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Visita ao lado sombrio da IA

Karen Hao revela a lógica de uma indústria que explora a mão de obra e os recursos naturais do Sul Global

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Estrutura. Os data centers consomem energia, água e geram impactos gigantescos em regiões que já sofrem com a crise ambiental – Imagem: Ilustração: Pilar Velloso e Midjourney v.7
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Em 2023, quando se encontrou pela primeira vez com a jornalista Karen Hao, ­Winnie trabalhava como alimentadora de dados de chatbots­ em Nairóbi, no Quênia, para treinar sistemas de Inteligência Artificial (IA). Ela tinha 40 e poucos anos e chegava a trabalhar 22 horas seguidas em troca de centavos por hora. Comemorava quando atingia 10 dólares, o suficiente para sustentar a família por um dia.

Foi a partir do contato com figuras como Winnie que Karen viu a materialização do que ela define como a “lógica imperial” da IA: a exploração de trabalho sob um discurso de avanço tecnológico. Enquanto o poder econômico e intelectual se concentra no Vale do Silício, os recursos naturais e a mão de obra barata são extraídos de países do Sul Global – o Brasil incluído.

Winnie é uma das 260 pessoas entrevistadas por Karen em O Império da IA, livro que a Rocco acaba de lançar no Brasil. Nele, a autora disseca a dinâmica predatória dessa indústria. Além de entrevistar trabalhadores e executivos, ela analisou um vasto volume de documentos, correspondências e e-mails.

O resultado é uma visão abrangente – e bastante negativa – sobre os impactos econômicos, políticos, climáticos e humanos da IA. Embora anteveja mais destruição do que construção, ela enxerga também um contra-ataque ao Império. “Os movimentos de resistência e os protestos estão crescendo”, diz Karen.

“A estrutura do trabalho é sempre desumana, mal paga e dependente de longas horas diante do computador”

A autora conversou com CartaCapital durante sua passagem pelo Brasil, na semana passada. Ela veio ao País para divulgar o livro e participar de um evento vinculado à Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo.

CartaCapital: Lendo seu livro, que versa sobretudo sobre a história da OpenAI e seu cofundador Sam Altman­, fiquei com a sensação de que há uma interpretação errada das pessoas sobre a IA.
Karen Hao: Há dois grandes equívocos. O primeiro é que a maioria das pessoas conheceu a IA por meio do ChatGPT e passou a acreditar que modelos de linguagem representam todo o potencial da IA. Mas a IA é um conjunto vasto de tecnologias muito diferentes entre si. O segundo equívoco é imaginar que essa geração de IA não depende de trabalho manual. As empresas alimentam esse mito de que os sistemas aprendem sozinhos, mas, quando percebem que existe uma cadeia física oculta, as pessoas começam a enxergar a exploração do trabalho, os danos ambientais e os impactos à saúde pública surgidos de um modelo de IA extremamente intensivo em recursos.

CC: Como se dá esse trabalho físico e como você o descobriu?
KH: Descobri esse trabalho oculto graças ao livro Ghost Work, de Mary Gray e Siddharth Suri. Fiquei chocada. Passei anos entrevistando esses trabalhadores para entender quem eram, onde viviam, como trabalhavam. Percebi que, independentemente do país ou da empresa, a estrutura do trabalho é sempre a mesma: profundamente desumana, mal remunerada e dependente de longas horas diante do computador. Os impérios da IA desvalorizam o trabalho humano, a ­expertise e a experiência. É um extrativismo nos moldes coloniais. Mesmo sendo essencial para o desenvolvimento das tecnologias, esse trabalho não tem uma remuneração compatível com seu real valor. E não surpreende que, ao serem implantadas na sociedade, essas tecnologias também afetem o mercado de trabalho – elas são construídas sobre a desvalorização do trabalho. Não faz sentido que pessoas como Winnie, do Quênia, trabalhem por centavos, enquanto pesquisadores de IA recebam pacotes milionários. Isso revela uma ideologia hierárquica corrosiva, que mina as bases da democracia. Países do Sul Global, como Quênia, Colômbia e Brasil, são os mais explorados. É nesses lugares que as empresas terceirizam as tarefas mais duras e tóxicas.

Tese. “É a lógica dos impérios: extrair da maioria para concentrar poder econômico e político em poucos”, diz Karen Hao – Imagem: Shoko Takayasu

CC: A IA não é neutra?
KH: A falta de neutralidade aparece em dois níveis. Primeiro, na economia política que essas tecnologias reforçam, aprofundando desigualdades históricas. Segundo, nos próprios modelos, que carregam discriminações porque são treinados com dados históricos. Eles acabam reproduzindo – e às vezes amplificando – as piores partes da nossa história. Os Estados Unidos, por exemplo, concentram grande parte dos benefícios da indústria, que fica nas mãos dos bilionários da tecnologia. Vimos Elon Musk ser considerado o primeiro trilionário do mundo, enquanto a maioria dos norte-americanos enfrenta uma crise de custo de vida. É a lógica dos impérios: extrair da maioria para concentrar poder econômico e político em poucos.

CC: Qual dos custos ambientais da IA a preocupa mais?
KH: A escalada dos novos data centers. As pessoas sabem que a internet moderna depende deles, mas não percebem que os data centers de IA são de outra ordem de magnitude. A Meta está construindo uma instalação na Louisiana que é quase 400 vezes maior que seu primeiro data center, de 2011, e é equivalente a um quinto da área de Manhattan. A OpenAI negocia um campus de 10 gigawatts em Ohio. Esse é o consumo de energia combinado de Nova York, São Francisco e Los Angeles. Essas estruturas consomem energia, água e geram impactos ambientais gigantescos. Há, em alguns lugares, comunidades que, literalmente, competem com computadores por recursos essenciais, como água.

CC: O Brasil tem demonstrado interesse em atrair data centers…
KH: Não é uma decisão positiva. As empresas de IA têm buscado regiões no País que já são afetadas por crises climáticas, com enchentes e secas, e vendem os ­data centers como “salvação econômica”. As comunidades locais nem sabem que essas instalações serão construídas e, muito menos, o quanto de seus recursos serão usados para isso. É um processo nada transparente, que desconsidera o interesse público.

CC: Como a senhora compara as falhas de governança entre EUA, China e outros países?
KH: Os EUA praticamente não regularam a IA, o que é uma falha enorme. A União Europeia tem o EU AI Act, que é promissor. A China implementou regulações significativas. Elas não foram motivadas por razões democráticas, mas algumas são sensatas. Por isso, o ecossistema chinês evolui de forma bem diferente do norte-americano.

“Os modelos acabam reproduzindo – e às vezes amplificando – as piores partes da nossa história”

CC: A senhora cobriu extensivamente as big techs. Que padrões se repetem em Meta, Google, OpenAI?
KH: A indiferença aos direitos humanos, à saúde do planeta, às comunidades e à democracia. Os danos são semelhantes em todos os lugares.

CC: Como a indústria está afetando a pesquisa de IA?
KH: A indústria de IA tornou-se a principal financiadora da pesquisa científica em IA, o que permite que empresas direcionem agendas e silenciem estudos inconvenientes. Temos o caso da doutora Timnit Gebru, contratada pelo Google para criticar a abordagem da empresa e demitida quando fez isso bem demais.

CC: A OpenAI foi criada para ser uma organização sem fins lucrativos e virou uma máquina de lucro. O que aconteceu no meio do caminho?
KH: A meta de não ter lucro nunca foi sincera. No livro, cito e-mails dos fundadores mostrando que a missão de não ter fins lucrativos era uma estratégia de marketing para conquistar apoio público, enquanto buscavam derrotar o Google­ e dominar o setor. Quando essa narrativa deixou de ser necessária, ela, simplesmente, desapareceu.

CC: Se a senhora escrevesse uma continuação do livro, que tendência emergente exploraria?
KH: O uso crescente de tecnologias de IA pelo setor militar. Isso é algo que reduz a diferença entre os impérios de hoje e os impérios violentos do passado. E exploraria também o florescimento de movimentos de resistência: protestos contra data centers, ações de artistas e escritores por direitos autorais, pais processando empresas por danos psicológicos e trabalhadores se organizando contra a exploração. Esse movimento de base é uma das ações mais importantes do momento. •

Publicado na edição n° 1421 de CartaCapital, em 15 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Visita ao lado sombrio da IA’

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