Videoclipe pós-MTV ganha no YouTube muitos atores e novas tensões

Livro relata a transformação da música no ambiente digital e as pressões do meio artístico em opinar sobre vários temas

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Cultura

Foi a MTV que tornou o videoclipe relevante na indústria da música. No Brasil, a emissora de TV se consolidou no início dos anos 1990. Com a internet, porém, o canal de música teve que se reposicionar. A circulação de videoclipes tinha migrado para o meio digital.

O YouTube chegou no Brasil em 2007 e logo cresceu. O País tornou-se o segundo maior usuário da rede social no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. De videoclipes amadores a altamente profissionais, patrocinados por agentes da indústria, passaram a conviver no mesmo ambiente.

O livro Música Pop-Periférica Brasileira – Videoclipes, Performances e Tretas na Cultura Digital (Editora Appris), de Simone Pereira de Sá, publicado recentemente, fruto de um trabalho acadêmico, relata como o videoclipe na internet rompeu o que até então existia, com as gravadoras controlando a produção de filme ilustrativo de curto tempo de uma música.

Ela intitula videoclipe pós-MTV nesse novo ecossistema. A obra mostra como o ambiente consolidou uma rede de música que ela chama de pop-periférica, que seria composta por gêneros que surgiram na periferia das cidades e interior do País, como funk carioca, tecnobrega do Pará, brega recifense, forró eletrônico no Nordeste, arrocha de Salvador e o sertanejo.

O YouTube como mediador desse novo tempo acabou influenciando mudanças na indústria. Simone Pereira de Sá observa como vídeos produzidos de forma autônoma, por produtores locais e regionais, com recursos limitados (vídeos filmados às vezes com celular), alcançou audiência de milhões.

Isso deu vida própria a vários projetos. O caso mais emblemático é do Kondzilla, de funk, que por muito tempo figura com um dos canais do YouTube no mundo com maior audiência.

Anitta

A autora discorre que muitos desses gêneros pop-periféricos se fundiram por conta do YouTube visando conquistar público (e mercado). O brega-funk é um exemplo. A participação de artistas em videoclipes de outros artistas – os chamados feats – também tornou-se rotina, mesmo que eles sejam de gêneros diferentes.

Ela exemplifica o trabalho de Anitta, que teve que enfrentar várias controvérsias ao longo da carreira, inclusive com seus videoclipes. A reconfiguração da relação entre ídolos e fãs, por conta das redes sociais, ao mesmo tempo em que favoreceu a cantora em algumas questões a colocou em saia justa em outras.

Com tanta exposição nas redes, um dos desafios hoje do artista é gerir o chamado “capital solidário”, relacionado ao apoio a campanhas de cunho político, social, humanitário e ambiental. Ao artista não basta hoje apenas compor e cantar, mas discutir apoio a causas.

Anitta talvez seja atualmente o maior exemplo dessa mudança e necessidade de posicionamentos cada vez mais claros dentro do pop-periférico – e até mesmo na indústria da música como um todo.

A exaustão da mediação política pelos meios tradicionais impulsiona o debate de vários temas a personalidades do meio artístico. Além do mais, a atuação frequente na rede social tem transformado o artista em influencer, o que o leva invariavelmente a pressão de opinar sobre várias questões. A obra é uma boa análise desses novos tempos da indústria da música.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

Compartilhar postagem