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Valores e crenças reafirmados

McCartney e Madonna produzem seus melhores trabalhos em décadas: The Boys of Dungeon Lane e Confessions 2

Valores e crenças reafirmados
Valores e crenças reafirmados
Astros pop em plena forma. Aos 84 anos, o ex-Beatle volta-se às memórias e ao íntimo. Madonna, aos 67, defende a dance music como um antídoto contra o isolamento – Imagem: Redes Sociais
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Enquanto os algoritmos dos serviços de streaming priorizam o formato de singles e músicas curtas, dois astros da música pop apostaram em trabalhos que vão na direção oposta, produzindo seus melhores discos em décadas.

Madonna e Paul McCartney lançaram, ela na sexta-feira 3 e ele em maio, álbuns conceituais que trazem músicas alinhadas em torno do mesmo tema e são feitos para ser ouvidos na íntegra. ­Madonna foi ainda mais radical: fez um disco sem intervalo entre as faixas.

Os dois trabalhos também têm em comum o fato de mergulhar na história de vida de cada um dos artistas.

Confessions 2, de Madonna, é uma continuação de Confessions on a ­Dance Floo­r (2005), retomando, depois de um hiato de 20 anos, a parceria bem-sucedida com o produtor Stuart Price. As canções, cujos versos giram em torno da ideia de “pista de dança”, tão constitutiva de sua carreira, abordam questões que permeiam sua obra desde o primeiro disco: liberdade de expressão, diversidade, comunidade, tabus e prazer.

Em The Boys of Dungeon Lane, Paul McCartney também mergulha na própria biografia. Em todas as faixas, ­McCartney relembra sua infância e adolescência em Liverpool, cidade onde nasceu e formou os Beatles. Sua ideia, disse ele em entrevistas concedidas à imprensa internacional, era fazer um disco “honesto”, que refletisse seus 84 anos, mas que não fosse saudosista.

O disco soa, porém, nostálgico. No caso de Madonna, o resultado é, ao contrário, um manifesto de resistência contra o excesso de individualismo contemporâneo.

Lançado depois de vários álbuns esquecíveis, feitos com produtores do momento, Confessions 2 está sendo considerado um “renascimento estético”, com forte presença da música eletrônica. O produtor Price disse que a decisão de Madonna de unir todas as faixas teve o objetivo, justamente, de evitar que as músicas fossem escolhidas aleatoriamente para playlists.

Nesta viagem musical contínua, de mais de 60 minutos, a cantora, aos 67 anos, usa a autorreferência como linguagem artística, mergulhando na própria história para renovar a dance music. Ela dá, assim, um chute no etarismo e no conservadorismo.

A faixa Bring Your Love, um dueto com a jovem Sabrina Carpenter, tem citações do antigo hit Express Yourself (1989); Danceteria remete a Vogue (1990) e tem corinho de “tchu tchu tchu tchu” saído direto de Walk on the Wild Side, de Lou ­Reed, que ganhou um crédito póstumo entre os autores da canção.

Já My Sins Are My Saviour conta com bases que remetem a Erotica (1992); e ­Betrayal tem um pezinho na cozinha de Bedtime Stories (1994). À medida que o álbum avança, baladas como Fragile, sobre o irmão morto em 2024, ou L.E.S. Girls, sobre seus primeiros anos em Nova York, acentuam o caráter do trabalho como ponto de inflexão e reflexão sobre sua carreira e de reafirmação de suas crenças.

Na contramão dos singles, eles apostam em discos para serem ouvidos de ponta a ponta

Em entrevista à Vogue ­italiana, ­Madonna criticou a “política dos ­smartphones”, que leva cada um a se isolar em sua própria pista de dança. Para ela, a pista de dança é um lugar ritualístico, de libertação, de trocas espirituais e simbólicas: “A dance music é um antídoto contra o isolamento”. A artista também afirmou que ao fazer o álbum não pensou em seu sucesso, mas na liberdade artística.

Mas dificilmente o álbum deixará de atingir o topo das paradas. Nas últimas semanas, Madonna tem sido onipresente: fez um pocket-show surpresa na ­Times­ Square, em Nova York, nas celebrações do Orgulho Gay; participou dos principais programas de entrevista dos EUA e da Europa; lançou um curta-metragem musical ambientado em um banheiro masculino com participação dos atores Benedict Cumberbatch, Richard E. Grant, da modelo Kate Moss e do jogador brasileiro João Pedro, do Chelsea.

Madonna modificou até a rotina do metrô paulistano. A Estação Sé passou o dia à meia-luz, com iluminação violeta, destacando cartazes com a imagem do álbum. E, no domingo 19, ela participará do show de encerramento da Copa do Mundo da Fifa 2026, no MetLife ­Stadium, durante o intervalo da partida.

Se o disco de Madonna vem carregado de clamor pela coletividade de uma pista de dança, o de McCartney parece querer nos levar a olhar para dentro.

“Este disco sou só eu, sem personagens”, disse ele, em entrevista recente. As músicas, que conversam entre si e que ele espera que sejam ouvidas em ordem, têm um caráter mais introspectivo. A crítica descreveu o disco como sensível, emotivo e o melhor do artista deste século. Mal saiu, foi para o primeiro lugar das paradas britânicas.

McCartney toca praticamente todos os instrumentos, sob a batuta do produtor Andrew Watt – que já assinou trabalhos de Lady Gaga, Elton John e dos Rolling Stones – e as canções versam sobre memórias de pessoas, parentes, lugares e amigos, como John, George e Ringo.

Dungeon Lane é o nome de uma rua próxima à casa de Paul que se estendia até o Rio Mersey, que cruza Liverpool. O ex-baterista dos Beatles faz um dueto com McCartney em Home of Us, que fala da dura vida dos habitantes da classe trabalhadora de Liverpool no pós-Guerra, mesmo tema de The Days We Left Behind, balada acústica e suave. John Lennon é referenciado em We Two; os pais em ­Salesman Saint e Momma Gets By.

Se não forem os melhores, Confessions 2 e The Boys of Dungeon Lane são, pelo menos, os discos mais espiritualizados e íntimos das carreiras de Madonna e ­McCartney. •

Publicado na edição n° 1421 de CartaCapital, em 15 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Valores e crenças reafirmados’

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