Cultura
Uma escritora e seus fantasmas
Ana Paula Maia, primeira brasileira a ser finalista do Booker Prize, é, desde a infância, fascinada pelo terror
Quando pequena, Ana Paula Maia tinha um acordo com o irmão para ver filmes na tevê: ele a acompanhava nos filmes de terror e ela assistia aos faroestes com ele. Ambos os gêneros, na vida adulta, acabariam por definir os caminhos de sua literatura.
Assim na Terra como Embaixo da Terra, publicado em 2017 pela Record e este ano indicado ao The International Booker Prize, é bem representativo desses dois universos que habitam a escritora de 48 anos, nascida em Nova Iguaçu (RJ).
O vencedor do Booker, um dos principais prêmios literários internacionais, será anunciado no próximo dia 19, no Reino Unido. A autora conversou com CartaCapital, via teleconferência, pouco depois de ser anunciada como finalista.
Ana Paula começou a escrever o romance em 2015, quando se mudou do Rio para Curitiba em busca de novos ares. No ano seguinte à publicação, ganhou seu primeiro Prêmio São Paulo de Literatura.
O segundo viria no ano posterior, com Enterre Seus Mortos, já publicado pela Companhia das Letras – que segue a ser a sua editora. O livro foi adaptado para o cinema com o mesmo título e direção de Marco Dutra, cineasta que, assim como ela, é adepto do terror.
Na Terra como Embaixo da Terra é o seu sexto romance e, segundo ela, integra um universo com o qual começou a trabalhar a partir de De Gados e Homens (2013), seu primeiro livro publicado por uma grande editora. Por isso, diz não haver estranhamento em ter de, dez anos depois da escrita, voltar a falar sobre a obra.
O romance tem como cenário uma colônia penal e é protagonizado por Edgar Wilson, uma figura recorrente em seus romances, cujo nome é inspirado no personagem William Wilson, criado por Edgar Allan Poe, uma das paixões literárias da escritora.
“Aqui em Curitiba há uma colônia penal; eu passava em frente e ficava pensando como seria a vida lá dentro”, diz. “Quando comecei a pesquisar sobre o sistema prisional da América Latina e da América do Norte, descobri que havia muitos traços da escravidão. Na época, vi a foto de um navio negreiro e ela me lembrou muito um presídio.”
A autora conta que sua pesquisa incluía jornais de cidades pequenas. Ela lia esses veículos na internet por considerar que, nesses lugares, “tudo é muito revelador”. A partir daí, imaginou uma colônia penal onde reina o horror e de onde ninguém consegue fugir – quem tenta é alvo de uma caçada humana.
“É uma história sobre como os homens se tornam cruéis. Eu queria criar personagens embrutecidos, um cara casca-grossa, e ver como ele resiste a espaços de confinamento”, explica Ana Paula, emendando que, em sua escrita, tudo nasce dos personagens. “São eles que determinam a trama.”
As questões trazidas no livro, assim como sua prosa sem adornos, ressoaram no júri do Booker Prize. Com o romance traduzido pela canadense Padma Viswanathan e publicado na Inglaterra pela prestigiosa Charco Press, uma editora independente voltada ao lançamento de escritores estrangeiros, Ana Paula tornou-se a primeira brasileira a figurar na lista dos seis finalistas do prêmio.
Obras. A versão inglesa de Assim na Terra como Embaixo da Terra (2017) é um dos seis livros indicados ao prêmio. Búfalos Selvagens (2024) é seu último romance
Outros dois romancistas brasileiros concorreram ao Booker, mas não chegaram à shortlist: Raduan Nassar, com Um Copo de Cólera, em 2016; e Paulo Scott, com Marrom e Amarelo, em 2022. Para concorrer, a tradução precisa ser inédita no Reino Unido e ter sido publicada entre abril e maio do ano da premiação. Só são elegíveis autores vivos.
O ganhador recebe 50 mil libras (perto de 330 mil reais), valor dividido igualmente entre o autor e o tradutor. Todos os finalistas recebem 2,5 mil libras cada (quase 17 mil reais).
Ana Paula concorre com escritores de diversos países e sua obra aparece em algumas listas dos romances mais bem cotados. Entre seus principais concorrentes estão o alemão Daniel Kehlmann, com The Director, e a francesa Marie NDiaye, autora de The Witch.
Estar nesse lugar não deixa de ser algo espantoso para a autora que, antes de começar a escrever nos fins de semana e perceber que ali estava a sua vocação, fez duas faculdades – Ciência da Computação e Comunicação Social. “Eu pensava que ia trabalhar com publicidade”, admite.
Seu primeiro romance, O Habitante das Falhas Subterrâneas, foi publicado em 2003 por uma editora pequena, a 7 Letras. Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos foi lançado em forma de folhetim na internet, em 2006, antes de ser publicado como livro pela Record.
Além de escritora, Ana Paula é roteirista. Em 2020, ela criou a série Desalma, do Globoplay, que teve duas temporadas. De Gados e Homens também já teve os direitos de adaptação para o audiovisual adquiridos – o que não é uma surpresa, dada a forte influência do cinema em sua literatura e do quão imagética é a sua escrita.
Seus dois livros mais recentes são De Cada Quinhentos uma Alma (2021) e Búfalos Selvagens (2024), ambos também de terror. A escritora promete um novo livro para este ano ainda: “Estou sempre escrevendo minhas maluquices”.
Ao lidar de forma inventiva com a realidade brasileira, Ana Paula produz livros sempre muito atuais, que extrapolam fronteiras – como comprova a indicação ao Booker. Uma das esferas que lhe interessam é a do trabalho. Para ela, as profissões definem de forma exacerbada como e o que vivemos – e, não raro, lembram colônias penais.
“Não sou muito otimista em relação ao ser humano”, admite. “O mundo é uma caçada e a gente está sempre com medo, sempre fugindo. Ao mesmo tempo, a gente está perseguindo.” •
Publicado na edição n° 1410 de CartaCapital, em 29 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Uma escritora e seus fantasmas’
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