Cultura

Crônica do Villas

Virando o disco

por Alberto Villas publicado 24/05/2012 14h37, última modificação 06/06/2015 18h59
"Vivíamos o começo de uma pequena revolução tecnológica e me convenceram que não tinha mais sentido ocupar aquele espaço enorme na sala da minha casa com vinis que rapidinho iriam ficar ultrapassados e desaparecer do mapa"
sebo vinis LP

"Um belo sábado o dono do sebo apareceu lá em casa para levar todos os meus discos de vinis. Era uma estante inteira". Foto: Flickr/eenwall (Creative Commons)

Era uma segunda-feira, lembro-me como se fosse hoje. Uma segunda de janeiro, de chuva, bem cedo, quando o interfone do meu apartamento tocou.

- É o Messias!

Foi assim que o porteiro do meu prédio anunciou a chegada do Messias, dono de um dos maiores sebos de São Paulo. O porteiro deve ter se perguntado: mas que diabo veio fazer o Messias aqui tão cedo? Eu sabia. Dois dias antes havia ligado para sua loja no centro da cidade e anunciado que estava disposto a me desfazer de dez mil discos de vinil, uma parede inteira da sala, todos eles arrumadinhos de A a Z. De Abel Silva a Zezé Motta - a parte nacional - e de Alpha Blondy a ZZ Top, a ala internacional.

Sabendo das minhas preciosidades, Messias apareceu cedo disposto a arrematar tudo, até mesmo os onze Long-Plays da Yoko Ono que ninguém ousava escutar, somente eu. Claro que na véspera havia separado alguns que considerava não ter preço. O primeiro disco que comprei na Lojas Gomes, avenida Afonso Pena, Belo Horizonte, ao lado do Correio, assim que recebi o primeiro salário. Era o LP Domingo em que Caetano cantava Coração Vagabundo ao lado de Gal. Coloquei de lado o Sgt. Peppers dos Beatles, o Beggar’s Banquet dos Rolling Stones e o Louco por Você onde Roberto Carlos canta com voz de João Gilberto. Separei também o João Gilberto cantando Besame Mucho, o Renato Teixeira de Romaria e o Chico cantando que “aqui na terra estão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock and roll”.

Isso sem contar o primeiro do Pink Floyd, o primeiro da Janis Joplin, um do Yes, um do Pablo Milanês e o do Bob Dylan cantando Like a Rolling Stone. Isso era tudo que iria ficar, o resto ia embora sem pensar duas vezes, sem dó nem piedade. Ah, ficou também o discobjeto Transa do Caetano cantando Nostalgia e Mora na Filosofia. O resto iria embora numa Kombi meio caída de cor azul calcinha que já estava estacionada na porta do prédio. Inclusive os Miles Davis, os Jimi Hendrix, os Jerry Lee Lewis, os Bee Gees e todos os Ronnie Von, inclusive aquele que ele canta Pra Chatear com o Caetano.

Vivíamos o começo de uma pequena revolução tecnológica e me convenceram que não tinha mais sentido ocupar aquele espaço enorme na sala da minha casa com vinis que rapidinho iriam ficar ultrapassados e desaparecer do mapa.

- Nem agulha você vai mais encontrar para sua vitrola!

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Quando me disseram isso veio um frio na barriga e resolvi me desfazer daqueles discos todos, inclusive a coleção completa dos Mamas & Papas, dos Doors, dos Monkees e dos Hermans Hermits. Foi tudo embora. Messias deu uma olhada geral, anunciou o preço, topei e ele começou a enfiar todos eles em caixas de papelão, fora de ordem para o meu descontentamento e espanto. Paulinho da Viola que vivia na boa ao lado do Paulinho Boca de Cantor, Jorge Ben que conviveu ali anos quietinho ao lado de Jorge Mautner, João Bosco ao lado de João do Vale, Walter Alfaiate coladinho a Walter Franco, Tom Jobim com Tom Zé, Vinícius de Moraes juntinho do Vinícius Cantuária, aquele sonho tinha acabado. Cheguei a ver numa caixa do Messias Adoniran Barbosa ao lado do Queen e Louis Armstrong pertinho de Amelinha, imagine só.

Messias ficou bem uma hora, uma hora e meia na minha casa para conseguir enfiar os vinis nas caixas de papelão, descer tudo pelo elevador de serviço e arrumar dentro da Kombi azul calcinha. Minha sala, de repente foi ficando branca, vazia, esquisita. Quando ele levou a última caixa e percebi que havia ficado num canto aquela vitrola Technos meio solitária, negociei e ele acabou arrematando também aquele trambolho. Pensando bem o que iria fazer com um aparelho que nem agulha mais iria ter para comprar?

A estante foi desmontada no dia seguinte e eu estava pronto para começar aos quarenta anos uma vida nova, a era do compact-disc como chamávamos o cd. Aos pouquinhos fui refazendo minha discoteca só que agora ocupando muito menos espaço. Comprava um Alceu aqui, um Chico ali, um Gil, uma Elis, uma Sarah Vaughan, um Count Basie, um Charlie Parker, uma caixinha de Dorival, uma coleção de Noel, e assim foi. Quando batia saudade ia a Feira da Benedito Calixto e comprava um vinil do bom e velho Tim Maia mas mais pra curtir, pra decorar.

Vinte anos depois cá estou aqui no meu escritório rodeado de cds por todos os lados, acho que mais de dez mil. Todos em ordem alfabética que agora vão de Adriana Calcanhoto a Zizi Possi e de Ali Farka Toure a Wendo Kolosoy. E o que é pior, na dúvida se desfaço de tudo ou não. Fiquei na dúvida quando minha filha disse que poderia colocar tudo isso dentro de um aparelhinho do tamanho de uma caixa de fósforos, organizadinhos de A a Z.

Há dois dias não durmo direito. Acordo no meio da noite tendo pesadelos com o bom e velho Messias encaixotando meus cds, inclusive os que mais gosto. Chico César cantando De uns tempos pra cá, o Trio Esperança cantando Impossível acreditar que perdi você, Wilson Batista cantando Não sei dar adeus, o MPB4 cantando Lamento, os Beatles cantando Help e João Gilberto cantando Chega de saudade.