CC: Você fala em dialogar com as divergências. Como fazer isso?

LCN: A Djamila [Ribeiro, organizadora da coleção Feminismos Plurais] tem um livro muito interessante, que é o Lugar de fala, e a gente, quando pensa o lugar de fala, também pensa o lugar de escuta. Porque é preciso supor que, se algumas pessoas precisam falar, outras, precisam ouvir. Então, é uma redistribuição da palavra. E, historicamente, o subalterno sempre foi impossibilitado de falar. A palavra não é algo que lhe é dado, não é algo que lhe é possibilitado.

Então, hoje, as feministas negras e as feministas do que nós costumamos chamar de sul-global pensam a sua condição feminina a partir de seus contextos históricos e políticos. E esses diálogos são completamente distintos. Como a gente vai perceber, por exemplo, o uso do véu por parte das mulheres do oriente? Precisamos entender não a partir da nossa cultura, porque a cultura brasileira vive um momento de extrema exibição do corpo. Talvez essa mulher que usa o véu também consiga exercer a liberdade dela – e o meu olhar etnocentrado de brasileira que costuma ir à praia de biquíni, vai achar o véu uma castração da liberdade. Mas eu preciso entender o uso do véu a partir daquele contexto, e não do meu.

Dentro dos estudos das ciências sociais, costuma-se usar mais o termo ‘alteridade’. Só que, para a minha pesquisa, o termo alteridade acaba soando de um outro modo, inclusive, um modo que é muito mais pensado pelo ocidente, pelos autores europeus. Por isso achei mais potente usar ‘outreridades’. Assim, já estabeleço um diálogo que vem do feminismo, com a Simone de Beauvoir, passando pelo feminismo negro e chegando no transfeminismo. E se eu usasse o conceito de ‘alteridade’, estaria dialogando com conceitos ocidentais. Portanto, com ‘outreridades’, acabo tendo uma linha de coerência melhor dentro do próprio campo feminista. Se a Djamila Ribeiro e a Grada Kilomba deslocam o conceito, dizendo: “olha, para nós negras é de outro jeito”; eu chego, com o transfeminismo, e digo: “pois, para nós, tem outra diferença”.

CC – Você também fala da dificuldade de se olhar no espelho num sentido simbólico, usando o termo ‘corporalidades’ em vez de ‘corpo’. Poderia falar um pouco mais sobre o uso proposital de expressões no feminino?

LCN – No livro, algumas expressões usadas classicamente no masculino, opto por utilizar no feminino, como ‘sujeita’ e ‘corporalidade’, ao invés de ‘corpo’. Porque as feministas já perceberam que a gramática é uma construção machista. Então, percebe-se a importância de subverter a linguagem, em vários momentos, renomeando alguns desses termos. Por isso uso ‘outreridades’ ao invés de ‘o Outro’; por isso uso ‘sujeita’ ao invés de ‘sujeito’; ou ‘corpa’ e ‘corporalidade’, ao invés de ‘corpo’. São táticas linguísticas para marcar a importância de usar, no feminino, termos que se referem à nossa identidade feminina.

E para mim, que sou travesti, isso é muito caro, porque a transexualidade existe como fenômeno masculino, homens trans, e como fenômeno feminino, mulheres trans. Todavia, a travestilidade demanda ser tratada no feminino, ao menos que seja uma travesti não-binária, que solicita a utilização do gênero neutro. Mas via de regra, historicamente, as travestis reivindicam o tratamento com o pronome feminino. Inclusive é algo extremamente ofensivo tratar uma travesti com pronomes masculinos; e uma mulher transexual, também. Via de regra, é sempre importante manter a coerência no uso dos pronomes. Por isso que nas redes sociais é comum, em alguns perfis, as pessoas colocarem o seu nome e, entre parêntesis, colocarem a expressão ‘ela’ e ‘dela’ – para dizer que deve ser tratada no feminino – ou ‘ele’, ‘dele’ – para dizer que deve ser tratado no masculino – e ‘elo’, ‘delo’, para dizer que deve ser tratade com a linguagem neutra.

Então, essas formas de identificação estão emergindo na internet, nas redes sociais, para que a pessoa já sinalize, no próprio nome, como deve ser tratada. Até porque existem alguns nomes que não remetem imediatamente a uma identidade masculina ou feminina. Inclusive, em alguns momentos, já tenho inserido esse hábito. Quando alguém fala comigo pelo WhatsApp, se apresentando, e eu não conheço, geralmente pergunto – se penso que é uma identidade feminina: “devo te tratar no feminino ou você prefere a linguagem não-binária?”.

CC: Então é uma questão de respeito?

Porque a gente precisa entender como o outro se sente confortável em ser chamado. E também há uma confusão muito grande sobre o não-binarismo. Muitos acham que todas as pessoas trans querem ser chamadas a partir da linguagem não-binária. Na verdade, a linguagem não-binária é menos agressiva, sim – porque não presume o gênero de ninguém -, todavia, existem sujeitas que exigem ser tratadas no feminino. Eu não sou professorie, que seria professora na linguagem neutra. Sou professora. Então, exijo ser chamada de professora.

E não é nada contra a linguagem neutra. Inclusive, quando eu falo para um conjunto de professores e professoras, às vezes digo professories, para usar o gênero neutro. O gênero neutro entra como uma possibilidade de linguagem. Mas não é uma linguagem universal, porque não existe linguagem universal. É impossível estabelecer uma linguagem para todo mundo. Na verdade, a linguagem neutra pode ser utilizada em alguns contextos, mas existem outros contextos em que as sujeitas vão reivindicar ser tratadas no feminino ou os sujeitos no masculino.

Existem também discursos de muito ódio à linguagem não-binária, por isso a gente costuma sempre fazer sinalizações positivas à linguagem neutra, mas entendendo que é um processo de construção. Não dá para normatizarmos que o tempo todo vamos utilizar a linguagem neutra. Eu, por exemplo, no livro, uso tudo no feminino. Porque até poderia usar corpe ou outre, mas opto por usar outreridades, no feminino, e corpa ou corporalidade, também no feminino, porque entendo que há uma historicidade no uso do feminino que nós tanto reivindicamos dentro do feminismo.

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Roberto de Martin é jornalista mineiro de Matias Barbosa radicado em Brasília

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