A luta do único artista negro da Bienal de Florença para chegar à Itália

Com apoio online e de pessoas próximas, Deivison Silvestre pode realizar um sonho

A luta do único artista negro da Bienal de Florença para chegar à Itália

Diversidade

Deivison Silvestre, 32 anos, formado em Filosofia no Instituto de Filosofia, Arte e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), foi um dos artistas selecionados para a Bienal de Florença que aconteceu entre os dias 23 e 31 de outubro deste ano. O único negro a expor sua obra nesta edição de uma das maiores exposições de artes do mundo.

Pois é. Uma vitória que, infelizmente, também denuncia a profunda desigualdade racial que atravessa o campo das artes plásticas brasileiro e mundial.

Desde muito cedo, a arte entra em sua vida como ferramenta de superação. “Na infância, para fugir da fome, eu me divertia com arte. Para fugir das relações dramáticas familiares ou para celebrar, eu recorria à arte. Para responder às minhas paqueras e paixões na adolescência, eu me conectava com a arte, escrevendo poesias ou mandando pequenos desenhos de presente”, conta.

Deivison tem na sua avó materna um símbolo de resistência máxima. A Dona Eloá foi empregada doméstica, umbandista e era a matriarca de uma família extensa. Veio do Rio de Janeiro, negociou um terreno em Mariana e, em apenas um cômodo, sem energia elétrica e rede de esgoto, acolheu mais 14 familiares e 13 cães.

“No centro desse único cômodo, minha avó colocava um toco. Lá ela fazia as consultas dela. Eu me lembro da fila de pessoas desconhecidas, na porta de casa, aguardando para serem atendidas pelas suas entidades. E esse cômodo era completamente desenhado por mim com carvão vegetal. A gente tinha um fogão à lenha, então, eu tirava a madeira queimada do fogão e desenhava nas paredes daquele espaço”, explica.

Aos 16 anos, Deivison já era cartunista de um jornal local e também comercializava suas obras na praça da cidade. “Quando alguns turistas começaram a comprar minhas ilustrações e eu conseguia levar alimentos para casa, eu percebi que ali era uma forma de conseguir alguma dignidade e alimentar os meus”.

Sem dúvida, os bons encontros e a persistência levaram Deivison à Bienal de Florença. Mas, é importante dizer que não foi nada fácil.

Por não se sentir representado por uma vanguarda especifica, com o tempo, Deivison sente a necessidade de elaborar um conceito artístico próprio que fosse capaz de “desconstruir a metanarrativa da arte e da história da arte”. Desenvolveu o que chamou de Simiosofia: “símio” vem de primatas e faz alusão “à pulsão de desejos e emoções desmedidas”, e “Sofia” vem de sabedoria “enquanto paradigma de conhecimento histórico”. Segundo explica, o conceito é produto de um esforço filosófico para representar questões sociais nas artes plásticas.

Seu trabalho reproduz uma narrativa política da realidade que “nos tira da passividade dos sentidos e nos joga no estado ativo das emoções”. É, portanto, uma arte política ancorada no discurso existencial e conectada à luta antirracista. São obras que nos convidam à profunda desconstrução.

Um dos quadros expostos por Deivison Silvestre na Bienal de Veneza.

“Boa parte da minha família está presa ou morta e o que me impediu de ir pelo mesmo caminho não foi nenhum tipo de iluminação divina, mas o medo de morrer ou de ser preso. Eu só desejava um dia diferente de tudo aquilo que eu estava vivendo, que era tão ordinário, sabe. E para fugir dessa grande crise existencial, eu desenhava. É o que eu faço até hoje e espero que isso possa ser uma condição de possibilidade para outros jovens negros como eu”.

Nada é fácil para a pretos e pretas neste país. Essa foi sua segunda aprovação no evento. Em 2019, o artista foi admitido, todavia, sem verba e apoio suficiente, não conseguiu chegar à exposição. Em 2021, o sonho se realiza graças à Asante – uma produtora que oferece identidade visual, consultoria de marca e gerenciamento de redes sociais a um público alvo específico: artistas independentes negros e negras, LGBTQIA+ e/ou periféricos.

“A ideia é tecer redes entre os órgãos públicos, empresas e artistas. Conectar pessoas e ir construindo caminhos com as redes de contato que a gente tem para viabilizar um projeto que tem propósito. Nós, enquanto produtora estamos construindo uma nova realidade”, explica Paula Alves da Asante.

O apoio jurídico foi concedido pela ativista e advogada, Thaís Cossetti, que o acompanhou em viagem e concedeu suporte durante todo evento. “Nós somos pessoas que entraram e saíram da Universidade e dão uma finalidade social às suas profissões. O penoso disso tudo é que nós temos capacidade técnica, mas nenhum de nós tem condição, um pai rico ou dono de produtora. A gente só tinha nossos diplomas embaixo do braço e muita vontade de fazer isso dar certo”, conta Thais.

A Bienal é um sonho realizado e um dos passos mais significativos de sua carreira até aqui. Um sonho que ensejou muita luta, não apenas do Deivison, como também das pessoas que, com ele, abraçaram essa causa, entenderam sua relevância e, sobretudo, seu propósito transformador.

Deivison Silvestre representa muitos e muitas que, neste país, não têm a luta como opção. Conheçam esse gigante das artes visuais, valorizem seu trabalho. Uma arte genuína, promissora, “fora dos padrões mercadológicos” que converte dor em luta.

Lutar é terreno inseguro. Nem sempre o resultado é justo e nem sempre somos vitoriosos. Mas é ela quem nos move e permite esperançar por dias mais leves de se viver.

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Doutoranda em Relações do Trabalho, Desigualdades Sociais e Sindicalismo pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Mestra e Especialista em Direito do Trabalho pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Pesquisadora voluntária no Núcleo de Pesquisa e Extensão "O trabalho além do Direito do Trabalho: dimensões da clandestinidade jurídico-laboral" da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP). Advogada.

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