Cultura

Vulto na janela

Inspirado em um best seller, ‘Trem-Bala’ dilui a cultura japonesa em troca da conquista de plateias globais

Fórmula. Astros como Pitt dão brilho a um elenco pautado pela diversidade e cenas de ação de tirar o fôlego. Tudo ao gosto do Ocidente - Imagem: Sony/Columbia Pictures
Fórmula. Astros como Pitt dão brilho a um elenco pautado pela diversidade e cenas de ação de tirar o fôlego. Tudo ao gosto do Ocidente - Imagem: Sony/Columbia Pictures
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O Shinkansen, famoso trem japonês de alta velocidade, viaja tão rápido que é difícil identificar pessoas ou lugares pequenos na sua rota. Em Trem-Bala, blockbuster da semana ambientado num desses veículos, é o próprio Japão que desaparece na aceleração das imagens.

O filme chega embalado pelo sucesso do romance de Kotaro Isaka, lançado em 2010 no Japão. Traduzido mundo afora, o livro vendeu mais que guioza num domingo no bairro da Liberdade, em São Paulo. Quem embarcou na sucessão vertiginosa de pontos de vista da versão literária de Trem-Bala pode sentir que algo se perdeu na tradução. Além da comparação desfavorável ao cinema que acompanha a maioria das adaptações, o filme dilui a identidade J-pop do texto de Isaka num caldo com sabor uniforme para plateias globais.

No lugar dos tipos extraviados dos filmes de Yakuza, entram os galãs Brad Pitt e Aaron Taylor-Johnson à frente de um elenco pautado pela ideia de representatividade. O afro-americano Brian Tyree Henry assume o papel de Limão, o atrapalhado matador de aluguel que faz dupla com Tangerina (Taylor-­Johnson). ­Joey King tem espaço como Prince, uma menina superpoderosa assassina. O ­rapper Bad Bunny é incumbido de espelhar o público hispânico. Enquanto os hollywoodianos Sandra Bullock e Michael Shannon aparecem poucos minutos para jogar para a plateia.

À exceção de Brad Pitt, os demais atores recitam as piadas como robôs e quebram a dinâmica entre ação e humor

A mistura de ação e comédia, fórmula experimentada pelo diretor ­David ­Leitch em Deadpool 2, depende das habilidades desiguais desse elenco. Enquanto Brad Pitt mostra total desenvoltura no papel de matador abobalhado, seus colegas têm uma comicidade robótica e reduzem as boas piadas prontas do roteiro a falas decoradas.

A habilidade de Leitch para dirigir cenas de ação, fácil de reconhecer desde os momentos de alta intensidade de Atômica (2017), fica descalibrada toda vez que os personagens têm de soar engraçados em meio à pancadaria. Pois ambos os efeitos têm ritmos próprios, que são diferentes. A combinação de violência com toques de humor absurdo era uma característica do romance de ­Kotaro Isaka. Para alguns, isso seria sinal do parentesco entre o romance e os filmes de Quentin Tarantino. Garantia de que a versão cinematográfica seria tiro certo, portanto.

Visto desse ângulo, Trem-Bala é uma cópia genérica de um Tarantino, mas sem o sabor que o diretor serve quando seu liquidificador de referências funciona bem. A ambição não é apenas reproduzir um estilo. O filme é um dos principais produtos de 2022 da Sony, nome do grande estúdio Columbia depois que o conglomerado japonês abocanhou a empresa hollywoodiana no fim dos anos 1980.

Público cativo. Os japoneses valorizam a produção local e não se deixam seduzir tão facilmente por Hollywood – Imagem: Toho Cinemas

Além de proprietária da franquia ­Homem-Aranha, cujo último título foi o maior sucesso de bilheteria do ano passado, a Sony assistiu de camarote ao desempenho do fenômeno Demon Slayer: ­Mugen Train. O blockbuster produzido pela Aniplex, um dos braços locais do conglomerado, bateu de longe o segundo lugar de 2020, um típico blockbuster global.

Enquanto Star Wars: A Ascensão Skywalker, produção da Disney lançada em dezembro de 2019, fez 7,3 bilhões de ienes no mercado japonês. Demon Slayer: Mugen Train, que chegou às salas em outubro de 2020, acumulou 36,5 bilhões de ienes. A expressiva diferença pode ser explicada, em parte, pelo lançamento no período de reabertura das salas, quando as máquinas de guerra hollywoodianas­ ainda não estavam prontas para renovar o ataque.

Os produtos culturais do Japão têm um mercado interno forte, mas não alcançam o sucesso internacional da vizinha Coreia

Mas esse contexto pontual oculta a peculiaridade do mercado japonês, onde as produções locais frequentemente superam o desempenho dos ­blockbusters globais ou correm no calcanhar deles. Em 2021, oito títulos japoneses ultrapassaram a bilheteria de Velozes & ­Furiosos 9, produção estrangeira com melhor desempenho lá. Muitos são animes, como os filmes das franquias Evangelion e ­Detective Conan, maiores sucessos locais no ano passado.

Isso demonstra a eficácia da sinergia entre os tentáculos da indústria local de entretenimento. Boa parte das produções líderes nas bilheterias é derivada do universo anime, que não se restringe à exibição na tevê. Os investimentos são, em geral, definidos por comissões de audiovisual que congregam distribuidoras, televisões e editoras de livros e mangás. Desse modo, os projetos para o cinema tendem a ser extensões de conteúdos ou versões multiplataforma de universos que têm um público fidelizado. Essa hegemonia local, contudo, ainda não se traduz em termos de conquistas transnacionais, como as obtidas pela Coreia do Sul. O concorrente asiático tem expandido seu soft power com filmes como ­Parasita (2019), a série Round 6 (2021), os doramas e as bandas de K-pop. O Japão, por sua vez, tem tradição maior no nicho que valoriza a identidade cultural, o estilo inconfundível dos ­animes e dos mangás, por exemplo.

Trem-Bala tenta furar essa bolha, sobrepondo elementos locais e globais. O romance adota um sotaque de humor que as plateias ocidentais identificam. A versão cinematográfica tem tipos do mundo todo inseridos numa ambientação nipônica onde se misturam futurismo e tradição, máfia local e bandidagem internacional. A fórmula pode agradar a quem acha uma delícia comida japonesa de praça de alimentação. O público que prefere algo mais singular só vai encontrar referências fugazes passando velozmente pela janela. •


AS CORES DO JAPÃO

Três romances, três maneiras diferentes de se aprofundar na literatura do país
por Kelvin Falcão Klein 

De longe, a floresta parece uma indistinta massa verde. De perto, à medida que passeamos entre os troncos e observamos as folhas mais de perto, a infinita diferença vem à superfície. A metáfora aplica-se ao contexto literário: é sempre muito instrutivo ler, em sequência, livros variados de um mesmo país. Nota-se, a partir do conjunto, o quão artificial e frágil é toda divisão por nacionalidade.

Três livros recentemente lançados no Brasil mostram um Japão muito distante dos clichês tradicionais das gueixas, dos samurais e dos jardins de cerejeiras. O primeiro deles é bombástico e vertiginoso: Trem-Bala, de Kotaro Isaka, escritor de sucesso e ampla vendagem em seu país, até agora inédito por aqui.

A história se passa em uma viagem entre Tóquio e Morioka, com cinco personagens principais que se alternam no foco narrativo: o psicopata Satoshi, o pai desesperado Kimura, o assassino Nanao e a insólita dupla Tangerina e Limão. Os diá­logos são rápidos, mordazes e, por vezes, enigmáticos. Revelam tramas sobrepostas que jogam com o absurdo, o thriller e o noir. A dinâmica do romance, pautada na ação e no suspense, mostra com clareza como o autor está sintonizado com o gosto contemporâneo, sobretudo das novas gerações – um fenômeno que transcende as fronteiras nacionais. Não por acaso, Trem-Bala foi adaptado para o cinema.

TREM-BALA. Kotaro Isaka. Tradução: André Czarnobai. Editora Intrínseca (464 págs., 69,90 reais)

BELEZA E TRISTEZA. Yasunari Kawabata. Tradução: Lídia Ivasa. Estação Liberdade (288 págs., 63 reais)

O MARINHEIRO QUE PERDEU AS GRAÇAS DO MAR. Yukio Mishima. Tradução: Jefferson José Teixeira. Estação Liberdade (176 págs., 54 reais)

O contraste é nítido diante de Beleza e Tristeza, último romance escrito pelo Nobel de Literatura de 1968, Yasunari ­Kawabata, recém-lançado no Brasil pela Estação Liberdade. A primeira diferença com relação a Trem-Bala está no número de personagens. Kawabata retorna ao clássico padrão do casal e do relacionamento – e acrescenta à receita um intervalo de tempo de 20 anos, decisivo para a construção do enredo. O protagonista do romance é Oki Toshio, escritor, que vê em uma revista a fotografia de uma mulher com quem se relacionou no passado, Otoko ­Ueno, e decide reencontrá-la.

A trama faz pensar em filmes como Breve Encontro (1945), de David Lean, a trilogia de Richard Linklater (Antes de Amanhecer, Antes do Anoitecer e Antes da Meia-Noite), ou mesmo Desejo e Reparação (2007), de Joe Wright, baseado em romance de Ian McEwan). Kawabata oscila entre dois questionamentos igualmente profundos, que nunca são diretamente apresentados, mas regem toda a movimentação dos personagens: que elementos do passado são decisivos para a constituição do presente? Qual a lógica que rege a permanência de certos eventos na memória?

O ambiente geral evocado por essas perguntas está presente também em O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar, de Yukio Mishima, outro lançamento da Estação Liberdade. O paralelismo de Kawabata – homem e mulher – é mantido por Mishima, mas agora no registro das estações, “inverno” e “verão”, que dão os nomes às duas partes do romance.

Acompanhamos parte da vida do marinheiro Ryuji Tsukazaki, embarcado em um navio cargueiro que viaja em direção ao Brasil, ao Porto de Santos. Por mais que o mar seja sempre o mesmo, cada viagem é única, com suas exigências, perigos e surpresas. Ao aprofundar o paralelo entre inverno e verão, Mishima apresenta também – de forma sutil e poética – a ambivalência que regula a vida do marinheiro: entre terra firme e trabalho a bordo, entre deriva solitária e trabalho coletivo. Uma terceira polaridade é acrescentada, e na articulação desses planos reconhecemos a maestria de Mishima: o marinheiro se casa com a mãe do jovem Noboru, que, à frente de seu grupo de amigos (uma espécie de confraria secreta), levará o romance até seu surpreendente final.

Da intensidade de Trem-Bala, passando pela evocação das marcas do passado em Beleza e Tristeza, chegando ao experimento de erotismo e violência latentes de Mishima, reconhecemos, no percurso, os detalhes de uma floresta variada e inesgotável. Com frequência, as categorias que inventamos – “literatura brasileira”, “literatura japonesa” – nos ajudam a organizar a caravana aleatória de estímulos que recebemos todos os dias. Em alguns momentos, contudo, pode ser enriquecedor procurar um caminho que nos afaste da generalização e nos leve às revelações do particular.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1220 DE CARTACAPITAL, EM 10 DE AGOSTO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Vulto na janela “

Cássio Starling Carlos

Cássio Starling Carlos
Crítico de cinema, pesquisador de história do audiovisual e curador. Escreve para a edição semanal impressa de CartaCapital.

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