Cultura

Vozes importantes mostram a sonoridade ainda oculta da Amazônia

Músicos formados no Amapá, Patrícia Bastos, Enrico Di Miceli e Joãozinho Gomes apresentam em álbum ritmos da região

 Enrico Di Miceli, Patrícia Bastos e Joãozinho Gomes. Foto: Divulgação
Enrico Di Miceli, Patrícia Bastos e Joãozinho Gomes. Foto: Divulgação

Os paraenses Enrico Di Miceli e Joãozinho Gomes estão radicados há décadas em Macapá. Patrícia Bastos é amapaense que quando criança saía às ruas nos festejos e ouvia uma sonoridade pouco conhecida no Sul e Sudeste, mas forte e exuberante.

No Amapá, essa sonoridade reúne batuque, marabaixo, kasékò e zouk. Pois são esses ritmos que se apresentam no álbum Timbres e Temperos, do trio que representa na música o melhor do estado.

Os três já se conheciam faz tempo e tocaram várias vezes juntos, mas nunca tinham se reunindo para gravar um disco. Agora ele sai com repertório de dez inéditas. O trabalho é dedicado a Luli e Lucina – o trio sofreu influências da dupla musical ao longo da carreira.

Patrícia Bastos já fez duo com grandes artistas do eixo Rio-São Paulo-Minas, seus trabalhos foram indicados a prêmios da música e ano que vem ela lança seu sétimo álbum, a Voz da Taba, completando a trilogia, iniciada com Zulusa (2013) e Batom Bacaba (2016).

Enrico Di Miceli, um dos grandes compositores do universo amazônico, tem parceiros musicais do primeiro time da MPB, assim como Joãozinho Gomes, poeta considerado como um dos maiores hoje da região Norte. Patrícia grava ambos em seu trabalho desde sempre.

Quilombos

“O disco remete às festas populares e religiosas do Amapá, fala de culinária, das lendas, da grandeza da floresta, dos rios”, diz a cantora sobre o álbum. Dos ritmos existentes no trabalho, Patrícia Bastos explica que é preciso lembrar dos negros que chegaram ao estado há séculos.

“O marabaixo é uma música de lamento, trazido pelos escravos durante a viagem”, explica. “Mas hoje não é mais só lamento”.

Cita-se que o Amapá conta hoje com dezenas de comunidades quilombolas. Foi por meio delas que o chamado batuque de curiaú se estabeleceu. “Retrata o cotidiano, transmitido pela oralidade. São músicas alegres”, afirma a cantora.

Outra forte influência no estado é da música de fronteira, que vem principalmente da vizinha Guiana Francesa. “Ela entrou no Amapá pelo rádio. Era muito executada nas ruas e festas”.

Esses ritmos guianenses são o zouk e o kasékò. Este último, Patrícia Bastos conta que é mais conhecido hoje, comercialmente, como lambada internacional.

“O disco (Timbres e Temperos) é mais um grito para que o Brasil nos ouça e passa a dar mais atenção a toda riqueza plural em torno da Amazônia. Para que as pessoas possam conhecer, para ver o que tem de bonito”, afirma.

Enrico Di Miceli ressalta a importância de ter contato com as múltiplas sonoridades amazônicas e os ritmos de influência africana que existem no Amapá: “São as nossas maiores expressões culturais, e é nossa obrigação usarmos esses ritmos como matéria-prima para as criações, assim como difundi-las com a obra concluída”.

Já Joãozinho Gomes afirma que o estado abriga grande parte dos elementos do universo sonoro amazônico. “Universo ainda desconhecido, há muito pedindo passagem para ser visto e ouvido por todos os olhos e ouvidos. Por isso, a importância de nossas músicas serem feitas a partir dos nossos ritmos autóctones”.

Timbres e Temperos conta com a direção musical e arranjos do Dante Ozzetti, que contou recentemente a CartaCapital suas experiências musicais no Amapá – a matéria está disponível aqui.

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