Armário político: maioria dos partidos brasileiros falha em valorizar seus quadros LGBTI+

Um levantamento do movimento #VoteLGBT mostra que apenas 11 das 33 legendas brasileiras possuem setoriais LGBTI+

Congresso Nacional recebe iluminação especial para celebrar o dia do Orgulho LGBTI+. Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Congresso Nacional recebe iluminação especial para celebrar o dia do Orgulho LGBTI+. Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Diversidade,Política

De 33 partidos brasileiros, somente 11 possuem alguma página, setorial ou pelo menos menção aos LGBTI+ em seus canais de divulgação. É o que revela o dossiê ‘Comunidade LGBT+ e Partidos Políticos no Brasil’, divulgado pelo #VoteLGBT em parceria com a Casa1.

Segundo o levantamento, realizado em agosto, os partidos com setoriais LGBTQI+ são: Cidadania, MDB, PDT, PMN, PODE, PSB, PSDB, PSOL, PSTU, PT e SDD. E somente três siglas dão visibilidade à comunidade dentro de sites oficiais: PSOL, PSTU e PT.

Para Guilherme Mahallem, representante do #VoteLGBT, os partidos precisam enxergar potência nas candidaturas além do quociente eleitoral. “Em 2014, se você colocasse uma mulher negra em campanha eleitoral, essa campanha teria 10% da visualização em relação a outros vídeos do partido. Quatro anos depois, a Erika Hilton, uma mulher negra e trans, foi a mais votada no país”.

Em novembro de 2020, um levantamento da Aliança LGBTI+ contabilizou pelo menos 435 candidaturas LGBTI+. É o maior número de inscrições registrado até então. “Eles [os partidos] têm interesse nos votos da comunidade”, avalia Toni Reis, representante do grupo. Ele alerta, contudo, que nem sempre isso é sinônimo de inclusão e diversidade. “Inclusão é diferente de simplesmente ter uma pessoa LGBTI+ dentro [do partido]. Essa pessoa tem que ter voz ativa e poder de decisão.”

A invisibilização é uma das formas de LGBTfobia. Para um político LGBTI+ poder ‘sair do armário’ eleitoral, é necessário que os partidos ofereçam, além de espaço nas eleições, recurso e visibilidade.

Para o VOTE, é necessário lutar para que o ‘marcador’ LGBTI+ deixe de significar um desvalor dentro dos partidos. “Temos muitos políticos eleitos que não vão sair do armário nunca. Para eles, isso é um calcanhar de Aquiles”, lamenta Mahallem. “Reflete a velha política e a falta de espaço”.

Em junho deste ano, o governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite (PSDB) assumiu publicamente sua homossexualidade, mas pontuou: “Sou gay. Não sou um gay governador”. A declaração recebeu apoio de políticos e eleitores, mas também motivou críticas e ataques.

Tokenização e abandono de pautas

Além da falta de recursos e visibilidade, candidaturas LGBTI+ estão sujeitas à cooptação política. A expressão ‘Pink Vote’, usada nos EUA e na Europa, representa a parcela de eleitores cujo voto se orienta por sua sexualidade. Usualmente, esses votos são disputados pelos partidos somente durante as eleições. Depois, o interesse nas comunidades LGBTI+ desaparece.

Na visão de Guilherme Mahallem, mesmo com o aumento da participação de LGBTI+ na política, as pautas da comunidade ainda são rifadas pelos partidos em favor de outras alianças. “Ao mesmo tempo em que batemos recorde de candidaturas eleitas, tivemos o Feliciano na frente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Ele não chegou lá sozinho”, recorda.

A existência de setoriais ou coletivos específicos dentro dos partidos dificulta que pautas sejam ‘sequestradas’, pois há um espaço para o desenvolvimento pós-campanha.

Ainda segundo Guilherme, a invisibilização de candidatos eleitos mostrada no dossiê revela a ‘ponta do iceberg’ na violência que ocorre dentro das estruturas partidárias.

Para aprofundar ainda mais o tema, uma segunda pesquisa está sendo realizada pelo #VoteLGBT para mapear os obstáculos que membros da comunidade enfrentam na disputa política e quais questões atravancam candidaturas eleitas.

“Com esses dados, poderemos identificar o que influencia ou não na trajetória desses políticos. Se ser mulher, negro ou cis são novos ‘marcadores’. Queremos entender quais questões atravessam as candidaturas”, conclui.

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Estagiário de CartaCapital

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