6 em cada 10 pessoas LGBT+ ficaram mais pobres durante a pandemia, mostra estudo

A independência financeira permite que LGBTI+ quebrem o ciclo de exclusão que muitas vezes começa dentro de casa

Crédito: Istock

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Diversidade,Economia

A comunidade LGBT+ brasileira chega ao mês do Orgulho com a saúde mental fragilizada, menos renda e sem o mesmo apoio do poder público. É o que diz o relatório ‘Diagnóstico LGBT+ na pandemia’, feita pelo coletivo VOTE LGBT+ em parceria com a consultoria Box1824.

Ao longo de dezoito meses de pandemia, 6 em cada 10 pessoas LGBTI+ tiveram diminuição ou perderam toda a renda. Entre as pessoas LGBT+ desempregadas, 6 de 10 estão há mais de um ano fora do mercado de trabalho. A ameaça do empobrecimento ronda até mesmo entre as pessoas LGBTI+ que possuem alguma renda: 41% afirmam não conseguirem sobreviver por mais de um mês caso perdessem sua fonte de renda.

Além disso, 4 em cada 10 vivem em lares com insegurança alimentar (quando não há acesso regular ou permanente a alimentação de qualidade). Entre a população transexual, quase 6 em cada 10 correm o risco de passar fome.

A pesquisa também registrou aumento significativo no sofrimento psíquico. Pouco mais da metade dos 7.709 entrevistados declararam que sua saúde mental em 2021 está pior do que em 2020.

Dependência financeira e o ciclo de exclusão

O acesso à renda é um dos fatores decisivos para mudar o curso do ciclo de exclusão das pessoas LGBT+. Por vezes, a exclusão começa na família, que leva ao abandono do ensino, à informalidade no mercado de trabalho e reforça cenários de violência, como a situação de rua e a insegurança alimentar.

Segundo o acadêmico Ilan Meyer, as pessoas LGBTI+ estão expostas aos processos sociais que podem ser ditos como “estresse das minorias”. Isso significa que são pessoas vivendo em alerta constante contra violências diversas, desde a psicológica à física.

Entre as pessoas LGBT+ desempregadas, 6 de 10 estão há mais de um ano fora do mercado de trabalho

Com acesso ao mercado de trabalho, esse ciclo por vezes se torna virtuoso. Ter poder aquisitivo permite que gays, lésbicas, bissexuais, transsexuais e pessoas de outras orientações e identidades abandonem lares violentos e estudem mais, o que favorece o crescimento profissional, dá mais acesso à saúde e facilita a ocupação de espaços políticos. Tudo isso resulta em mais direitos.

Ciclo de exclusão, Diagnóstico LGBT+ na Pandemia 2021

A importância do acolhimento

Para muitos, a independência financeira é fundamental para viver e comunicar abertamente sua sexualidade e expressão de gênero.

Com as restrições trazidas pela pandemia e o aumento da vulnerabilidade, a CasaUm, que atua desde 2017 no acolhimento de vítimas LGBT+ da violência familiar, teve que adaptar sua proposta de funcionamento. Normalmente, a instituição oferece lar temporário por quatro meses a jovens de 18 a 24 anos em vulnerabilidade. Agora, a acolhe jovens de classe média e mais escolarizados e que perderam sua fonte de renda principal.

Diante da piora na saúde mental, a clínica social da CasaUm também passou a atender mais gente. O número de atendimentos em 2021 triplicou: a média de 4 atendimentos semanais chegou a 15.

O projeto também retomar a ajuda a menos 30% dos egressos da CasaUm. “Ampliamos significativamente o nosso trabalho, principalmente de entrega de cestas básicas e higiene pessoal”, conta o fundador Iran Giusti.

Em 2020, foram mais de 900 cestas básicas entregues por mês para a população de rua, vulnerável e LGBT. Neste ano, são 560 cestas – das quais pelo menos 200 são destinadas para integrantes da comunidade.

Ciclo de inclusão, Diagnóstico LGBT+ na Pandemia 2021

Também preocupa a questão da pobreza menstrual, ligada diretamente à insegurança financeira: “Uma em cada vez pessoas que menstruam vivem em situação de insegurança e pobreza menstrual. Uma pessoa ter que escolher entre itens de higiene básica e alimentação é uma pauta preocupante”. Em parceria com o projeto Transformando o Período Menstrual (TPM), todas as cestas básicas distribuídas pela CasaUm agora também contêm itens de higiene básica.

Covid-19 e a vulnerabilidade LGBTI+

Para entender as diferenças entre a população LGBT e a sociedade em contexto de pandemia, o estudo criou o índice de Vulnerabilidade LGBT+ à Covid-19, que varia entre 0 e 1. Quanto mais próximo a 1, maior é a vulnerabilidade à Covid do grupo analisado. O VLC segue a mesma metodologia utilizada no cálculo do Índice de Vulnerabilidade Social (IVS), realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Os resultados apontam que a população LGBTI+ está classificada no nível grave de vulnerabilidade (acima de 0,5), com aumento de 16% no índice em relação ao ano passado, levando em conta renda e trabalho, exposição ao risco de Covid e o acesso a saúde.

O problema pode ser ainda maior

Por se tratar de uma pesquisa online, o Diagnóstico LGBT+ na Pandemia exclui pessoas sem acesso a rede e não-alfabetizadas, o que pode indicar que este grupo é ainda mais vulnerável do que o que indicam os dados. “Nós não temos dados sobre a população LGBT em geral no Brasil. Não há nenhum parâmetro para ver o quão distante os resultados estão da população geral”, pondera o pesquisador Samuel Araújo.

Ainda segundo o pesquisador, a única forma de “conseguirmos de fato da população LGBT e fazermos um mapeamento representativo” é o censo IBGE, que abrange todo o território brasileiro.

“Sem o Estado, sem o censo, é de fato impossível. Não temos a estrutura do IBGE, não temos capilaridade nem legitimidade. Enquanto o Estado não fizer o seu papel e levar em consideração que a gente também precisa ser caracterizado em relação a nossa identidade de gênero e orientação sexual, teremos sempre que trabalhar esses vieses, eles sempre vão existir”, conclui.

A implementação de políticas públicas para proteger a população LGBTI+ depende de dados que localizem a vulnerabilidade da comunidade e suas diferentes formas manifestadas no território nacional.

Em resposta a pressão do grupo VOTE LGBT+ e do coletivo ALL OUT, o IBGE anunciou que, mesmo após judicialização, não irá incluir perguntas sobre orientação sexual e de identidade de gênero no questionário de 2021. O que significará mais dez anos de novas políticas públicas sem estes dados.

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Estagiário de CartaCapital

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